Como altas expectativas levaram Georgia Bergantin a conquistar seu espaço no mercado de trabalho
Aos 27 anos, a gestora de Recursos Humanos conta como a luta contra o capacitismo e acreditar em seu potencial fizeram a diferença em sua vida

A trajetória de Georgia Baltieri Bergantin foi marcada por uma série de desafios e conquistas que a levaram a ocupar espaços onde a presença de pessoas com deficiência ainda é a exceção. Aos 27 anos, ela é formada em Gestão de Recursos Humanos e carrega a experiência de ter sido a primeira mulher com Síndrome de Down a trabalhar na Bayer Brasil, empresa multinacional onde atuou por quatro anos na área de Inclusão, realizando palestras, workshops e projetos voltados ao tema.
Atualmente, ela atua como docente facilitadora em um curso de especialização da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), contribuindo para a formação de profissionais da saúde sobre o atendimento a pessoas com deficiência no Sistema Único de Saúde (SUS). Mas, até chegar a esse momento, Georgia se deparou com inúmeras barreiras, sendo o capacitismo e as baixas expectativas em relação ao seu potencial as maiores dificuldades de sua jornada.
Para ela, o seu desenvolvimento e o acesso a oportunidades de formação escolar e profissional só foram possíveis porque teve apoio e incentivo da família, de professores da Educação Básica e do Ensino Superior para aprender, avançar e realizar seus sonhos. “Acreditar no potencial de uma pessoa com deficiência é algo fundamental porque, quando isso acontece, passamos a ser valorizadas, a fazer parte dos espaços e a ter oportunidades. Isso faz toda a diferença na vida de qualquer pessoa”, destaca.
Em relato para o DIVERSA, ela compartilha sua trajetória da escola ao mercado de trabalho e reforça a importância de se acreditar no potencial das pessoas com deficiência. Confira a seguir.

Quando olho para a minha história, vejo uma trajetória marcada por muitos desafios, mas também por apoios importantes, aprendizados e conquistas que me enchem de orgulho. Sempre estudei em escola comum, especificamente no Colégio Santa Mônica, onde permaneci até o Ensino Médio. Naquela época, a minha deficiência ainda era algo muito novo para a escola. Eu não tinha professora auxiliar dentro da sala de aula, nem apoio direto durante as aulas. O suporte que eu recebia acontecia no contraturno, com a minha mãe e com pessoas que fizeram parte da minha rotina. A minha família sempre acreditou muito em mim e no meu potencial. Eles me davam todo o suporte que eu precisava, inclusive no acompanhamento escolar. Esse incentivo foi muito importante para que eu pudesse ir além e seguir em frente nos estudos.

Durante o meu percurso escolar, enfrentei muito capacitismo. Alguns educadores não acreditavam no meu potencial de aprendizagem, e isso foi bastante difícil. Ao mesmo tempo, tive professores que acreditaram em mim, que me apoiaram, me deram voz e caminharam comigo ao longo dos anos de estudos. O apoio deles foi muito importante para que eu me tornasse quem sou hoje. Saber que eles acreditavam no meu potencial me fazia sentir bem e me ajudava a aprender cada vez mais.
O ingresso no Ensino Superior foi mais um grande desafio. Escolher o curso não foi simples. Tive muitas dúvidas e pensei em áreas diferentes, até que percebi que Recursos Humanos reunia um pouco de tudo e eu conseguia me enxergar ali, me reconhecer enquanto pessoa. Fiz essa escolha com coragem e, hoje, tenho muito orgulho de dizer que sou formada em Gestão de Recursos Humanos. Concluí a faculdade em 2022, pela Universidade de Mogi das Cruzes.
Da universidade para o mercado de trabalho
Os anos de faculdade foram intensos: eu trabalhava pela manhã na própria universidade, voltava para casa, almoçava e tinha aulas particulares sobre os conteúdos do curso com dois professores que me apoiaram muito e a quem sou profundamente grata. À noite, eu ia para a faculdade. Mas, o maior desafio, sem dúvida, foi fazer a faculdade sendo uma pessoa com deficiência.
Também foi desafiador lidar com preconceitos e com as relações interpessoais. Sofrer é ruim. Mas aprendi muito com essas experiências, então procuro sempre refletir, conversar sobre o que me incomoda e seguir em frente. Hoje, tenho muito orgulho de mim e de outras pessoas com deficiência, porque nós podemos, sim, ocupar esses espaços.

Meu ingresso no mercado de trabalho aconteceu ainda durante esse processo. Meu primeiro emprego foi na Universidade de Mogi das Cruzes, onde atuava no atendimento integrado, avaliando solicitações e atendendo demandas relacionadas ao passe escolar, transporte e auxílio em provas.
Depois, participei de processos seletivos e fui selecionada para trabalhar na Bayer Brasil, que é uma empresa multinacional. Lá, atuei na área de Inclusão e na de Recursos Humanos, realizando palestras dentro e fora da empresa, workshops e projetos voltados à inclusão de pessoas com deficiência. Nessa experiência profissional, tive a oportunidade de viajar algumas vezes para participar de ações e projetos sobre o tema.
Mais recentemente, participei de um processo seletivo na Fundação Fiocruz e fui aprovada. Hoje, atuo como docente facilitadora no curso Qualificação da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência do SUS. Nesse trabalho, facilito a aprendizagem de alunos da área da saúde que atuam no Sistema Único de Saúde. Abordamos temas como comunicação em linguagem simples, a importância de compreender as necessidades das pessoas com deficiência e a garantia de apoios adequados no atendimento. É uma rotina intensa e bastante corrida, mas eu gosto disso, é um cansaço bom porque sou uma pessoa bastante ativa.
Quando refaço os meus passos, o que mais me orgulha é ter aprendido a lidar com os preconceitos. A minha trajetória é rica, cheia de desafios e superações pessoais. Eu me orgulho da minha vida, do meu caminho e de quem eu sou hoje. Tenho muito orgulho de ser uma pessoa com deficiência.
Se eu pudesse deixar um conselho para outras pessoas com deficiência que querem ingressar no mercado de trabalho, eu diria: enfrentem os seus medos, os preconceitos e o capacitismo. Isso não é fácil, mas é possível. A família também tem um papel fundamental, acreditando, incentivando e mostrando que existem caminhos e oportunidades. É importante construir uma vida pessoal e profissional, entendendo que a vida pessoal é da pessoa e que a vida profissional é ocupar espaços que, muitas vezes, ainda precisam mudar. Lidar com tudo isso não é fácil, mas com apoio a gente consegue. O mais importante é, primeiro, acreditar em si.