Diálogos e afetos em tempos de pandemia

“Eis o que aprendi
nesses vales onde se afunda o poente:
afinal, tudo são luzes, e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo, nós somos suas breves incandescências.”

Em: “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” (Mia Couto)

Escolhemos essa frase para ilustrar poeticamente o que acreditamos ser o motor de qualquer percurso formativo: as relações humanas. Mas podemos dizer que a edição de 2020 do projeto Materiais Pedagógicos Acessíveis (MPA) do Instituto Rodrigo Mendes (IRM) não se constituiu como qualquer formação.

No início do ano, fomos pegos de surpresa por uma situação que ninguém poderia imaginar. De um instante para outro, tivemos que deixar de nos encontrar e nos vimos com o desafio de buscar novos caminhos para estar com o outro.

A formação Materiais Pedagógicos Acessíveis foi construída a partir da junção do universo maker com o da educação inclusiva. O objetivo era que educadoras e educadores pudessem (a partir de um desafio pedagógico concreto) repensar as suas práticas e construir um material pedagógico acessível, além de um plano de aula, que contemple todos os estudantes em suas diversidades.

Em março, nós, da equipe de formação do IRM, nos encontrávamos na fase final de preparação da 4ª edição do MPA. Estávamos animados com a possibilidade de utilizar todo o aprendizado do passado para construir uma formação muito próxima daquilo que considerávamos ideal em termos de carga horária, visitas a espaços maker, realização de oficinas etc. Porém, de uma hora para outra, tudo mudou.

 Conheça alguns materiais pedagógicos acessíveis elaborados a partir da formação
Tabuleiro de RPG para aulas de língua portuguesa e literatura 
Mancala acessível para conteúdos de matemática 
Caixa de instrumentos musicais para disciplinas de arte e educação física

O desafio da pandemia

O planejamento estava fechado com nosso parceiro realizador da formação — MudaLab — e com os financiadores do projeto — Instituto Credit Suisse Hedging-Griffo (ICSHG) e Instituto Península. E, depois de termos realizado uma reunião inicial com representantes das quatro secretarias de educação dos municípios participantes da formação, fomos surpreendidos pela chegada da pandemia de Covid-19 em nosso país.

Primeiramente, recebemos a notícia de que o espaço em que realizaríamos os encontros tinha acabado de fechar as portas e, pouco a pouco, vimos todas as possibilidades que tínhamos planejado caírem. Logo, as escolas e secretarias também foram fechadas, e nossa equipe passou a trabalhar remotamente. Todo o plano de trabalho que já tinha sido acordado com os parceiros, com os objetivos e etapas bem consolidadas, foi posto em xeque.

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Foi um momento de muitas incertezas e de conversas sobre a viabilidade de construirmos essa formação no formato remoto. Era difícil visualizarmos a construção de um material pedagógico à distância, bem como a sua utilização numa sala de aula que não existia mais fisicamente no cotidiano das educadoras e dos estudantes.

Novos caminhos

O primeiro passo foi entender como cada um dos municípios que participariam da formação estavam lidando com o isolamento e o trabalho remoto. Durante nosso acompanhamento, logo confirmamos que cada município enfrentava a situação a sua maneira.

Adiantamento de férias e de recessos, contato com as famílias, busca de estudantes e estruturação de atividades remotas foram apenas alguns dos desafios que se colocaram repentinamente para as gestoras e educadoras.

Percebemos que não seria possível apenas a transposição de uma metodologia dialógica, já testada no formato presencial, para um formato remoto com todas as suas peculiaridades.

Revisitamos, então, toda a estrutura da formação, organizamos um novo plano de trabalho, com ajustes nas estratégias e modificações no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA).

Nesse momento, junto com os parceiros do Mudalab, resolvemos apostar na possibilidade de enviar kits com as tecnologias para garantir que as educadoras participantes tivessem um momento mão na massa durante a construção dos materiais.

Lidando com o desconhecido: o início da edição 2020

Demos início ao processo de mobilização das participantes. Apesar de todas as conversas para a reestruturação da metodologia, o contexto mundial da pandemia colocava a todos, cotidianamente, em um terreno de insegurança e não saber.

Para lidar com o desconhecido, era necessário abrir espaço para uma construção conjunta com os parceiros, gestoras e educadoras de forma que o percurso formativo fosse efetivo, dialógico e significativo para todas e todos.

No dia 5 de junho, realizamos o primeiro dos quatorze encontros remotos da edição 2020 do Materiais Pedagógicos Acessíveis com os municípios paulistas de Nova Odessa, Peruíbe e Cruzeiro, uma vez que uma das redes precisou declinar do convite em virtude do isolamento.

Como tínhamos previsto, durante todo o percurso formativo e a cada passo do desenvolvimento dos projetos e dos encontros, avaliávamos e refletíamos para viabilizar não apenas a construção dos materiais pedagógicos, mas também relações de trocas de saberes e afetos nesse período único que imergimos.

