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Participação das famílias na elaboração de propostas escolares

A família é base importantíssima na constituição do ser humano. Costuma ser o primeiro grupo social no qual convivemos e nos acompanha por toda a vida. Mesmo quando perdemos o contato físico com familiares, eles permanecem vivos em nossa memória e, com eles, muito de nosso aprendizado.

É nesse núcleo que aprendemos a conviver com as diferenças uns dos outros, a respeitar a individualidade de cada um, a compartilharmos afetos e construirmos valores que serão o alicerce da nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo. No convívio familiar, aprendemos a lidar com compromissos e conflitos. Na verdade, na melhor das hipóteses, assim costumamos conceber a família.

Nesse sentido, penso que tanto a família como as pessoas que atuam como tutores de uma criança, adolescente ou jovem devem ser convidadas e incentivadas pelas instituições escolares a participarem da elaboração de propostas escolares de responsabilidade social coletiva.

Isso porque as propostas escolares não se resumem a repetição, memorização e fixação, sem nenhuma consideração aos aspectos subjetivos de cada aprendiz. Penso que a escola também deve ser um lugar de acolhimento às crianças e adolescentes em suas demandas sociais. Há crianças que só têm acesso à comida quando estão na escola, por exemplo, e essa não é uma realidade da minoria dos estudantes de nosso país.

Portanto, a importância da participação das famílias na elaboração de propostas escolares não se limita apenas a pensarem acerca do processo de ensino de seus próprios filhos, mas também de compreenderem que a escola é o lugar de toda diversidade de estudantes, com realidades socioeconômicas distintas, com múltiplas possibilidades e impossibilidades de acesso à educação.

Uma mulher e uma menina estão em pé, enquanto a mulher ajuda a criança a colocar a mochila nas costas. Há um homem está sentado perto das duas. Fim da descrição.
Foto: August de Richelieu. Fonte: Pexels.

Participação da família na escola

A importância da participação das famílias se dá, principalmente, para que saiam de sua zona de conforto e tenham contato com outras realidades, para o desenvolvimento da empatia e da aceitação da diferença como valor humano.

Se a escola não proporcionar esse convívio, quem favorecerá o acolhimento tão necessário à transformação de nossa sociedade em um lugar melhor para todas as pessoas viverem?

Nessa perspectiva, a participação dos familiares e responsáveis na elaboração de propostas escolares é uma rica oportunidade de compartilhamento de vivências, de compreensão sobre limitações e dificuldades, de entendimento que as pessoas são diferentes e, por isso, têm inteligências, capacidades, potencialidades, dificuldades e demandas diferentes. Logo, é preciso compreender que nunca dará certo um único método de ensino, uma mesma forma de avaliação rígida e inflexível, uma mesma maneira de tratar a todos.

Não há como fazermos uma sociedade diferente se não compreendermos suas mazelas e, para isso, é preciso o envolvimento das famílias de maneira empática, inclusiva e democrática, para que a comunidade escolar pense em conjunto os diferentes e possíveis modos de acolhimento e educação para todos os aprendizes, sem desconsiderar a realidade de cada um, cultivando a amorosidade para que a educação esteja ao alcance dos que têm apoio familiar e também para aqueles que não têm esse privilégio.

Paulo Freire disse: “Ninguém luta contra as forças que não compreende, cuja importância não mede, cujas formas e contornos não discerne” (1979, p. 22). A escola e a família devem aprender a trilhar de forma unida esse caminho complexo que é a constituição de propostas educacionais inclusivas para todo e qualquer aprendiz. Devem, juntas, aprender a discernir quais são as amarras que, de fato, impedem ou atrapalham o acontecimento de uma educação de qualidade para todas as crianças, adolescentes e jovens da educação básica brasileira, tanto na rede pública quanto na rede privada.

 

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Família mais atuante na escola

Em uma mesma escola, encontramos famílias relutantes em se envolverem com a educação de seus filhos, assim como também encontramos profissionais fechados para acolherem a educação na perspectiva inclusiva.

