A trajetória da professora com deficiência que assumiu a primeira sala de recursos multifuncionais de Olinda
Ex-aluna de escolas públicas de Olinda, Adriana Cunha acumula 25 anos de docência, a maior parte deles no Atendimento Educacional Especializado (AEE) em redes municipais de Pernambuco

A professora Adriana Cunha se encantou pela Educação ainda muito pequena, ao observar a atuação da gestora da escola onde estudava. “Eu achava bonita e poderosa aquela função e passei a desejar ser aquilo também: a pessoa que preparava todo o ambiente para que os professores chegassem e pudessem trabalhar. Eu queria preparar o campo, deixar a grama bem aparadinha para que os jogadores entrassem, com a bola da aprendizagem, para fazer o gol”, lembra ela, que é uma pessoa com deficiência.
Leia mais:
Profissionais da Educação Especial: entenda o papel de cada um na escola
7 conteúdos essenciais sobre o atendimento educacional especializado (AEE)
Tudo o que você precisa saber sobre as salas de recursos multifuncionais
O tempo passou, os sonhos de criança ganharam asas e o chão da escola tornou-se casa. Hoje, aos 51 anos, Adriana não é gestora escolar, mas fez carreira no Atendimento Educacional Especializado (AEE) das redes municipais de Recife e de Olinda, sua cidade natal.
Nesse percurso dedicado à educação inclusiva, foi professora regular no Ensino Fundamental, trabalhou em salas especiais, na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e em escolas de tempo integral. Em 2005, assumiu a primeira sala de recursos multifuncionais (SRM) de Olinda, experiência que marcou sua trajetória.
Antes de chegar à sala de aula, porém, Adriana enfrentou o capacitismo: viu vagas desaparecerem quando sua deficiência passou a pesar na avaliação de quem a entrevistava. Mesmo laureada no curso de Pedagogia, ela só começou a lecionar em 2001, com a chegada da sobrinha Gabriella, que nasceu com deficiências múltiplas, a levou à Educação Especial. Desde então, sua trajetória une formação, prática pedagógica e a experiência de quem conhece por dentro os desafios de ser estudante e professora com deficiência na escola.
Confira o relato de Adriana ao DIVERSA.
. 
Infância, poliomielite e autonomia
“Nasci em Olinda, em março de 1975, e já estava andando quando fui acometida pela poliomielite, aos 11 meses. A doença deixou lesões no meu braço direito e na perna esquerda. Naquela época, os médicos acreditavam que, além da deficiência física, eu também poderia ter uma deficiência intelectual. Passei por muitas terapias e fiz duas cirurgias na perna para aumentar a força e os movimentos. Voltei a andar aos quatro anos e continuei com as terapias até os 15. Também usei aparelhos na perna. Aos seis anos, usava um que chegava até a cintura e que me incomodava muito, mas a escola teve um papel importante nesse processo: minha professora e minha mãe me explicavam que eu precisava usá-lo para ter mais segurança e mobilidade, como um remédio ruim, mas necessário.
Minha família sempre esteve muito presente. Meus pais também se preocupavam muito com a minha autonomia. Eles sabiam que não estariam comigo para sempre. Minha mãe cuidava de mim, mas também me ensinava a fazer o café da manhã, o almoço e o jantar. Meu pai me levava para todos os lugares e também me ensinou a dirigir. Aprendi a andar de bicicleta, a montar a cavalo (meu pai criava cavalos e sempre escolhia o mais manso para mim) e a fazer muitas coisas que poderiam parecer difíceis para uma criança com deficiência. Fui criada, como costumo dizer, não com as pessoas olhando para a deficiência, mas para a Adriana. Era sempre: o que eu queria fazer, o que eu podia fazer e como eu poderia fazer.
Por volta dos cinco anos comecei a estudar, quase sempre em escolas públicas de Olinda. Eu participava das atividades, das apresentações, da dança e de tudo o que a escola oferecia. Fiz judô com meu irmão e meus tios, e meu professor encontrava uma maneira de eu participar: nas lutas, ele ficava de joelhos comigo, porque assim eu conseguia acompanhar os colegas. Participei de concursos e cheguei a ser Rainha do Milho.
Tive poucos professores que não acreditaram em mim. E foi justamente na infância que comecei a admirar uma professora da alfabetização que também era gestora. Ali nasceu o sonho de ser gestora escolar.”
Saiba mais:
Altas expectativas levaram Georgia Bergantin a conquistar seu espaço no mercado de trabalho