Foram muitas estratégias construídas colaborativamente: envio de materiais no AVA, elaboração de vídeos e tutoriais para montagem e alteração das tecnologias, grupos de mensagens para orientações e dúvidas, discussão em grupos por escola realizados virtualmente, formulários de avaliação, entre outras.

Estratégias para eliminar barreiras

Pensando nas estratégias utilizadas, percebemos que um dos maiores desafios que teríamos pela frente era conseguir constituir efetivamente um grupo de trabalho em que todas as educadoras envolvidas pudessem se sentir confortáveis para se expressar e realizar trocas com os pares. Isso sem a possibilidade de aproximação corporal, mas com as imagens de telas e com a maior atenção que esse formato demanda.

Todos esses aspectos foram também vivenciados pelos mediadores que precisaram se adaptar nas formas de comunicação, sem contar com a profundidade do olhar para o encontro diante do cenário pandêmico.

Desde o primeiro dia, fizemos questão de que todas as educadoras pudessem se apresentar, além de compartilharem (a partir de um pedido de postagem no AVA) os seus saberes prévios em atividades manuais que posteriormente foram articulados com o conceito de Desenho Universal de Aprendizagem. Essa e outras estratégias e linguagens, como quando incorporamos um relato de afeto, tiveram um papel fundamental na constituição desse grupo.

Pudemos compartilhar histórias de aniversários, de relação com os filhos, de aproximação afetivas permeadas pelo contexto de isolamento social, além de algumas sessões iniciais de relaxamento e concentração.

Atividades como essas já faziam parte da metodologia do projeto, pois entendemos que nenhum processo formativo é construído pela transmissão de conhecimentos formais, mas de vivências e saberes prévios dos participantes, que são postos em circulação entre os grupos e mediadores.

Criando um espaço de acolhimento

A oportunidade de conhecer e trocar com todas e cada uma das participantes, de um grupo composto em sua totalidade por mulheres, mostrou-se como um campo muito potente também no contexto de isolamento social que a formação foi construída.

Tanto o grupo de mediadores da equipe de formação do IRM e do MudaLab quanto o de educadoras participantes foram impactados por uma série de questões, lutos pessoais e acúmulos de afazeres durante o período da pandemia. Assim, o espaço formativo dessa edição do projeto permitiu o compartilhamento dessas realidades de uma maneira bastante franca e acolhedora.

Em meio à tempestade, criar um espaço humano de acolhimento, reconhecendo nossas feridas e dificuldades e as singularidades de cada uma das cursistas e de seus territórios, fez emergir o protagonismo dessas educadoras e da comunidade escolar na busca por caminhos possíveis de construção de uma educação mais diversa e inclusiva.

Trabalho colaborativo e formação de redes de apoio

Outra característica da formação é a composição do grupo de cada uma das unidades escolares participantes. A presença da professora de sala comum, da professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e de uma gestora escolar possibilita que o impacto das discussões e realização do projeto na escola não se limite ao tempo de duração do percurso formativo. Pelo contrário, instiga que o trabalho colaborativo seja adotado nas redes de ensino, unidades educativas e salas de aula.

A partir de uma situação desafiadora pedagógica escolhida pelas próprias educadoras, pudemos construir, ao longo dos 14 encontros e atividades remotas, caminhos para organizar um trabalho pedagógico que contemplasse todos os estudantes.

Um dos grupos, por exemplo, construiu um jogo de memória, com opções de Libras, para ser trabalhado remotamente com os estudantes e suas famílias. Outro utilizou-se de um pirógrafo para compor um sistema digestório em madeira, e incorporou áudios explicativos de cada etapa da digestão humana enviados pelos próprios estudantes.

Desafios promovem inovações

Mais uma particularidade dessa edição do Materiais Pedagógicos Acessíveis foi que a situação desafiadora a ser escolhida carecia de uma vivência atual em sala de aula, já que todo o trabalho estava sendo feito de maneira remota.

Apesar disso, o novo formato também serviu como insumo para discutirmos a importância de propostas pedagógicas acessíveis que permitam o acesso aos mesmos conteúdos para todos os estudantes, com e sem deficiência, inclusive no período de isolamento. Também discutimos o lugar da família no processo educacional e a importância da consolidação de parcerias para uma educação de mais qualidade.

A composição de redes foi bastante acionada e consistente nessa edição, já que namorados, colegas e familiares foram também envolvidos no processo de construção dos materiais, seja cortando partes da estrutura do material, seja no auxílio com a programação do Arduino.

Conheça materiais com programação em Arduino 
+ Baú de contação de histórias para aulas de língua portuguesa 
+ Jogo do Território para geografia e história 
+ Teatro de fantoches com painel sonoro

Todos os grupos conseguiram montar as tecnologias básicas, alguns inclusive expandiram os projetos para outras possibilidades, com a compra de mais botões e alterações nos códigos base. Essa aproximação maior com a construção das tecnologias foi um grande ganho dessa edição do projeto e incentiva ainda mais a continuação, por parte das participantes, da criação de outras estratégias pedagógicas no dia a dia, sejam em atividades remotas ou presenciais.

