Profissionais da Educação Especial: entenda o papel de cada um na escola
Professor do AEE, profissional de apoio, tradutor e intérprete de Libras e guia-intérprete têm atribuições diferentes e atuam de forma articulada na inclusão escolar.

A educação inclusiva envolve diferentes pessoas que atuam em momentos e situações distintos da rotina escolar. Os profissionais da Educação Especial têm atribuições específicas para apoiar o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem de estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades ou superdotação. Diante disso, surgem as dúvidas: quem faz o quê na Educação Especial? E como o trabalho de cada um se relaciona com o da sala comum?
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Para garantir os direitos previstos na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), incluindo a oferta de Atendimento Educacional Especializado (AEE), de professores para esse serviço, de tradutores e intérpretes de Libras, de guias-intérpretes e de profissionais de apoio, vários instrumentos normativos e regulatórios estabelecem diretrizes para a organização da Educação Especial.
Um marco importante desse processo é o Decreto nº 12.686/2025, que institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (PNEEI). A norma estabelece a Educação Especial como modalidade transversal a todos os níveis, etapas e modalidades de ensino e prevê a organização de recursos e serviços para apoiar, complementar e suplementar o processo de escolarização. A implementação da política é regulamentada pela Portaria MEC nº 421/2026, do Ministério Educação (MEC) em sua redação vigente.
Já documentos orientadores, como o “Caderno de Gestão: Educação Especial Inclusiva”, um dos 14 volumes da coleção de “Cadernos Pedagógicos da PNEEI” produzidos pelo MEC, trazem informações complementares para apoiar a implementação e a compreensão da política. Nesse conjunto de leis, normas e orientações estão as bases para compreender o papel de cada profissional e como suas funções se articulam no cotidiano escolar.
Estudo de caso: como a escola identifica os apoios necessários?
Antes de definir quais profissionais devem atuar, a escola precisa identificar quais apoios e serviços são necessários para garantir a participação e a aprendizagem de cada estudante. A necessidade não é determinada automaticamente pela existência de uma deficiência ou de um diagnóstico. O Decreto nº 12.686/2025 estabelece o estudo de caso como um processo para identificar as demandas do estudante e as barreiras presentes no contexto escolar.
O processo envolve quatro etapas: identificação inicial das demandas individuais e das barreiras; análise dessas barreiras e do contexto escolar; identificação das potencialidades e das demandas de apoio; e definição de estratégias e recursos de acessibilidade para enfrentar as barreiras. O envolvimento do estudante e seus familiares deve ser garantido ao longo de todo o estudo, e a escola pode estabelecer diálogo com serviços da rede intersetorial, como os de saúde e de assistência social, que eventualmente acompanham a criança ou o adolescente.
O resultado do estudo de caso fundamenta o Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE). A Portaria MEC nº 421/2026 estabelece que o documento registre, entre outras informações, os materiais e recursos necessários, a avaliação da necessidade de tecnologias assistivas e Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) – recursos, como pranchas e símbolos, que apoiam ou substituem a fala – e de outros profissionais.
O estudo de caso também ajuda a compreender que os apoios devem responder às condições concretas de participação do estudante. A oferta do AEE, por exemplo, não pode ser condicionada à apresentação de diagnóstico, laudo ou relatório emitido por profissional de saúde.
Professor do AEE: qual é a sua função?
O Atendimento Educacional Especializado tem como objetivo identificar as barreiras que o estudante encontra no contexto escolar e organizar recursos, estratégias e serviços para garantir diferentes tipos de acessibilidade, como a comunicacional. Esse atendimento é complementar à escolarização de estudantes com deficiência e transtorno do espectro autista, ou seja, oferece o que eles precisam para acessar o currículo. Para estudantes com altas habilidades ou superdotação, é suplementar, aprofundando e ampliando o que aprendem. Não é reforço escolar e não substitui o ensino da sala comum.

Conforme as necessidades identificadas, cabe ao professor do AEE disponibilizar materiais pedagógicos acessíveis, como jogos, e recursos de tecnologia assistiva, como leitor de tela para pessoas cegas, para favorecer o acesso ao currículo, a participação e a aprendizagem. Ele atua na Sala de Recursos Multifuncionais (SRM), ambiente equipado para o atendimento, ou em outros espaços organizados para o AEE, onde pode articular ações de inclusão na escola.
O Caderno 3, “Documentação do AEE na Escola Inclusiva: Estudo de Caso, PAEE e PEI”, orienta que o Plano de AEE Especializado, no qual o estudo de caso deve ser registrado, reúna as informações levantadas e observadas e estabeleça as estratégias necessárias, sendo atualizado conforme o acompanhamento do estudante. O trabalho do AEE também envolve a articulação com o professor regente e os demais profissionais da escola.
A articulação com o professor regente e os demais profissionais da escola também envolve esse trabalho. A Portaria MEC nº 421/2026 estabelece que o Plano Educacional Individualizado (PEI) – instrumento de planejamento e acompanhamento do processo de aprendizagem e desenvolvimento de estudantes com deficiência – contemple a articulação das atividades do AEE com o professor regente e os demais profissionais da unidade escolar.
O volume 2 dos cadernos do MEC, “Atendimento Educacional Especializado (AEE): Concepções e Metodologias”, apresenta o exemplo de Antônio, estudante autista com dificuldades de comunicação. Como ele ainda estava no início do processo de uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa, o plano definiu recursos como pranchas de comunicação, rotina visual e carógrafo, com fotos e nomes dos professores.
As estratégias foram pensadas para diferentes ambientes da escola e acompanhadas de orientação aos professores, com o objetivo de ampliar a comunicação de Antônio, sua previsibilidade na rotina e seu acesso ao currículo. Com isso, foi possível estabelecer uma rotina para ele, o que o ajuda a entender e participar das atividades do dia a dia.
Profissional de apoio escolar: qual é a sua finalidade?
O profissional de apoio escolar atua nas situações em que o estudante necessita de auxílio, conforme definido no estudo de caso, para locomoção, higiene, alimentação, interação social, comunicação e utilização de tecnologias e recursos de acessibilidade. A Política estabelece que essa atuação deve ocorrer em consonância com o PAEE.

Na rotina escolar, esse apoio pode estar presente em vários espaços e atividades, contribuindo para que o estudante participe das experiências da escola. A normativa determina que sejam respeitados aspectos como o corpo, a privacidade, o tempo e as escolhas do estudante. Também prevê que o profissional atue em todas as atividades escolares e se reporte à equipe pedagógica quando necessário.
É importante destacar que o apoio não deve substituir outras medidas de acessibilidade. Quando existem barreiras arquitetônicas, comunicacionais ou pedagógicas, a escola precisa enfrentá-las também por meio de recursos, estratégias e mudanças em sua organização. A presença de um profissional ao lado do estudante não deve servir para compensar, isoladamente, barreiras que cabem à própria escola superar.
O Caderno 13, “Educação Inclusiva e Profissional de Apoio Escolar”, traz a experiência de uma profissional de apoio com Francisco, criança autista da Educação Infantil que enfrentava barreiras na comunicação e na interação com colegas e professores. A partir do trabalho do AEE, foram introduzidos cartões com pictogramas (imagens que representam ações e objetos) para apoiar a comunicação em situações da rotina, como brincar e lavar as mãos. A profissional mostrava os cartões e incentivava Francisco a utilizá-los, sem falar ou agir por ele.
Com o uso do recurso, Francisco passou a demonstrar maior interesse pelos cartões e a utilizá-los para nomear suas construções com blocos de montar. As observações da equipe também ajudaram a identificar situações que ainda não estavam contempladas pelos pictogramas, orientando a ampliação do vocabulário e o aprimoramento do recurso.
Tradutor e intérprete de Libras: qual é o seu papel?
O tradutor e intérprete de Libras atua na tradução e interpretação entre línguas de sinais e entre uma língua de sinais e uma língua oral, conforme a situação comunicativa. A profissão é regulamentada pela Lei nº 12.319/2010, alterada pela Lei nº 14.704/2023.
No contexto escolar, ele atua quando pessoas surdas precisam se comunicar com quem não usa a mesma língua. Esse profissional pode trabalhar nas aulas, nas interações do estudante com colegas e profissionais, em reuniões e em outros momentos da vida escolar em que a acessibilidade linguística seja necessária. Seu trabalho contribui para que o estudante tenha acesso às informações e participe das situações de comunicação, sem substituir o trabalho pedagógico do professor da sala comum.

