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Aulas presenciais: famílias revelam expectativas após imunização infantil

Após quase dois anos com as escolas fechadas por conta da contenção da Covid-19, estudantes da maioria das redes de ensino brasileiras retornam às salas de aula presencialmente em fevereiro

Por Juliana Delgado

Os anos de 2020 e 2021 foram marcados pelo fechamento das escolas como medida para conter a propagação da covid-19. Docentes se reinventaram para criar alternativas diante da suspensão das aulas presenciais. No entanto, embora sejam muitos os casos de sucesso do ensino remoto durante o isolamento social e do uso da tecnologia como aliada da educação, deixar de lado as aulas presenciais nunca entrou em discussão.

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Barreiras como a falta de acesso a aparelhos tecnológicos, à internet e a recursos de acessibilidade no ambiente virtual muitas vezes impediram que crianças, jovens e adultos tivessem plena participação nas atividades escolares disponibilizadas on-line, fazendo com que as oportunidades de aprendizagem não fossem equitativas.

A discussão sobre quando voltar ao presencial dividia opiniões, mas o resultado era sempre o mesmo: as aulas não podem continuar a distância. E, no início deste ano, com a vacinação de crianças e jovens contra a covid-19, o planejamento para a reabertura completa das escolas saiu do papel. Sempre mantendo os protocolos de saúde e segurança para não colocar nenhum estudante, educador ou membro da equipe e da comunidade escolar em risco.

Em corredor de escola, dois estudantes, um menino e uma menina, estão ao lado de pinturas de natal na parede. Ambos usam máscara. Fim da descrição.
Foto: Grazieli Baldissera. Fonte: arquivo pessoal.

Crianças imunizadas

Há menos de um mês, em 14 de janeiro, a primeira criança a ser vacinada no Brasil contra a covid-19 foi Davi Seremramiwe, em São Paulo. O menino tem 8 anos e é pessoa indígena com deficiência.

De acordo com uma notícia publicada no G1, 15 estados (Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins) e o Distrito Federal já contam com quase três milhões de doses da vacina contra covid-19 aplicadas em crianças de 5 a 11 anos.

Criança indígena utilizando máscara posa para foto com comprovante de vacinação na mão esquerda, enquanto faz sinal de paz com a mão direita. Fim da descrição.
Foto: Reprodução. Fonte: CNN Brasil.

Para acabar com mitos e incentivar a imunização infantil, a Universidade Johns Hopkins desenvolveu um curso on-line, gratuito, para formar “embaixadores da vacinação” – que podem ser mães, pais ou responsáveis, educadores ou membros da comunidade. Nesta reportagem, a BBC conta mais sobre a iniciativa e disponibiliza algumas das principais estratégias apontadas na formação, uma vez que o curso só está disponível em inglês.

Sobre a imunização e a reabertura das escolas, alguns estados, como São Paulo, Bahia, Ceará, Pará, Paraíba e Piauí, adotaram a obrigatoriedade de estudantes apresentarem o comprovante de vacinação, segundo a Folha. Além disso, as aulas presenciais continuarão atendendo às demais exigências de saúde, como o uso de álcool gel e máscaras, aferição de temperatura e higienização constante dos ambientes e mãos, identificação e afastamento de casos e monitoramento de seus contactantes.

Expectativa das famílias sobre o retorno

Aline Costa Benevides, mãe de Isaac e de Levi, entende que, no retorno presencial, além dos protocolos de saúde, também é imprescindível que haja um acolhimento dos estudantes considerando o tempo em casa e o medo da pandemia:

“Muitos alunos perderam algum ente querido e isso, claro, afeta psicologicamente. É importante que haja uma compreensão mútua, acolhimento e planos de aula pensados nos conteúdos que ficaram perdidos.”

Colagem de duas fotos. À esquerda, foto de estudante cego em sala de aula. Ele está sentado à mesa com máquina de braile em sua frente. Ele usa máscara. Ao seu lado, encostada na parede, há uma bengala para cegos. À direita, foto de menina em sala de estar. Ela está sentada em sofá e lê material pedagógico. Fim da descrição.
Foto 1: Aline Benevides. Foto 2: Elizete Correa. Fonte: arquivo pessoal.  

Para ela e os filhos, que têm deficiência visual, o ensino remoto não foi fácil, apesar da adaptação de alguns materiais em braile e do apoio e incentivo aos estudos em casa por parte da família.

Elizete Correa, mãe de Mirela, conta que sua expectativa é que 2022 seja um ano melhor justamente para que todos os estudantes aprendam mais. Elas são de Caçador (SC), e também tiveram dificuldades de seguir com as aulas on-line. Elizete afirma que a jovem, que possui deficiência intelectual, gosta muito da escola e das educadoras e, mesmo com auxílio dos familiares para continuar aprendendo em casa, ficou triste com o fechamento das escolas.

Mirela não foi a única afetada pelo fechamento das escolas: Grazieli Baldissera, também de Caçador e mãe de Henrique, jovem com deficiência auditiva, relata que o filho sentia falta da intérprete de Libras que o apoia em sala de aula.

Em escola, menino recebe certificado de educadora. Atrás deles, fundo escuro com estrelas e colagem de letras onde se lê “Libras”. Fim da descrição.
Foto: Grazieli Baldissera. Fonte: arquivo pessoal.

Assim como diversas mães, pais e responsáveis, mesmo com expectativas positivas para o retorno presencial, há inseguranças em relação à reabertura total das escolas: “Nós temos medo da covid, mas para as crianças é muito importante o contato social. E isso será algo irreversível no futuro. É muito difícil pôr na balança, mas tentamos tomar os cuidados possíveis e seguir na nossa rotina”, expõe Raquel Oliveira Medrado Pinto, mãe de Theo.

Para Camila Ribeiro Costa Leite, mãe de Cecília e Joaquim, ambos na educação infantil, esse momento é de estar junto com precaução: “Em várias dimensões, temos que entender quais são os impactos de tudo isso que a gente tem vivido. A escola é um ponto de união do território, ainda mais a educação infantil, que é puro afeto. O conteúdo é a relação. Para mim, o imprescindível é isso: o afeto e a gente se entender enquanto comunidade.”

Para que as crianças voltem a ter um ambiente de troca de conhecimento e experiências que vão além do aprendizado das disciplinas do currículo e garantir a segurança de toda a comunidade escolar, os responsáveis por estudantes de algumas redes, como a municipal de São Paulo, receberam normas e protocolos para preparar as crianças para esse retorno.

Importância de estar junto

O atual secretário de educação do Estado de São Paulo, Rossieli Soares, afirma que, após o período de pandemia, toda a sociedade conseguiu perceber a importância das relações interpessoais no dia a dia: “Nós tivemos casos de crianças e adolescentes que desenvolveram casos de depressão e ansiedade na pandemia, e um dos fatores foi a falta de ir à escola, isso é muito grave, e vai refletir de maneira muito negativa no futuro da nossa sociedade.”

Em casa, menino utiliza pincel e tinta vermelha para fazer atividade escolar. Fim da descrição.
Foto: Raquel Oliveira. Fonte: arquivo pessoal. 

Theo Medrado Almeida, com três anos, já se beneficia de estar em contato com outras crianças: “O Theo sempre gostou muito de socializar e percebemos que ele sentia muita falta de outras crianças. Além disso, ele conseguia se desenvolver melhor próximo delas”, afirma a mãe, Raquel.

Ela conta que, no final de 2020, o menino recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e começou intervenções com terapia comportamental. Contudo, em meio à pandemia, as aulas on-line não se encaixavam bem na rotina dele e da família. Raquel afirma, ainda, que é necessário que a escola mantenha um vínculo estreito com a família e encerra:

“Para o Theo, uma criança com TEA que tem três anos e cinco meses e ainda fala poucas palavras, a interação é fundamental. E para as crianças típicas é uma excelente oportunidade para aprender que somos todos diferentes, que alguns tem mais dificuldade que outros em algumas coisas… e que está tudo certo.”

A mãe Aline Benevides explica que a interação das crianças na sala de aula deve ser sempre com muito respeito, sem discriminação e com parceria, para a construção de uma educação inclusiva: “A interação é importantíssima para o desenvolvimento dessas crianças. Para os meus filhos, que são cegos, eles se sentirem pertencentes em uma sala de aula comum é algo que os deixam felizes. Não se sentirem excluídos por sua deficiência e saberem que a sua capacidade de aprendizagem é a mesma que a das outras crianças”.

Impacto da volta às aulas

Em 2021, a Stilingue lançou uma pesquisa dedicada ao Dia do Estudante, que apontou sentimentos negativos de medo e ansiedade relacionados à volta às aulas presenciais em agosto do mesmo ano. Por isso, embora os protocolos de saúde sejam imprescindíveis, o acolhimento de estudantes, educadores e de toda a equipe escolar também é um ponto de atenção importante, que vem sendo considerado desde a reabertura parcial das escolas. Exemplos das redes municipal e estadual de São Paulo demonstram que essa é uma pauta em constante discussão nas secretarias.

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Em área externa de casa, uma menina e um bebê pintam caixa de papelão com tinta guache. Fim da descrição.
Foto: Camila Ribeiro. Fonte: arquivo pessoal.

Quando perguntada, em junho de 2020, sobre a organização do trabalho para garantir uma educação para todos no retorno das aulas presenciais, Daniela Harumi, diretora da Coordenação Pedagógica da Secretaria Municipal da Educação (SME) de São Paulo na época, afirmou que o maior esforço deveria ser justamente para acolher os estudantes, que ficaram em isolamento social por muito tempo.

Mais recentemente, o secretário Rossieli assegurou que a Seduc-SP não deixará ninguém para trás nesse momento:

“Nossas equipes nas mais de 5,4 mil escolas estão preparadas com protocolos para a volta presencial segura, pois todos nós, juntos, trabalhamos muito para este retorno. Garantir as condições para que este ano letivo de 2022 seja o mais exitoso possível, com foco total na recuperação da aprendizagem dos nossos estudantes, é a nossa prioridade”, disse ele, em mensagem aos estudantes da rede.

Ele explica que o novo formato das escolas estaduais de São Paulo “garante a continuidade de todas as aprendizagens essenciais da formação comum e junto traz os aprofundamentos formativos onde o estudante pode escolher qual a sua área de maior interesse e aprender mais”.

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