Capacitismo na escola: o que é, exemplos práticos e como combatê-lo na Educação Básica

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Uma menina sorridente, usando muletas e botas ortopédicas roxas, está em destaque na quadra da escola, participando de uma atividade em grupo. Ela é negra, tem cabelos e usa uniforme escolar. Atrás dela, várias crianças, também sorrindo e vestindo uniforme escolar (camiseta branca e shorts ou calça azul), acompanham animadas a brincadeira. Ao centro, um professor em pé observa a cena com expressão alegre. Ele é negro e veste camiseta branca e calça clara. O ambiente é uma quadra poliesportiva coberta, com piso laranja, linhas demarcadas em amarelo e uma trave de futsal ao fundo.

O que você encontrará neste conteúdo:
• Definição de capacitismo e exemplos práticos no contexto escolar.
• Relatos de estudantes e especialistas sobre situações de exclusão.
• Orientações para reconhecer e combater atitudes capacitistas.
• Estratégias para professores, gestores e comunidade escolar.
• Sugestões de práticas e recursos para construir uma escola anticapacitista.

Quando cursava o Ensino Fundamental, a ilustradora Paloma Santos, hoje com 31 anos de idade, vivenciou inúmeras vezes uma cena conhecida por muitos estudantes com deficiência: a exclusão nos jogos de educação física. “Eu sempre ficava por último quando os colegas escolhiam os integrantes de seus times. Me lembro do constrangimento e da raiva que sentia por não ser escolhida, não queria ser diferente”, conta ela, que é uma pessoa com deficiência física desde o nascimento. Paloma acredita que eventos como esse poderiam ter sido evitados com uma atitude simples: se a professora optasse por formar grupos de maneira aleatória para garantir que estudantes com deficiência fossem incluídos.  

▸ O que é capacitismo?

O termo “capacitismo” vem da palavra em inglês “ableism”, junção de “able”, que em português significa “capaz”, com o sufixo “ism”, que designa doutrina, teoria ou tendência com sentido pejorativo, segundo o professor Romeu Kazumi Sassaki, considerado a maior referência do Brasil em conteúdo sobre o universo da pessoa com deficiência.   

A explicação faz parte da pesquisa Gênero, deficiência, cuidado e capacitismo: Uma análise antropológica de experiências, narrativas e observações sobre violências contra mulheres com deficiência, de Anahí Guedes de Mello, uma das precursoras do debate sobre o assunto no país. Na dissertação de mestrado, publicada em 2014, ela afirma que não havia no Brasil uma categoria analítica que expressasse a discriminação por motivo de deficiência, como ocorre, por exemplo, com o racismo e a homofobia. À época, uma das principais razões para a adoção da palavra capacitismo era “a demanda de urgência para visibilizar uma forma peculiar de opressão contra as pessoas com deficiência e, por consequência, dar maior visibilidade social e política a este segmento”. 

A antropóloga explica que o capacitismo se materializa em atitudes preconceituosas que hierarquizam sujeitos em função da adequação de seus corpos a um ideal de beleza e capacidade funcional. Em linhas gerais, isso significa que “o capacitismo é a discriminação pautada numa ideia arbitrária sobre norma e desvio, na qual as pessoas sem deficiência são consideradas o padrão, o ideal a ser perseguido, enquanto as pessoas com deficiência representam o desvio. É um julgamento que hierarquiza os corpos, impondo-lhes a experiência da subalternidade”, de acordo com o guia Como educar crianças anticapacitistas, de Mariana Rosa e Karla Garcia Luiz.   

O que Paloma viveu é apenas uma das situações em que o capacitismo se manifesta no contexto escolar. O preconceito ou discriminação contra pessoas com deficiência pode ocorrer desde a negativa de matrícula — crime previsto na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, de 2015 —, devido ao entendimento de que existem estudantes que estão mais aptos ou que são mais capazes de serem escolarizados do que outros, até quando, por exemplo, o professor tende a limitar o acesso ao currículo por presumir que o estudante com deficiência não será capaz de entendê-lo, o que, infelizmente, acontece frequentemente com pessoas com deficiência intelectual.    

É o que explica Mariana Rosa, fundadora do Instituto Cáue – Redes de Inclusão e integrante do Coletivo Feminista Helen Keller. “Muitos educadores acham que essa é uma estratégia e pensam ‘mas, coitadinho, ele tem uma deficiência intelectual, ele não vai acessar o currículo todo’. Ora, é ele quem pode dizer [ou demonstrar] até onde vai, não é a gente supondo nada. Até porque cada pessoa é única”, enfatiza a ativista, que é mestranda em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), pessoa com deficiência e mãe de uma criança com deficiência.   

Embora tenha cursado todas as etapas da educação básica em escolas regulares, o pedagogo e influenciador digital Ivan Baron, hoje com 26 anos, vivenciou muitas situações capacitistas ao longo de sua vida escolar. “Minha matrícula nunca foi negada quando minha mãe apresentava o laudo que informava sobre a paralisia cerebral. Mas, ao mesmo tempo, eu era só um estudante integrado, e não incluído de fato. O meu corpo apenas estava presente, mas eu não participava ativamente das atividades escolares”, recorda.   

Uma das lembranças mais marcantes é dos momentos de intervalo na escola. “Eu não conseguia correr igual aos colegas, então, quando tocava o sinal do recreio, todo mundo saía correndo, e eu ficava para trás. Hoje vejo que essa era uma situação de capacitismo. A professora não incentivava uma discussão com a turma no sentido de perguntar: por que a gente não espera todo mundo? Por que não respeitamos o ritmo do outro? Então, se não fossem as situações capacitistas, eu poderia ter me desenvolvido muito mais rápido”, reflete.   

Alessandra Trigo, consultora e mentora sobre diversidade e inclusão, enfatiza que situações como essa reforçam como a educação é essencial para transformar a sociedade. “As crianças não têm vieses inconscientes ou preconceitos. Elas aprendem com os adultos. Uma criança que convive com outra criança cega, que é a sua melhor amiga, vai chegar em casa e muitas vezes falar ‘o meu amigo’, e não ‘o meu amigo cego’, porque o amigo está acima da cegueira”, comenta a consultora. “A educação é o principal agente para construirmos uma sociedade inclusiva”, reforça ela, que defende a adoção de uma linguagem cada vez mais inclusiva em todos os segmentos da sociedade, especialmente no escolar. 

Rodrigo Mendes, CEO do Instituto Rodrigo Mendes, recorre a uma metáfora para explicar a importância das altas expectativas no processo de inclusão. Para isso, ele cita o mito de Pigmalião, que fala sobre como a crença em uma pessoa pode influenciar o seu futuro. “O escultor Pigmalião era capaz de enxergar sua obra pronta no bloco de mármore bruto e, ao projetar tamanha beleza em sua criação, viu sua escultura ganhar vida. Esse fenômeno também acontece na sala de aula: as crianças percebem quando os adultos apostam em seu potencial. Uma escola inclusiva deve criar condições para que todos os estudantes frequentem os mesmos espaços sociais, sem segregação, mas sendo desafiados e estimulados. Ambientes que acolhem e mantêm altas expectativas impulsionam cada aluno para um futuro com mais autonomia e possibilidades”.

Por que e como debater o tema na escola? 

Valeria Otaviano dos Reis Souza, pedagoga, formadora e supervisora de educação especial na Secretaria de Educação de Mogi Guaçu (SP), atua há cerca de trinta anos na educação e garante que falas e ações capacitistas muitas vezes ainda passam despercebidas no ambiente escolar, principalmente porque os profissionais têm dificuldade de identificar o problema.   

“Os professores e os gestores sabem o que é uma briga, um xingamento, mas o capacitismo vai muito além disso. Às vezes, as pessoas não percebem que estão sendo capacitistas, inclusive por atitudes validadas pela nossa cultura. Por isso, é fundamental discutir o tema no dia a dia e não só em uma data específica”, reforça.   

Ela defende que, quando a escola de fato é inclusiva, a diversidade é favorecida e valorizada. Isso cria oportunidades para as pessoas verem que todos os estudantes são capazes. “O conceito que a gente constrói do outro vem muito das experiências que tivemos. Cabe à escola valorizar as oportunidades de conviver com as diferenças, de oferecer situações em que a criança seja capaz — e não com ações pedagógicas que reforcem o que ela não pode. Esse movimento é muito rico, pois legitima o jeito de fazer de cada um”, diz Valeria, que é pós-graduada em Educação Especial e Autismo, especialista em deficiência intelectual e presidente do Conselho do Direito da Pessoa com Deficiência (Condefi) de Mogi Guaçu.   

“Acredito que a inclusão escolar, antes de ser uma técnica (‘eu vou fazer essa ou aquela ação’), é uma ética. Significa entendermos que todas as vidas são dignas. É nossa responsabilidade, como sociedade e como comunidade escolar, dar conta de sustentar as condições para todos os estudantes”, afirma Mariana Rosa.   