As vagas que desapareciam
“Foi seguindo esse sonho que fiz o Magistério, em 1990, e depois Pedagogia, em 1996. Fui aluna laureada, mas, quando terminei a faculdade, não conseguia emprego na área. Minhas amigas já trabalhavam desde o Magistério, e eu, não. Meu currículo era analisado, eu era chamada para as entrevistas e, no final, a vaga desaparecia. Então, fui trabalhar nos Correios como terceirizada, por meio de uma parceria voltada a pessoas com deficiência. Fiquei três anos e meio lá e, em 1998, fui premiada como a melhor atendente comercial de Pernambuco. Dei o meu melhor naquele trabalho, porque foi isso que aprendi com meus pais: tudo o que você fizer, faça o seu melhor. Mas não era aquilo que eu queria. Tinha me preparado para trabalhar na Educação.
A minha trajetória mudou com a chegada da Gabriella, minha primeira sobrinha. Ela nasceu com uma síndrome congênita muito rara e com deficiências múltiplas. Quando chegou o momento de ela ir para a escola, eu só pensava que queria que ela tivesse acesso a uma escola inclusiva e ao melhor que eu pudesse oferecer. Então, pedi demissão dos Correios e disse: ‘vou para essa área’. Passei a estudar para concursos porque acreditava que, estudando, ninguém poderia tirar aquela vaga de mim. Fiz algumas seleções, mas nada dava certo, até que, em 2001, surgiu uma oportunidade na Prefeitura de Olinda para assumir uma sala especial. Eram 15 estudantes, entre 7 e 35 anos, com diferentes deficiências. Sem estagiário nem profissional de apoio: eu estava sozinha. No ano seguinte, passei no concurso público de Olinda e percebi que era necessário organizar melhor aquela turma. Conversei com a coordenação e conseguimos dividir os estudantes por faixa etária: crianças, adolescentes e adultos.”
Veja mais:
Profissional de apoio: o que é e quando ele é necessário?

A primeira sala de recursos multifuncionais de Olinda
“Em 2005, assumi a primeira sala de recursos multifuncionais de Olinda, na Escola Municipal CAIC Profª Norma Coelho. No mesmo ano, também passei no concurso de Recife e comecei a trabalhar como professora de sala regular. Em 2006, passei a atuar como professora itinerante do AEE em Recife, circulando por diferentes escolas. Em 2010, fui para a sala de recursos multifuncionais e, em 2022, recebi o convite para trabalhar também à noite com a EJA, como professora do AEE. Hoje, atuo nas duas redes municipais. Ao longo desses anos, fiz muitos cursos, como Braille, Libras e Tecnologia Assistiva. Aprendi, principalmente, que cada estudante é único e que não existe receita pronta. Mesmo com planejamento, às vezes, é preciso mudar o caminho para alcançar o objetivo.”

Capacitismo: ‘não preciso ser perfeita’
“Também precisei aprender a lidar com o capacitismo. Uma das coisas mais difíceis foi conviver com o sentimento de fracasso provocado pela forma como a minha capacidade era vista em razão da deficiência. Antigamente, a deficiência era tratada como um defeito. E defeito é uma palavra muito forte, porque, quando um equipamento tem defeito, a gente leva para consertar e, se não tiver jeito, joga fora. A deficiência não é isso. Não existe conserto. Existe a necessidade de aprender a conviver com ela. Por muito tempo, senti que precisava provar o tempo todo que era capaz e que não podia errar, porque qualquer erro poderia ser atribuído à minha deficiência. Hoje, sei que erro, peço desculpas quando é necessário e aprendo com isso. Está tudo certo. Não preciso ser perfeita para provar que sou capaz.
Meus pais, que já morreram, foram fundamentais nesse processo. Depois dos 40, comecei a usar cadeira de rodas para grandes distâncias por causa de uma degeneração no quadril que afetou o meu equilíbrio. Isso não muda quem eu sou: a deficiência não me define. Talvez por ter vivido tudo isso, eu tenha aprendido a olhar para os estudantes de outra maneira. Não romantizo a deficiência nem acho que tudo seja simples, mas acredito que a gente precisa trabalhar para que ela não limite aquilo que uma pessoa pode ser.”

Inclusão como estilo de vida
“Costumo dizer que inclusão é um estilo de vida. Você não é inclusiva apenas na escola; é onde quer que esteja. A inclusão está nas atitudes, no jeito de ser e na forma como você olha para o outro. Incluir é fazer com o outro aquilo que eu quero que façam comigo. É olhar para uma pessoa e dizer: ela pode. Só ela pode dizer até onde consegue ir. O nosso papel é dar oportunidades para que ela possa ser quem é, dentro das suas condições, respeitando seus limites e acreditando nas suas potencialidades.
Sei que os obstáculos vão continuar existindo. Mas nunca estive sozinha. Tenho uma família presente, um trabalho que me realiza e amigos queridos. Continuo sonhando com um mundo em que não seja mais necessário falar de inclusão, porque ela será natural, inerente ao ser humano. Na Educação, procuro deixar marcas na vida das pessoas. E quero que a minha marca seja a do amor e da felicidade.”
Conheça outras histórias: