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Mãe destaca participação nos processos de ensino da escola dos filhos

Especialista em inclusão e mãe de duas crianças em idade escolar, Vivi Paiva relata sua relação com as escolas dos filhos

Meus filhos, João Pedro e Clarinha, sempre estudaram em escola particular. Passaram por várias metodologias, tradicional, construtivista e sócio interacionista. Até o ano passado estudaram juntos, mas agora, João Pedro, no ensino médio, mudou de escola.

A minha relação com a atual escola da Clarinha sempre foi incrível: temos uma excelente parceria. Ouvimos, aprendemos e ensinamos, juntos e pensando nela.

Contudo, minha relação com as escolas em que eles estudaram nem foi sempre boa. Mesmo me colocando à disposição e contribuindo por meio do meu projeto, o @inclusivamente, eu senti que as escolas se diziam “não preparadas” para ensinar minha filha, que tem síndrome de Down. Por isso, promovi, durante mais de 7 anos, formação e capacitação de profissionais da educação, mas nem sempre encontrei as portas abertas.

Existe ainda muita resistência da presença das famílias dentro da escola. Não enxergam que a escola é também a família, a qual a criança permanece durante boa parte da sua vida.

Sempre entendi que a parceria entre família, escola e terapeutas é fundamental para o desenvolvimento da criança com ou sem deficiência. Os saberes em prol da criança podem dar o impulso necessário para que ela se desenvolva no maior potencial dela – não em comparação a ninguém.

Porém, as escolas ainda enxergam como ameaça que profissionais da saúde e familiares possam contribuir para que, juntos, tracem objetivos e desafios concretos e possíveis, para que a inclusão seja uma realidade e não “um faz de conta”.

 

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A família contribui em todos os processos

Tudo o que envolve uma criança precisa ser pensado por todos que a assistem, auxiliam e contribuem para o seu desenvolvimento.

Pensar que a escola detém todo o poder sobre a aprendizagem daquela criança é ingenuidade, assim como a família também não é a única detentora de ferramentas e possibilidades para que a criança se desenvolva bem e feliz.

Cada criança tem habilidades, muitas vezes escondidas e apagadas por padrões impostos de uma educação que não flexibiliza a metodologia aplicada. Compreender os saberes dessa criança, portanto, envolve muito mais do que didática, pedagogia e especializações.

Uma criança é um universo novo a ser descoberto, e a família consegue dar informações importantes para que a escola trace objetivos embasados nestas habilidades extracurriculares. Não se trata também de “esperar o tempo da criança” sem que ela receba recursos e ferramentas de equidade.

A família contribui em todos os processos, desde as restrições que precisam existir para respeitar a criança, até elementos que conectem o estudante com o universo da escola. Existe uma separação e esse é o maior erro. Não é escola em um lado e família do outro. São todos juntos, traçando ideias e estratégias que funcionem para aquela criança.

Em espaço externo, mãe, pai e filhos, um menino e uma menina, sorriem para foto. Fim da descrição.
Foto: Vivi Paiva Reis. Fonte: arquivo pessoal.

Como manter a proximidade com a escola

Durante a pandemia, fui estudar sobre metodologias ativas, e elas foram fundamentais para contribuir com as aulas on-line. Mais do que nunca, ficou escancarado o abismo entre a aprendizagem e o ensino. Muitas crianças ficaram meses sem aulas, pois as aulas on-line não contemplavam as necessidades de muitas crianças com deficiência.

Como tenho um ótimo diálogo e abertura com a escola da minha filha, buscamos juntos, por meio das metodologias ativas, formas para que ela fosse mais ativa que passiva no processo. Um exemplo é perguntar o que a criança está vendo na sua tela, ou o que aquilo a faz lembrar, que cores tem ali, pedir para ela descrever, ou, caso a criança tenha deficiência visual, descrever para ela, e ajudá-la a levantar hipóteses sobre a imagem.

Quando o estudante é um agente ativo do processo de aprendizagem, ele aprende melhor, porque está colocando seus saberes à prova. Mesmo que ele tenha dificuldades em levantar hipóteses, existem outras formas de contribuir para que ele busque em seu repertório o que aquilo representa e, a partir dali, construírem juntos novas informações sobre o fato ou assunto tratado.

A proximidade na volta das aulas presenciais pode acontecer por meio de reuniões, da elaboração em conjunto do Plano Educacional Individualizado (PEI) e da troca de informações utilizando a tecnologia como ferramenta de solução de problemas e dúvidas. Na verdade, mesmo em meio à pandemia, essa proximidade deveria ter acontecido, com as devidas adaptações e reuniões remotas.

 

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Família apoiando a educação inclusiva

A família precisa se colocar à disposição e a escola também precisa compreender que a família é um aliado e não um inimigo.

Quando nos permitimos escutar e colaborar, sem achar que um sabe mais que o outro, tudo flui, pois juntos conseguimos estabelecer estratégias muito mais eficazes.

Estamos todos em evolução e no processo inicial de inclusão. Viemos de décadas de exclusão, integração. É um processo e, portanto, está em evolução, mas precisa acontecer de forma mais rápida, pois a lentidão com que a maioria das escolas mobiliza a comunidade escolar para que a inclusão seja real deixa o processo, ainda, muito lento.

Acredito que isso se deva ao fato de a sociedade ainda enxergar a criança com deficiência com capacitismo. Ela não disponibiliza recursos financeiros, porque pensa ser um custo e não um investimento. Dificulta o processo, e a criança não se sente incluída. A família, por outro lado, não vê avanços.

Assim como a família tem seu papel de educar e dar a oportunidade para seus filhos dentro de suas possibilidades, a escola precisa tomar para si o seu papel de alfabetizador e de educador social. A escola pode fazer com que as crianças cresçam respeitando seus pares, valorizando o que cada um traz, e principalmente, acreditando que todo estudante tem algo a ensinar, inclusive para o professor.

Ações da escola para garantir que a família seja participante

A família precisa participar do processo de aprendizagem, e facilitar a comunicação entre as partes é uma potente ferramenta para agilizar processos pedagógicos e sociais.

Um exemplo são os grupos de WhatsApp, formados pela escola, família e terapeutas que atendem a criança. A tecnologia está aí para ser usada em benefício da inclusão.

Quando surge uma dúvida sobre uma determinada adequação, por exemplo, ela pode ser colocada em um grupo da escola, que, colaborativamente, irá contribuir da melhor forma.

Se a dúvida for colocada na agenda ou esperar uma nova reunião, as chances daquela questão já ter passado são enormes. A agilidade para resolver os possíveis obstáculos é um impulso importantíssimo para que as lacunas de aprendizagem não aumentem a ponto de perdermos de vista onde a criança precisa chegar.

Além do grupo de WhatsApp, há reuniões para discutir os avanços e as dificuldades de aprendizagem. Buscamos sempre encontrar as portas de aprendizagem que já estão abertas, facilitando o conhecimento prévio, a identificação e uma aprendizagem mais eficaz e duradoura.

O PEI também é elaborado em conjunto e busca traçar os objetivos concretos, e as ferramentas que serão utilizadas para que aquela criança se desenvolva e aprenda.

De quem é o protagonismo quando se trata de alfabetização de crianças com deficiência?

Essa é uma pergunta que precisamos fazer e discutir, para que saibamos o papel de cada um e de todos no processo de aprendizagem e alfabetização.

Gostaria então de fazer alguns questionamentos, ao invés de dar minha opinião.

Por que ninguém questiona quem alfabetiza a criança quando ela não tem deficiência? Por que, então, questionamos quando essa criança tem alguma deficiência ou dificuldade de aprendizagem?

Por que continuamos ensinando da mesma forma, ao invés de mudarmos o ensino para contemplar um número cada vez maior de aprendizagem diversa?

Por que ainda questionamos a presença de crianças com deficiência em escolas comuns?

Não vou dizer a minha resposta, espero que cada um possa pensar, segundo seu viés inconsciente, por que ainda não está contribuindo para uma escola mais inclusiva.

 

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A família não é a única detentora dessa responsabilidade. Ela é o primeiro ambiente social da criança, o primeiro núcleo empoderador ou podador.

É a família que irá, por meio do “acreditar”, dar possibilidades e oportunidades de aprendizagem. Mas é a sociedade, como um todo, que é corresponsável pelo sucesso de inclusão dessa criança em todos os espaços.

A família, sozinha, não avança, por mais que ela acredite, por mais que oportunize, pois é na vida que a inclusão é efetivada: é no parque, na natação, na escola, na praia, no cinema, no mercado de trabalho.

Se acreditarmos realmente na vida como uma eterna aprendizagem, onde somos protagonistas de nossas vidas e coadjuvantes ativos na vida de pessoas que não encontram portas abertas para viverem o “seu eu”, certamente, o mundo será um lugar melhor para todos e para cada um.

Não se trata de caridade, trata-se de vida e de valorizar o que cada um traz de si e de seu jeito de ser e estar no mundo.

Uma criança que cresce em meio à diversidade, é uma criança muito mais preparada para as adversidades que irá encontrar na fase adulta.

A inclusão ensina, sem precisar de papel, lápis ou lousa. Ela é o verdadeiro tesouro que menosprezamos, na ideia retrógrada de competição e valorização de competências de currículo.


Vivi Paiva Reis é educadora, escritora, mãe do João Pedro de 15 anos e da Maria Clara de 12 anos. Clarinha nasceu com T21/síndrome de Down. Vivi publicou recentemente o livro “Quem nasceu? Minha filha ou o diagnóstico?”.

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