Para ela, a escola deve ter isso como premissa e, a partir dela, transformar o cotidiano em currículo. “Não dá para a gente ignorar as questões que emergem da convivência e fingir que elas não acontecem. Tampouco dá para pegar essas questões e irmos à exaustão explicando cada uma delas”, afirma Mariana. “Esse equilíbrio é responsabilidade da escola, como parte das questões que estão colocadas no cotidiano dos estudantes. É necessário transformar isso em perguntas para refletir o modo como se aprende e se ensina, os conteúdos que serão trabalhados e as abordagens que vamos trazer”, ressalta.   

Ela garante que uma formação anticapacitista passa menos por provocar reflexões sobre determinada deficiência e mais por debater o aspecto social, no sentido de os estudantes compreenderem o contexto a partir de perguntas disparadoras, como: vocês já repararam que temos uma colega que usa cadeira de rodas e ela não consegue chegar ao pátio porque tem cinco degraus até lá? Como a escola pode ser melhor para que ela possa acessar essa área, uma vez que é direito dela também? Vocês já repararam que, quando toca o sinal, o colega autista se incomoda muito por conta do barulho? Será que há outro jeito de sinalizar e combinar entre nós uma mudança de ritmo ou de momento sem que ele fique incomodado? Só ele se incomoda?   

Ou seja, é sobre promover discussões coerentes com o modelo social de deficiência — que norteia a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2006 e fundamenta a legislação brasileira sobre deficiência e educação inclusiva. A ênfase não está nas características das pessoas, e sim nas barreiras existentes na sociedade. São elas que dificultam ou limitam o desenvolvimento e o exercício da cidadania.    

“Então é menos sobre o autista não entender metáfora ou não socializar, e mais sobre quais são as barreiras presentes nesse ambiente que nós construímos e quais são os combinados que podemos fazer para eliminar ou minimizá-las de maneira a construir um ambiente escolar equânime e bom para todos”, explica Mariana.   

Karla Garcia Luiz, especialista em educação especial e doutora em psicologia social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), enfatiza que a escola é terreno fértil para o combate ao capacitismo por ser espaço da convivência com a pluralidade humana. “É importante que essas construções anticapacitistas aconteçam na escola para que ensinemos, desde cedo, o respeito à todas as pessoas. A vida na escola é uma preparação para a vida adulta considerando as múltiplas possibilidades de ser e existir no mundo”.

Como construir uma cultura anticapacitista 

Valeria acrescenta que, nesse sentido, o docente tem um papel crucial, afinal é quem está diretamente ligado aos estudantes no dia a dia. Por isso, ter repertório para atuar e propor ações relacionadas ao enfrentamento do capacitismo é essencial. “Primeiro, o professor deve saber o que é capacitismo, não tem outro caminho. O papel dele é propor um fazer pedagógico que todos consigam realizar. E, quando identificadas situações capacitistas, falar sobre e dar nome ao que de fato é”, comenta.   

É necessário, porém, tomar o cuidado de não achar que educar o vocabulário é o suficiente para mudar a realidade. Mariana Rosa acredita ser preciso, sim, prestar atenção ao que dizemos, mas mais importante do que isso é o cuidado com o que fazemos, no sentido de entender como as estruturas estão funcionando e como estamos organizando a nossa convivência.   

“Eu posso nunca falar, por exemplo, ‘João sem braço’, por saber que é uma expressão capacitista, mas eu não convivo com nenhuma pessoa com deficiência, não tenho um amigo com deficiência, não me relaciono afetivamente com alguém com deficiência, não me consulto com um médico com deficiência. A linguagem pode estar boa, mas a realidade não está sendo compatível com isso. Por isso, precisamos usar de um e de outro, da linguagem e da mudança da realidade, para ir tensionando mutuamente, de forma dialética, para que possamos conseguir fazer as mudanças que realmente queremos”, avalia.   

▸ 10 frases capacitistas que você precisa evitar

Ivan Baron explica que “tudo que problematiza, inferioriza, e que, de alguma forma, causa xingamentos em deficiências, nós precisamos eliminar do nosso vocabulário. Se abordássemos isso nas escolas, com certeza traríamos à tona uma linguagem mais inclusiva e evitaríamos que crianças e adolescentes reproduzissem esse capacitismo linguístico, que é tão importante combater”. Confira 10 exemplos de frases capacitistas para evitar no dia a dia.   

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Formação docente: derrubando preconceitos e paradigmas 

Para os gestores, valem todos os pontos anteriores e mais. É essencial trabalhar o tema na formação docente. “Maria Teresa Eglér Mantoan defende que a escola precisa derrubar preconceitos e paradigmas. Para isso, precisamos discutir quais são os paradigmas que a escola traz. A gestão deve trazer esse assunto [capacitismo] como pauta formativa, um tema tão importante quanto qualquer outro que ela proponha à sua equipe. É necessário intervir e construir projetos que envolvam a reflexão dessas ações. O gestor é a pessoa que canaliza tudo isso e busca soluções”, argumenta Valéria.   