O esgotamento do cotidiano e a falta de consciência de que a educação é responsabilidade da família e do Estado são as principais causas para que familiares e profissionais da educação deixem de se responsabilizar pela educação acolhedora dos aprendizes. Sem amor e respeito por esse ser humano, é impossível que alguém chame para si a responsabilidade de educar com afeto e com responsabilidade social.

Só o amor não basta. Muitas famílias amam seus filhos e pagam as melhores escolas para eles, mas não se envolvem com consciência em sua preparação para a vida. Falta essa participação autêntica, que move mães e pais a dedicarem tempo à educação cidadã da filha, do filho.

Porque “criar”, sustentar um filho, é menos complexo que o educar para ser autônomo, emancipado, ser “gente boa”, não ser valentão ou indiferente com seus colegas, com as outras pessoas do mundo.

E só o respeito também não é suficiente. Temos familiares e professores que respeitam a criança, o adolescente, o jovem, mas não têm o amor necessário para apoiá-lo quando ele realmente precisa.

É preciso algo mais para não ceder ao cansaço e ao conformismo e, assim, avançar em propostas e ações que favoreçam o acolhimento e a educação de todos, sem distinção.

Nesse prisma, buscar conhecer, conversar, trocar ideias com pessoas que tenham o mesmo propósito de uma educação mais humanizada para seus filhos, como também para aqueles que não são seus filhos, é a chave para romper com as inércias e relutâncias de quem se faz barreira para uma educação inclusiva.

Famílias e escolas durante a pandemia

Não acredito que tenha havido uma real proximidade entre escolas e famílias durante o período de pandemia e ensino remoto. A tela dos computadores e dos celulares causa uma falsa impressão de proximidade e distanciamento. No menor desconforto, desligar a câmera e o microfone é um reflexo imediatista.

Apesar do esforço e dedicação de muitos professores aprenderem a planejar e ministrar suas aulas remotamente, e de inúmeras famílias se voltarem desesperadas para as escolas em busca de alguma forma de seus filhos interagirem e terem acesso à educação para não perderem o ano letivo, ainda assim, as telas são um aparato de considerável bloqueio social.

O fato de haver um botãozinho que inicie e encerre a videoconferência cria uma situação e condição limitada de interação social. Tudo se acaba de imediato quando aquele botão é clicado.

A ausência daquele tempo que antecede o início da aula presencial, o intervalo entre as aulas e o término das aulas, onde os aprendizes brincam, brigam e conversam, interfere na habilidade interacional, na capacidade de produzir e manter diálogos, de conviver com as diferenças de cada um, de tolerar os humores, de interpretar as expressões faciais, de querer ficar mais um pouco junto com os colegas.

Semelhantemente, as famílias também se encontravam, esbarravam entre si e com os professores nesses curtos espaços de tempo do início e do final das aulas. Isso nos permitia uma aproximação um pouco mais elaborada, uma necessidade de cumprimentar os outros, de olhar nos olhos, mesmo que por poucos minutos, de ficar mais um pouco esperando e conversando enquanto os filhos teimavam em brincar mais um pouquinho antes de voltar para casa.

Creio que o isolamento, em decorrência da pandemia, nos deixou ainda mais silenciosos, mais reservados para começarmos e mantermos relacionamentos sociais concretos.

As redes sociais, principalmente WhatsApp e semelhantes, não param de tocar sininhos de notificações, de recados, de demandas exaustivas. Mas quantas vezes o telefone toca para uma conversa mais próxima? Quando o telefone toca em tempo real para ouvir as alegrias e os lamentos uns dos outros com empatia e acolhimento? Nunca tivemos tanto tempo e nunca estivemos tão sem tempo para nos relacionarmos com profundidade com as outras pessoas.

 

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Creio que seja necessário observarmos com atenção quais são os reais impactos desse tempo de isolamento e distanciamento social na constituição de nós mesmos e de nossa sociedade. Após cuidadosa análise, pensarmos em como conduziremos a educação dos aprendizes e as nossas próprias relações sociais daqui para frente.

De qualquer maneira, a escuta sensível e o diálogo aberto e respeitoso são importantes cernes para uma educação e relação saudável entre todos nós. Ouvir ao outro, cultivar a empatia e a reciprocidade de atenção são ações importantes para manter os seres humanos próximos uns dos outros.

Eliminação de barreiras para a educação inclusiva

A diferença é própria da espécie humana. Somos todos, igualmente, diferentes! Se as pessoas são diferentes, elas têm capacidades, inteligências, limitações diferentes, elas aprendem, percebem o mundo ao redor e agem de maneiras diferentes.

Enquanto houver o culto aos estereótipos, intolerâncias às diferentes formas de ser e estar no mundo, com o mundo e com as outras pessoas sendo diferente, teremos muitas barreiras a serem quebradas.

O preconceito e a discriminação por raça, cor, etnia, sexo, gênero, sexualidade, religião, deficiência, xenofobia, singularidades diversas, são barreiras terríveis e desumanizadoras.

Para a eliminação desses entraves, é preciso educar meninas e meninos para que sejam mulheres e homens que não perpetuem dispositivos de exclusão como o preconceito e a discriminação de quem quer que seja, pelo motivo que for.

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O mundo precisa de pessoas humanizadas, que entendam que todos têm limitações e potenciais, que todas as pessoas têm sentimentos e que todos, sem distinção, têm direito à educação, que é a chave do conhecimento para novas oportunidades de vida e trabalho em sociedade.

Uma pessoa sem acesso à educação e sem condições de chegar aos níveis mais elevados de ensino, dificilmente terá espaço para ter um trabalho com salário decente, o que impactará em sua qualidade de vida.

Não estamos sozinhos! Vivemos em sociedade. O que desejamos de melhor para nossos filhos deve ser a régua daquilo que podemos fazer como famílias para uma sociedade cada vez mais inclusiva, mais acolhedora e menos indiferente quanto às questões sociais daqueles que não fazem parte de nosso grupo de convívio.

A escola é constituída por uma comunidade. Todos nós somos responsáveis pelas decisões a serem tomadas em prol de uma educação inclusiva. O contrário disso é tomar parte da manutenção da maquinária excludente à qual tanto criticamos.

Cada um de nós tem a escolha de se mover para ser um ponto de conexão das redes locais, regionais, nacionais e internacionais de inclusão. Cada um de nós tem a escolha de ser um obstáculo ou uma trinca entre as possíveis conexões pró-inclusão. Cabe a cada um fazer sua escolha, compreendendo que sua decisão é seu legado às gerações futuras.

Rede de inclusão e o papel de cada indivíduo nela

Construir uma rede de inclusão é o caminho mais favorável para que as diferentes vozes ocupem espaços nas instituições educacionais e tomem posse do direito e do dever de participarem da elaboração de propostas escolares na perspectiva da educação que não é excludente.

As redes de inclusão se constituem de pessoas atuantes em diferentes espaços sociais e que também são mães, pais, responsáveis e professores, que decidem agir coletivamente em prol de uma educação cada vez mais inclusiva.

A união dessas pessoas possibilita o fortalecimento dos espaços de acolhimento, de construção de saberes e ações inclusivas como modos de apoio aos aprendizes e seus familiares e, também, à própria escola.

Sozinho é difícil vencer os mecanismos de exclusão postos na sociedade. Mas, na coletividade, é possível vencer e transformar, tecer uma outra educação tão necessária a esta e às futuras gerações.

 

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+ Redes de inclusão entre família e escola


Referência

FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.


Sílvia Ester Orrú é doutora em educação, professora da Universidade de Brasília, colaboradora na Universidade Federal de Alfenas, Campus Poços de Caldas e coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Aprendizagem e Inclusão (LEPAI).

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