“Práticas Inclusivas e Estudantes com Deficiências Sensoriais”, volume 8 dos Cadernos do MEC, apresenta o caso de Ana, uma criança surda que enfrentava dificuldades para acompanhar as aulas e participar das atividades. Como os professores ainda não dominavam Libras, o intérprete contribuía para sua comunicação com a equipe escolar, enquanto o AEE orientava estratégias de pedagogia visual (que usam imagens, esquemas e demonstrações). Mesmo assim, a participação e a aprendizagem de Ana permaneciam insatisfatórias.
A escola então ampliou as ações: os estudantes passaram a aprender e praticar Libras; professores e funcionários participaram de oficinas; e os espaços foram identificados com escrita, sinais e imagens. Com essas medidas articuladas, Ana passou a participar das aulas com mais segurança e a se comunicar de forma mais natural com os colegas.
Guia-intérprete: o que esse profissional faz?
O guia-intérprete atua com pessoas surdocegas, considerando suas formas de comunicação e necessidades relacionadas ao acesso às informações, à orientação, à mobilidade e à participação. Seu trabalho envolve a interpretação e a contextualização de informações, considerando aspectos linguísticos e extralinguísticos.
A Lei nº 14.704/2023 passou a regulamentar também a profissão de guia-intérprete, definindo-o como o profissional que domina ao menos uma das formas de comunicação usadas por pessoas surdocegas.
O Caderno 14, “Gestão Escolar Inclusiva”, destaca que essa atuação pode envolver a descrição de espaços, pessoas e atividades, além do apoio ao deslocamento e à mobilidade da pessoa surdocega. O profissional contribui para que ela compreenda o que acontece ao seu redor, tenha acesso às informações e possa participar das atividades e interações nos diferentes espaços da escola.
A atuação do guia-intérprete não se resume à tradução de uma língua. Dependendo das formas de comunicação utilizadas pela pessoa surdocega, pode envolver diferentes recursos e sistemas de comunicação e a contextualização das situações vivenciadas.

Uma experiência apresentada no Caderno 8 mostra Marcos, estudante surdocego acompanhado pela mesma professora na função de guia-intérprete dos 8 aos 17 anos. Ao ingressar na escola, ele ainda não estava alfabetizado e tinha dificuldades de equilíbrio e marcha. Para iniciar o trabalho com leitura e escrita, a guia-intérprete utilizou letras em EVA, braille ampliado (sistema de leitura e escrita tátil) e materiais em alto-relevo, avançando gradualmente para sílabas e palavras relacionadas a situações significativas.
Com o uso contínuo dessas estratégias, Marcos aprendeu a ler e escrever em braille. Em parceria com a professora regente, a guia-intérprete também criou crachás em braille e objetos de referência (que representam pessoas, lugares ou atividades) para a turma e identificou os espaços da escola com recursos acessíveis, ampliando as possibilidades de orientação e participação de Marcos no cotidiano escolar.
Professor regente: onde fica a responsabilidade pelo ensino?
O professor regente ocupa papel central na escolarização. É responsável pelo planejamento e desenvolvimento do ensino e pelo acompanhamento da aprendizagem da turma.
Isso não significa trabalhar isoladamente. Sua atuação se articula aos profissionais da Educação Especial, de acordo com as necessidades identificadas no contexto escolar. Ele pode dialogar com o AEE sobre barreiras e recursos de acessibilidade, com o profissional de apoio sobre as condições necessárias à participação e com o tradutor e intérprete ou o guia-intérprete sobre as condições de comunicação do estudante.
O Caderno 14 da coleção do MEC orienta que os educadores da sala comum e do AEE analisem conjuntamente os objetivos de aprendizagem, identifiquem barreiras e definam as responsabilidades dos diferentes profissionais. Nessa organização, os profissionais da Educação Especial apoiam o acesso ao currículo e às condições de participação, enquanto o ensino permanece integrado ao trabalho da sala comum.