A educadora chama a atenção para o fato de que o envolvimento de toda a comunidade escolar é indispensável — o que pressupõe ter um projeto pedagógico que não cumpra meramente um papel burocrático, mas que se mantenha vivo e dê a direção das ações.   

O planejamento pedagógico anual é um instrumento chave para isso. Ele deve prever uma escuta ativa de toda a comunidade escolar — supervisão pedagógica, professorado, famílias, estudantes etc. — de forma a promover o sentimento de pertencimento e corresponsabilidade. Esse trabalho conjunto ajuda na compreensão de que a tarefa de incluir não cabe apenas ao professor e que as famílias também têm a contribuir. É mais fácil construir o anticapacitismo quando a ação é coletiva e tem o projeto pedagógico e o planejamento atual como seus pilares. 

Valeria acredita que é possível fomentar discussões sobre capacitismo mesmo que a escola não tenha nenhum estudante com deficiência. “Um currículo que atenda a todas as diferenças da escola é o ideal. Somos diversos, e todos aprendem de maneiras diferentes. Um currículo que respeite todas as singularidades e que entenda as dificuldades e as formas de aprender de todos e de cada aluno é o caminho”, diz.   

Ivan concorda e argumenta que não é preciso ser uma pessoa com deficiência ou ter contato com uma pessoa com deficiência para ser anticapacistista. “Uma escola não é para todos? Então, que ela não precise ter casos de capacitismo, de racismo ou LGBTfobia para abordar esses assuntos. Isso deveria ser o princípio de tudo. É importante trabalhar a prevenção, e não esperar acontecer para falar. Acho mais eficaz do que a escola começar a tratar o assunto somente quando chegar um estudante com deficiência. Se for desde o início, quando esse aluno chegar, a presença dele será algo comum e natural”, diz o pedagogo.  

Mariana, no entanto, defende que, para ser anticapacitista, a escola precisa ter estudantes com deficiência, “senão a gente fica com uma promessa descolada da realidade”. “Isso significa que sou anticapacitista, mas não estou sendo colocado em xeque, e não é possível a gente se preparar para quem não está”, frisa.   

Ela enfatiza que não existe uma receita pronta para lidar com essas questões, mas é possível seguir alguns caminhos, como o que está previsto nas políticas educacionais em termos de acessibilidade arquitetônica e tecnológica, disponibilização das tecnologias assistivas, oferta dos recursos e materiais pedagógicos acessíveis e diversificação das práticas, por exemplo. E tudo isso pode ser pensado para que esteja presente no planejamento anual.   

“Agora, para aquele estudante, a escola ideal não vai existir a priori, só vai existir na presença dele, o que depende também da sua participação e do fato de a escola poder ser afetada pela sua presença para se reinventar — e utilizar essa presença para estimular e fazer avançar as discussões e as ações dentro da instituição”, reforça Mariana.   

Você não sabe, mas isso também é capacitismo! 

A pedido do DIVERSA, outras pessoas com deficiência contaram situações em que foram alvo de capacitismo e apontam quais atitudes anticapacitistas poderiam ter sido tomadas em cada caso. Leia a seguir.

A foto mostra Guilherme Chedide em um restaurante. Ele é um homem jovem, de pele branca, e está sorrindo. O ambiente é decorado com flores coloridas em vasos laranja. Ele veste camisa polo preta e está próximo a uma janela de vidro voltada para a rua, onde passam carros e motos à noite. Na mesa há um frasco de álcool em gel. O ambiente é iluminado e tem bandeirolas decorativas penduradas no alto. Fim da descrição.
Guilherme Chedide,
consultor e palestrante sobre diversidade e inclusão  

“A minha infância foi no começo dos anos 2000, em que as coisas eram um pouco diferentes de hoje em dia: o capacitismo ainda era um tema pouco ou quase nada discutido e a tecnologia começava a fazer parte da vida das pessoas cegas e das próprias escolas. Para mim, a raiz do capacitismo é a exclusão e o principal momento em que me senti excluído foi quando a minha mãe teve muita dificuldade para me matricular nas escolas regulares. Muitas vezes, ela tentou me matricular em grandes escolas de São Paulo e o que encontramos foram portas fechadas. As desculpas eram várias, como falta de vagas e falta de estrutura. Somente aos 9 anos de idade consegui ingressar em uma escola que entendeu o desafio de ter um aluno cego e trabalhou para a minha inclusão”.   

O que poderia ter sido diferente?  

“Hoje em dia, apesar de a legislação assegurar a matrícula de estudantes com deficiência na escola comum, é evidente que, para que isso funcione na prática, o primeiro passo é que a escola adote uma postura acolhedora. É claro que existem muitos desafios, não podemos romantizar nem fingir que eles não existem, porque temos um sistema ainda muito despreparado. Mesmo assim, acredito que as escolas precisam estar mais abertas a receber a diversidade e as pessoas com deficiência. Isso significa aceitar, reconhecer as dificuldades e, principalmente, se abrir para uma cultura inclusiva. Essa abertura envolve uma parceria desde o início com a família e, sobretudo, com o aluno. Não basta apenas garantir a matrícula: é necessário que ele seja incluído de fato, participando das atividades, das interações com professores e colegas. Costumo dizer que é como numa festa: não basta convidar, é preciso chamar para dançar. Se você convida uma pessoa cega para a festa, mas a deixa sentada sozinha em uma mesa, sem criar condições para que participe, isso não é inclusão. O mesmo vale para a escola. Quando criamos condições para que o estudante participe das aulas, atividades e convivência, estamos colocando o anticapacitismo em prática. Para mim, esse é o principal caminho da inclusão”.  

A imagem mostra Clara Marinho. Ela é uma mulher jovem, de pele clara e sorri para a câmera em um ambiente externo com bancos de madeira ao fundo. Ela tem cabelos longos e cacheados, veste jaqueta jeans clara sobre uma blusa bege e usa um brinco comprido decorado com uma pena roxa. Fim da descrição.
Clara Marinho,
escritora
 

“A época em que estava no Ensino Médio foi a que mais sofri com o capacitismo. Apesar de ter boa estrutura, acessibilidade e sala de recursos, a escola não era acolhedora. Foi ali que mais enfrentei preconceito, principalmente por parte dos professores de sala de recursos. No início, me colocaram em uma sala com alunos reprovados, que também eram excluídos. Depois me transferiram para uma turma de notas melhores, mas não consegui me adaptar. O maior problema, porém, vinha da sala de recursos. Logo na primeira semana percebi o capacitismo direcionado a mim e a outros alunos com deficiência: a sala frequentemente estava fechada, e eu não recebia o apoio necessário para comer e ir ao banheiro, por exemplo. O período de provas foi ainda pior. Eu precisava apenas de alguém que lesse, escrevesse e marcasse as respostas, mas as professoras chegaram a me entregar o gabarito pronto, pedindo que eu copiasse ‘sem copiar tudo para não levantar suspeita’. Respondi que não faria, porque tinha estudado. A partir daí fui tratada com arrogância e humilhações, ouvi comentários ofensivos sobre mim e outros alunos, inclusive sobre nossos corpos. Foi um peso enorme”. 

O que poderia ter sido diferente?  

“Se houvesse a compreensão de que cada ser humano é único, independentemente do corpo ou do nível intelectual, minha história teria sido diferente. Remover barreiras físicas já ajuda muito, mas o mais importante é derrubar as barreiras atitudinais, ou seja, mudar a forma de pensar. O corpo não existe para gerar lucro ou poder, ele existe para ser. Quando se entende isso, a perspectiva muda. Por isso acredito que a maior prática anticapacitista é essa mudança de pensamento: não discriminar, não menosprezar ninguém pela sua capacidade corporal ou intelectual, mas reconhecer cada pessoa como alguém pleno em sua existência.”

 

5 ações para construir uma escola anticapacitista

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Conteúdos extras:  

Augusto Galery, coordenador de Gestão Educacional do Instituto Rodrigo Mendes, sugere dois filmes para aprofundar o conhecimento:  

“Fora de mim”
Conta a história de Melody, uma criança com paralisia cerebral que frequentava uma classe especial e é convidada a fazer parte de um projeto inovador: participar da sala de aula regular, com seus pares. O filme, que se passa no início do século, mostra com clareza as dificuldades da gestão e do professorado da escola ao se deparar com o desafio de incluir, resultando em ações capacitistas. A história de Melody retrata com clareza os desafios que ainda enfrentamos em relação à inclusão. 

“Hoje eu quero voltar sozinho”
Mostra as relações escolares e os primeiros amores de Leonardo, um estudante cego. O filme retrata como a dificuldade de lidar com a diferença pode levar a situações capacististas e ao bullying, apresentando um retrato emocionante da adolescência de uma pessoa com deficiência. 

 

Esta matéria faz parte de uma série de conteúdos incentivados pelo Sistema Positivo de Ensino pelo nosso compromisso com a educação inclusiva na educação pública e privada. 

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