Retorno escolar: redes se preocupam com saúde, segurança e defasagem

Por Aldrin Jonathan

Estados de São Paulo e Amazonas, que já retornaram às aulas presenciais, priorizaram medidas de acolhimento, busca ativa e recuperação de aprendizagem dos estudantes

Ao longo dos últimos meses, diversas redes de educação têm elaborado protocolos de retorno das aulas presenciais. E alguns estados já flexibilizaram o ensino remoto como São Paulo, Amazonas e Pará.

Apresentando uma realidade específica, cada rede estadual vem buscando diálogo com os órgãos de saúde para estabelecer uma diretriz que respeite o direito de escolha da família e preserve a saúde de estudantes e educadores.

Diante do contexto desafiador para a educação, protocolos de volta às aulas estão atentos em acolher a comunidade escolar e em atenuar evasão e defasagem escolar, além de garantir a participação de todos os estudantes no processo.

Em frente à cortina branca, pai coloca máscara de proteção contra a covid-19 em rosto de menina. Fim da descrição.

Estudantes com deficiência não são grupo de risco

De acordo com a pesquisa Protocolos sobre educação inclusiva durante a pandemia da COVID-19: um sobrevoo por 23 países e organismos internacionais, do Instituto Rodrigo Mendes, os estudantes com deficiência não devem ser desconsiderados no processo de retorno às escolas.

O estudo aponta que excluir os estudantes com deficiência da primeira fase do retorno, pressupondo que fazem parte do grupo de risco, pode representar um desrespeito aos direitos humanos.

Para isso, considera as diretrizes de instituições internacionais como a Organização Mundial de Saúde (OMS), Organização das Nações Unidas (ONU), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Fundo das Nações Unidas para a Infância.

A pesquisa também analisou protocolos de retorno de diversos países e escutou analistas de educação inclusiva do mundo todo. Para Luiza Andrade Corrêa, coordenadora de Advocacy do Instituto Rodrigo Mendes e responsável pelo estudo, o documento pode servir de referência para as medidas a serem tomadas de acordo com a realidade brasileira.

Estamos num momento de realmente pensar em inclusão, equidade, e em um ensino que seja acolhedor para todos os estudantes, independentemente de suas particularidades.

Processo de retomada

A rede estadual de São Paulo elaborou um protocolo de retomada em concordância com a pesquisa. Considerou o retorno de todos estudantes do ensino médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), com deficiência ou não, já na primeira fase, em 7 de outubro.

Mulher coloca máscara de proteção contra a covid-19 e rosto de criança. Fim da descrição.

As atividades presenciais só foram iniciadas a partir do momento em que a escola recebeu os equipamentos de proteção individual, com máscaras que foram disponibilizadas para todos os alunos e profissionais. As escolas também foram equipadas com álcool gel, sabonete e papel-toalha.

Também foram criados protocolos locais de saída e entrada de pessoas. Desde o começo das atividades, há o limite máximo de até 35% dos alunos em cada período. O número corresponde a 14 estudantes em sala por vez, para que o distanciamento de 1,5 metro seja garantido.

Conheça ações da rede de São Paulo durante o ensino remoto
+ Ações de secretaria municipal apoiam estudantes e familiares
+ SME de São Paulo busca assegurar aprendizado a todos durante a quarentena

Para além das medidas sanitárias, a Secretaria de Educação de São Paulo (SEDUC) também possibilita adaptações de acordo com a realidade da escola. Exemplo disso é a compra de máscaras transparentes para unidades com estudantes com deficiência auditiva e que fazem uso da leitura labial, e recursos adicionais para possibilitar a acessibilidade e a segurança de todos os estudantes. É o que explica o coordenador pedagógico da SEDUC, Caetano Siqueira:

Um ponto interessante da nossa política de retorno é que, além dos protocolos poderem ser aplicados em nível local, as escolas têm recursos para fazer as adaptações de acordo com o seu contexto.

O retorno está acontecendo de maneira gradual e híbrida: em setembro iniciou com atividades extracurriculares, ou de reforço e recuperação, disponibilizando o espaço escolar para o uso de tecnologias pelos estudantes.

Nos casos de ausência de acesso ao computador e à internet em casa, os alunos puderam utilizar o laboratório e fazer as lições na escola.

Amazonas foi o primeiro estado a retornar

Por sua vez, na rede estadual do Amazonas, as atividades presenciais retornaram com 50% do público total, de forma gradual e escalonada. Em 10 de setembro, para o ensino médio e EJA; e em 24 de setembro, para as turmas de ensino fundamental.

Também de maneira híbrida, as turmas foram divididas em blocos (A e B) e comparecem à unidade de ensino em dias alternados, para evitar aglomerações. Quando estiver em casa, o aluno deve acompanhar as transmissões do projeto “Aula em Casa”.

As escolas da rede foram ajustadas e sinalizadas para que os protocolos de segurança pudessem ser aplicados. Foram instaladas pias e dispositivos de álcool gel e sabão e distribuídas máscaras de pano e equipamentos de proteção individual a todos os integrantes da equipe escolar.

Salas de aula, refeitórios e outros ambientes comuns, como biblioteca, também foram reorganizados para que o distanciamento mínimo fosse respeitado.

Conheça práticas inclusivas de escolas do Amazonas
+ Educadoras realizam projeto extracurricular em comunidade indígena
+ Projeto inclusivo ensina crianças por meio de jogos e programação

O Plano de Retorno das Atividades Presenciais no estado do Amazonas foi elaborado pela Secretaria de Estado de Educação e Desporto em parceria com a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). E também considera que ser estudante com deficiência não representa maior vulnerabilidade ao coronavírus.

De acordo com o secretário de educação do Amazonas, Luis Fabian Barbosa, a comunidade escolar demonstrou inicialmente insegurança em relação ao retorno. Mas a secretaria está tomando medidas em consonância com os órgãos de saúde para que a retomada garanta a segurança de todos.

Temos buscado mostrar aos pais e professores que a escola é, sim, um lugar seguro. Fizemos todas as adequações necessárias para que o retorno ocorresse de forma gradativa, responsável e, principalmente, segura.

Evasão Escolar

Uma das maiores preocupações desde o fechamento das escolas é evitar que algum estudante fique para trás. Dessa forma, algumas medidas para recuperação de aprendizagem e redução da evasão escolar foram tomadas.

Foto ilustrativa de lousa com giz e apagador. Fim da descrição.
Foto: Marcos Santos. Fonte: USP Imagens

No Amazonas, a rede estadual criou o programa Busca Ativa Escolar. A iniciativa procura identificar, contatar e resgatar os estudantes que não retornaram à escola. O programa realiza contato com as famílias, sensibiliza a comunidade escolar e conta com uma rede de apoio para assegurar o retorno de todos.

Até o final de setembro, 77% dos estudantes do ensino médio comparecerem às aulas presenciais. De acordo com o secretário, o objetivo é que “o número cresça ainda mais” e alcance a todos.

Já em São Paulo, a secretaria de educação estadual lançou um sistema de monitoramento de abandono escolar. Em novembro as escolas irão receber um relatório com os alunos com a maior probabilidade de evadir. Os dados servirão para intensificar o acolhimento e oferecer alternativas adequadas para cada caso.

Planos de recuperação de aprendizagem

Além das medidas de redução da evasão escolar, as redes estão atentas ao processo de prejuízo na aprendizagem dos estudantes. Para o professor de educação física de escola de Belém (PA), Itair Medeiros, o maior desafio do período é conseguir minimizar o impacto no desenvolvimento escolar dos estudantes.

A pandemia nos ensinou várias coisas. Uma delas é que é indispensável a aquisição do conhecimento, ainda mais em um contexto de desemparo da população brasileira, frente aos serviços básicos.

Com relação a esses efeitos, o estado do Amazonas realizou em agosto a Avaliação de Verificação da Aprendizagem com os estudantes do ensino médio. Os testes visam medir o aprendizado dos alunos durante o regime especial de aulas não presenciais e, a partir do diagnóstico, traçar estratégias de recuperação de aprendizagem dos alunos.

Além disso, houve a distribuição de um Guia do Estudante, uma espécie de apostila com todos os conteúdos trabalhados de forma remota pelo projeto “Aula em Casa”.

Leia mais
+ Professoras relatam impactos positivos das aulas remotas

Na mesma linha, o estado de São Paulo está buscando soluções para reduzir a desigualdade no aprendizado. Uma das ações é a intensificação do programa de recuperação. Para isso, materiais didáticos impressos e adicionais estão sendo distribuídos para todos os estudantes. Os conteúdos preveem aprendizado em língua portuguesa e matemática, com as habilidades essenciais a serem recuperadas.

Também foi oferecida aos educadores uma formação adicional quanto aos outros componentes para fazer a recuperação dessas habilidades. Além disso, aulas específicas estão sendo transmitidas no Centro de Mídias e transmitidas todos os dias.

De acordo com Caetano Siqueira, houve uma reorientação da metodologia de acompanhamento pedagógico para os profissionais de educação. A proposta visa aumentar a atenção em relação à defasagem escolar:

Nossa ideia é que todos estejam focados em diminuir a defasagem no aprendizado

Preocupação com a saúde mental

Outros aspectos da saúde, tanto físicos quanto mentais, também precisam ser considerados nesse momento. Por conta disso, as redes de educação também estão tomando ações para minimizar o impacto psicológico causado pelo isolamento social e pela pandemia da covid-19.

Em São Paulo, a secretaria estadual trabalhou a construção de documentos orientadores e guias de atividades para apoiar educadores e estudantes. As ações estão sendo implementadas por uma rede de professores coordenadores de núcleos pedagógicos, que são professores da rede, mas que também tem alguma formação em psicologia ou em psicopedagogia.

Já a rede estadual de educação do Amazonas deu início ao projeto “A escola como espaço de aprendizagem socioemocional”. Por meio de palestras, rodas de conversa e escuta técnica, a ação tem como objetivo fazer com que servidores e alunos conheçam e aprendam a lidar com as suas emoções, valorizando a si mesmos e ao próximo.

Os educadores podem, ainda, contar com o programa Vivescer, uma parceria da Secretaria de Educação com o Instituto Península. O objetivo é levar, por meio de formação EaD, autoconhecimento, autocuidado e mudanças de práticas aos nossos professores. Ao todo, a plataforma possui quatro cursos (com 16 atividades cada), baseados no desenvolvimento das emoções, da mente e do corpo.

Luis Fabian Barbosa explica que a atenção à saúde e à família foi uma das principais preocupações da elaboração do plano de retorno:

Todos os esforços da equipe psicossocial da secretaria de educação estão voltados a entender as realidades distintas pelas quais passam nossos estudantes e profissionais.

Compartilhe este conteúdo com seus amigos.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: