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Educadores refletem próprio papel no apoio à educação inclusiva

Formação continuada e mudança de olhar: além de acessibilidade arquitetônica, educadores afirmam que conhecimento é a base para escolas inclusivas de fato

Por Juliana Delgado

Os avanços na garantia do direito à educação para pessoas com deficiência têm ganhado espaço aos poucos, mas já é uma mudança considerável – e ainda necessária.

De acordo com o Censo Escolar 2020, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o número de estudantes com deficiência em escolas comuns ultrapassa um milhão.

Contudo, apenas contar com a presença de estudantes com deficiência nas salas de aula não é o suficiente. A construção de ambientes escolares realmente inclusivos é essencial, assim como o papel dos educadores nesse processo.

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Pensando nisso, educadores de escolas que se preocupam com uma educação para todos tem buscado cada vez mais estratégias pedagógicas, além de mudanças estruturais, para contemplar todas as alunas e alunos nos processos de ensino-aprendizagem, independentemente de suas singularidades.

Em sala de aula, educadora sentada à mesa mostra tabela com letras vogais e desenhos para ilustrá-las. À frente da professora, duas estudantes de costas participam da aula.
Fonte: Pexels.

O DIVERSA entrevistou Gislaine Kamer Bento, Valdineia Nascimento, Helayne Carvalho, Érica Stachera, André Cyrino, Luiz Felipe Lins e Suzi Dornelas, todos educadores de escolas públicas brasileiras, para entender a importância da diversidade em sala de aula e o papel das professoras e professores na educação inclusiva. Confira, a seguir, as opiniões de cada um:

Diversidade nas escolas

DIVERSA – Como você enxerga a importância da diversidade na escola? Como a educação inclusiva nas escolas comuns apoia essa questão?

André Cyrino (A.C.): A diversidade é um valor cada vez mais estimulado socialmente. Muitos jovens e adolescentes gostam de valorizar sua individualidade, de construir sua própria identidade, marcar-se corporalmente, inclusive com seus símbolos de apreço, enfim…

Conseguimos ver essa diversidade também em outros diversos fatores, de gênero, raça, diversidade das pessoas com deficiência, que a escola também trabalha… A educação para a diversidade, que acaba sendo educação inclusiva, é um dado concreto da realidade que cada vez mais a gente não vai conseguir negar.

Érica Stachera (E.S.): A diversidade ajuda a considerar cada criança um ser único, respeitando a sua trajetória de vida, as suas condições socioemocionais, psicológicas e físicas, bem como seus conhecimentos prévios, sua forma de aprender e seu ritmo de aprendizagem, promovendo uma educação mais inclusiva e equitativa.

Gislaine Bento (G.B.): Estar em um espaço onde educação e diversidade caminham juntos é muito importante. A transformação por meio de informações pertinentes sobre gêneros, etnias e inclusão é fundamental. Abordar esses temas em palestras, rodas de conversas e situações reais torna mais claro que, infelizmente, o preconceito existe, mas que o ambiente escolar pode mudar o pensamento e o comportamento dos indivíduos.

Helayne Carvalho (H.C.): Apoiar a diversidade na escola é viabilizar diferentes espaços de aprendizagem, pois os alunos têm a oportunidade de aprender a ter empatia, enxergando o indivíduo através da potencialidade e não da deficiência.

Quanto à educação inclusiva nas escolas comuns, avalio que ainda precisamos ser mais assertivos, a fim de proporcionar espaços de formação mais direcionados à diversidade.

Luiz Lins (L.L.): Eu acredito que a diversidade na escola é algo enriquecedor. As crianças precisam estar no convívio umas das outras, precisam socializar com crianças da sua idade e precisam ser respeitadas. Cada criança aprende no seu tempo e do seu jeito. Escola inclusiva é escola onde o aluno é protagonista, onde o professor é protagonista, e, juntos, constroem um espaço de acolhimento.

Suzi Dornelas (S.D): A diversidade da escola permite desenvolver o ensino e o diálogo sobre o respeito às diferenças. Dessa forma, nós, educadores, temos que estar em consonância com assuntos contemporâneos e nos posicionar frente a situações preconceituosas, que comprometem a inclusão de todos.

Valdineia Nascimento (V.N.): A diversidade é primordial nas escolas e em todos os espaços sociais, pois, ao conviver com as diferenças, as crianças têm a oportunidade de se tornarem adultos inclusivos, tolerantes, compreensivos, que, além de aceitar as diferenças, respeitam e percebem que é possível aprender com o diferente, que o diferente não incomoda, não atrapalha, mas pensa, sente, aprende, brinca e interage à sua maneira.

Avanços na educação inclusiva

– Qual sua percepção sobre os avanços na educação inclusiva? Na sua opinião, quais barreiras ainda precisam ser eliminadas?

A.C.: Os avanços são concretos, eles existem, eles ainda não estão no patamar que gostaríamos. Eu acho que o principal avanço que ainda precisamos é de recurso humano, que entraria no professor tradicional das disciplinas com reforço de formação, de espaço, de sensibilização, mas também com recurso humano especializado, que acho que é o que mais nos falta.

Outra barreira é a resistência do corpo escolar, da gestão, da coordenação, de ver um estudante com deficiência como um trabalho a mais para a escola. Muitas vezes ele pensa que vai estar fazendo bem para família, quando na verdade está fazendo mal. Se o aluno procurou aquela escola é porque a escola, de alguma forma, corresponde ao que ele precisa. Então, quando há essa negativa, não é uma questão de estrutura, é uma questão de visão, de educação. Essa talvez seja a barreira mais complexa, porque é uma barreira que exige muitas tarefas, de diferentes pessoas, para ser derrubada.

E.S.: Os avanços são o aumento da matrícula do aluno com deficiência na escola regular pública, bem como a sua permanência, o início da formação continuada para os professores da sala regular e do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a obrigatoriedade da inclusão de metodologias e estratégias adequadas a esse público-alvo no Projeto Político Pedagógico da unidade escolar.

As barreiras que ainda precisam ser eliminadas são as faltas de uma estrutura física adequada para o atendimento inclusivo, de atendimento multidisciplinar pela área da saúde e de formação continuada para os professores e gestores em nível superior. No entanto, considero ainda o preconceito a maior barreira a ser eliminada.

G.B.: Os avanços são diários e isso acontece porque os alunos estão todos juntos e misturados. Um retrocesso implicaria em todo desenvolvimento e conquistas obtidas ao longo desses anos. É fato que essa convivência faz com que o conhecimento e suas vivências gerem trocas, havendo reflexões, ajuda, solidariedade, afeto e empatia.

Claro que ainda existem barreiras, uma delas é o preconceito. Ainda há muitas pessoas que veem os alunos com deficiência com receio de como lidar com eles. Por isso a formação de professores com esclarecimento sobre as deficiências é fundamental. Também é necessário orientar que não é porque o aluno tem determinada deficiência que obrigatoriamente ele terá um comportamento ou desenvolvimento específico. Cada ser é único e devemos respeita-los.

H.C.: São muitos os avanços, e a inclusão nas escolas é o exemplo que muita coisa foi modificada. Às vezes as barreiras são tão grandes que nos parecem intransponíveis, podendo ser de transporte, tecnologias, comunicacionais e de informação, urbanísticas, arquitetônicas, atitudinais e pedagógicas. Dentre as quais destaco as barreiras pedagógicas, que se inserem quando as práticas pedagógicas não consideram as potencialidades dos alunos com deficiência, simplificando as vivências pedagógicas e empobrecendo o currículo escolar.

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L.L.: Precisamos de uma educação inclusiva de verdade. É muito difícil a gente falar em inclusão quando às vezes uma escola não tem uma rampa, quando nós aprendemos a trabalhar especificamente, mas nossos colegas não… Então a gente precisa primeiro de políticas governamentais que entendam que todos os lugares precisam ser acessíveis a todas as pessoas, porque nem todo ser humano é igual. Mas também precisamos de políticas educacionais e respeito. Se excluir, nós não avançamos, e não podemos dar um passo atrás.

S.D.: Eu percebo que muitos avanços no que diz respeito a educação inclusiva no Brasil foram conquistados até o dia de hoje, porque as crianças com deficiência possuem espaço no contexto escolar. No entanto, para que essa educação seja realmente efetiva, se faz necessário investimento na formação dos profissionais, dos professores atuando na escola, e também precisa ter uma equipe multidisciplinar que atue junto para atender a demanda dos alunos. Além disso, as políticas públicas precisam estar de acordo com quem atua no contexto escolar e vive dentro dessa realidade.

V.N.: Pudemos observar muitos avanços acerca da educação inclusiva. Se os estudantes com deficiência estivessem em casa ou instituições, como muitas pessoas sugeriram, será que teriam se desenvolvido tanto? Para essas famílias chegarem até a escola já não foi tarefa fácil, vivenciaram barreiras, preconceitos velados e explícitos, mas acreditaram no direito de seus filhos. A maior barreira que precisa ser eliminada é a ignorância, no sentido literal da palavra. Algumas exclusões ocorrem por falta de conhecimento, o discurso: “não sei o que fazer com esta deficiência”, por exemplo, não é admissível. Se nós, educadores, não conhecemos determinada síndrome ou deficiência, o que fazemos? Pesquisar é a única maneira de pôr em prática ações inclusivas. Fácil? Não. Mas é sem dúvida transformador!

Construção de ambientes escolares inclusivos

– Qual o papel do professor na construção de ambientes escolares inclusivos? Como os profissionais de Atendimento Educacional Especializado (AEE) podem apoiar a sala de aula comum?

A.C.: A rede estadual do Ceará, onde trabalho, não tem atendimento especializado. Mas acho que o professor tem condições de propiciar um processo de ensino que esteja aberto às diferentes possibilidades de cada pessoa. A principal tarefa de um professor é escutar os estudantes, escutar as pessoas, elas têm muito mais a nos ajudar do que a gente pensa.

Eu tenho um exemplo nítido a respeito disso: eu queria muito que um estudante com osteogênese imperfeita, que o nome popular é “ossos de vidro”, trabalhasse comigo e pensei “vou chamar ele, conversar com ele pra ver o que ele acha” e foi maravilhoso! Ele falou “Nunca nenhuma escola permitiu que eu participasse, porque tinham medo que eu me machucasse. Se o sr. está me permitindo, isso é suficiente. Vou dizendo o que posso fazer e o que não posso”. A autonomia dele foi algo que não podia ser negado.

E.S.: O papel do professor é o de acolher, valorizar as diferenças dos alunos e promover um ambiente que respeite essas diferenças.

Os profissionais de AEE podem apoiar a partir de indicações de metodologias e estratégias que melhor atendam as especificidades dos estudantes na sala regular, em atendimentos periódicos organizados pela coordenação da unidade escolar.

G.B.: O professor é um mediador na transformação dos alunos, fazendo com que todos participem juntos e possam aprender uns com os outros. Estar em contato com os professores da sala comum sempre foi uma grande barreira. Porém, com a pandemia, a gestão da escola aplicou de forma tecnológica meios que o contato realmente fosse efetivo, com os professores da sala regular tendo acesso às informações dos anexos dos estudantes, facilitando a comunicação e as orientações.

H.C.: O professor da sala regular tem papel fundamental para tornar a sala de aula um ambiente mais inclusivo. Ele está a maior parte do tempo com o aluno, enxergando suas dificuldades de aprendizagem e redirecionado as vivências pedagógicas. Ele é o principal elo para a inclusão do estudante na escola. Quanto aos profissionais do AEE, avalio que são fundamentais para apoiar o professor nessa tarefa de incluir o aluno, orientando-o nas atividades e estratégias a serem utilizadas por eles.

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L.L.: Eu acredito muito nos profissionais de Atendimento Educacional Especializado. Eu acho que a gente pode trabalhar de forma integrada. A minha experiência com as salas de recursos sempre foi maravilhosa. Todo material que eu produzo para cada criança é um material próprio, porque eu primeiro analiso onde ele está em cada etapa, em cada ano escolar, e onde eu quero chegar. Todo material é passado para a sala comum, então eu trabalho de forma lúdica, para construir um conhecimento significativo para aquela criança.

S.D.: É papel do educador envolver e incluir todos seus alunos nas aulas. Para tanto é preciso ter o respaldo de uma equipe multidisciplinar para auxiliar no intento de atender todas as necessidades pedagógicas. O professor de apoio pedagógico auxilia o professor de sala comum a facilitar o acesso aos conteúdos dos estudantes com dificuldades de aprendizagens, buscando incluí-los efetivamente nas aulas.

V.N.: O papel do professor é muito importante nesse processo, mas ele não atua sozinho, há a necessidade de um trabalho colaborativo. Quando a gestão compreende a riqueza da inclusão, da diversidade e as possibilidades de aprendizagem, os resultados positivos vêm de forma natural. Esse trabalho colaborativo envolve também o profissional do AEE que, ao conhecer mais especificamente sobre questões técnicas, pode orientar e auxiliar o educador da sala regular. A prática do diálogo é muito importante.

Planejamento e conhecimento

– De que forma os professores podem planejar práticas pedagógicas que respeitem as formas de aprendizagem de cada estudante?

A.C.: Não consigo ver uma forma de pensar um planejamento que olhe para as individualidades dos alunos, consigo pensar em uma motivação. Acho que quando o professor vai planejar um processo de ensino, ele tem que ser o mais diverso possível. Mais amplo, mais complexo, que abarque a maior parte dos alunos. E ele deve se sentir motivado a fazer isso, para começar a olhar realmente para os alunos e ver indivíduos e não números.

Antes da forma, vem a motivação, o olhar e o descobrir os alunos com essa individualidade. Talvez isso ainda falte pra alguns colegas, isso muito também pela pressão das avalições externas, que não olham para os indivíduos, mas para a massa homogênea… Temos todo um contexto de educação que não valoriza as individualidades. Aí o professor acaba caindo nessa armadilha. E não é só responsabilidade dele, mas claro que cada um de nós pode tentar não contribuir mais com esse processo.

E.S.: Podemos planejar práticas pedagógicas que respeitem as formas de aprendizagem a partir de um plano de ação alicerçado no diagnóstico inicial de cada aluno, considerando o plano de ensino da unidade escolar e oferecendo materiais diversificados e aulas mais dinâmicas, eliminando as barreiras que limitam a aprendizagem de cada aluno.

G.B.: É necessário conhecer o aluno e sua vivência é essencial para que o planejamento e o seu desenvolvimento aconteçam de forma efetiva. Observar suas potencialidades e fragilidades, contudo respeitando suas especificidades com uma aprendizagem significativa.

H.C.: Entendo que o primeiro passo é conhecer o aluno e quais suas potencialidades, para, em seguida, planejar a vivência que será realizada. Conceber a ideia de que o planejamento é o início de todo um trabalho a ser desenvolvido, portanto, deve ser realizado de forma sistemática e individualizada, visando o desenvolvimento da aprendizagem de todos.

L.L.: Perceber a etapa em que cada estudante está possibilita um planejamento personalizado, um planejamento individualizado, onde cada criança cresça no seu tempo, respeitando suas individualidades, superando suas dificuldades, mas sabendo que tem um profissional que está ao seu lado, junto com ele, contribuindo para esse crescimento.

S.D.: Acredito que o Programa de Ensino Individualizado (PEI) destinado aos estudantes com deficiência colabora para que seja levada em consideração as necessidades de adequação de ensino de acordo com as características dos estudantes, a fim de apresentar diversas possibilidades de aprendizagens e incluí-los verdadeiramente.

V.N.: Os professores podem planejar práticas respeitando as formas de aprendizagem e conhecendo o estudante. Sem conhecer as reais necessidades não há como fazer um bom trabalho.

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