Estes foram alguns pontos de um percurso cheio de dúvidas, mas que se mostrou com muita potência, a partir da colaboração de cada um dos envolvidos. Foi nítido o sentimento de orgulho e a aprendizagem de cada grupo quando, no último encontro, apresentaram os materiais finalizados para todas as outras educadoras, com um plano pedagógico que contempla a diversidade dos estudantes.

Um processo enriquecedor

Para nós, que vivemos esse processo, foi uma trajetória extremamente enriquecedora ao percebermos que, mesmo numa condição tão árida, a gente conseguiu encontrar um espaço de construção coletiva.

A fim de subsidiar teórica e conceitualmente a elaboração de projetos autorais das educadoras, refletimos sobre a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, histórico do movimento maker, novas tecnologias, trabalho colaborativo, acessibilidades, Desenho Universal de Aprendizagem, entre outros. Esse percurso formativo só foi possível pelo motivo que citamos no início desse texto, pelo estabelecimento de relações e de uma aposta em uma educação mais humana.

Os encontros aconteciam às sextas-feiras carregados de todas as questões e cansaços semanais, e a criação desse espaço de diálogo e de trocas teve, em muitas ocasiões, a potência de transformar o humor e a vontade de cada uma e cada um que esteve envolvido nesse processo. Ao desvelar nossa própria história, ao nos dispormos estar juntas e juntos, dentro do coletivo nos encorajamos a refletir, repensar e recriar nossa prática profissional.

Que essa experiência humana de formação continue a ressoar em nós e nas comunidades envolvidas. E que possa inspirar outros educadores a buscar garantir o aprendizado de todos os seus estudantes, negros, imigrantes, com deficiência… através da construção de redes colaborativas.

Que possamos nos fortalecer para enfrentar os imensos desafios que certamente teremos em 2021, não só pela continuidade da pandemia, mas pela desigualdade de oportunidades que permanece de maneira crescente em nosso país.

Três educadoras vestidas com máscaras faciais apresentam estrutura de jogo. Em cima da mesa há equipamentos eletrônicos, chaves de fenda e esboço triangular de jogo. Fim da descrição.
Educadoras da EMEF Prof. Carmen Cleuser Fraga Pimentel, da rede de Peruíbe (SP), desenvolvendo protótipo do Jogo da Cadeia Alimentar. (Foto: arquivo pessoal das cursistas)

“Nos acendendo uns nos outros”

Como disse Conceição Evaristo: “A vida não é uma conquista isolada.(…) Sozinho não dá conta”. (Seminário Escrevivência de Conceição Evaristo).

Muito obrigado ao Gui e Lara, parceiros queridos do MudaLab, sem os quais essa formação não aconteceria dessa forma. Ao Alexandre Moreira que viajou, criou e suou conosco para que o MPA existisse. Ao Luiz Conceição, Katia Cibas e Cecília Barreto, nossos incentivadores e suporte de todos os dias.

Ao IRM, ao Instituto CSHG e ao Instituto Península, que possibilitaram que esse processo existisse. Agradecemos também ao Fabio Miranda, do Instituto Favela da Paz, que teve um papel fundamental na logística de envio dos kits, cortes a laser de partes dos materiais e uma fala inspiradora sobre a potência da mobilização humana.

E, principalmente, a todas as cursistas das escolas: EMEF Prof Salime Abdo, EMEFEI Dante Gazzetta, EMEFEI Professora Alvina Maria Adamson e EMEFEI Theresinha Antonia Malaguetta Merenda, de Nova Odessa; E.M. Prof. Antonio Vicente da Silva Bueno, EM Módulo I Dom Bosco e EM Profª Girlene de C.A.Martinoli, de Cruzeiro; EMEF Álvaro Pereira Gaspar Filho, EMEF Prof. Carmen Cleuser Fraga Pimentel, EMEF Prof. Fernando Nepomuceno Filho e EMEF Prof. Maria Amélia Ribas Capilongo, de Peruíbe.

Como canta Caetano Veloso, e que levamos na voz do menino Otto em um vídeo para abertura de um dos encontros desta edição do Materiais Pedagógicos Acessíveis, “alguma coisa acontece no quando agora em mim, cantando eu mando a tristeza embora”.

Que possamos seguir cantando e juntas recriando novas formas de estarmos no mundo e de nos relacionarmos, ou como nas palavras do escritor moçambicano Mia Couto, nos acendendo um nos outros.

Não se está pronto o porvir
Seguiremos “esperançando”.


Diego Barcelos e Regina Mercurio compõem a equipe de formação do Instituto Rodrigo Mendes. 

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