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Professora de AEE inicia projeto para autonomia de estudante surdocega

Projeto “Conhecendo o mundo por meio do tato” contribuiu para a valorização da diversidade entre a comunidade escolar envolvida com a iniciativa

Meu nome é Lucia Maria Dalbello, tenho 44 anos e trabalho na rede municipal de ensino de São José do Rio Preto (SP) desde 1999, sendo 17 anos dedicados à educação especial. Atuo como professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE), um serviço ofertado pela rede de ensino em consonância com a obrigatoriedade prevista na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva.

Os estudantes público-alvo da educação especial são os alunos com deficiência, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e altas habilidades/superdotação. Cada criança que chega ao AEE tem um universo a ser explorado, o que me motiva a buscar as melhores estratégias a fim de ver essa criança em formação desenvolvendo sua capacidade e habilidade para ser, conviver, interagir, participar, expressar e se conhecer.

No início do ano letivo de 2020, fui informada da matrícula de uma estudante com surdocegueira na Unidade Pantera Cor de Rosa. Ela necessitava de apoio para higiene, locomoção, alimentação e realização de atividades pelos espaços escolares.

Em um primeiro contato, pude observar comprometimentos motores e sensoriais. Então, realizei acolhimento e entrevista com a família da aluna. A mãe relatou que a filha realizava alguns atendimentos clínicos especializados.

A estudante, matriculada na sala de aula comum, foi também inserida no Atendimento Educacional Especializado, para realização de atividades na sala de recursos multifuncionais. O atendimento acontecia no contraturno escolar, na Escola de Ensino Fundamental Dr. José Maria Rollemberg Sampaio, próxima à escola da aluna.

Em reunião com a gestão escolar, a professora da criança e a profissional de apoio, designada pela Secretaria Municipal de Educação para trabalhar no apoio e cuidados com a aluna, articulei o trabalho pedagógico inicial por meio de atividades com estímulos sensoriais, como tato, olfato e paladar.

 

Professora e estudante em ambiente escolar (na sala de recursos multifuncionais) manuseiam, juntas, boneco com cela braile no tórax, que está com parte do corpo apoiada em carteira escolar. A professora faz uso de máscara de proteção. Fim da descrição.
Fonte: arquivo pessoal.

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“Conhecendo o mundo por meio do tato”

Nos anos de 2020 e 2021, em razão da pandemia, os encontros ocorreram de forma assíncrona e síncrona. Dessa forma, o contato com a família e a professora da sala de aula comum ocorreu semanalmente.

Pensando em um trabalho significativo e que maximizasse o desenvolvimento da aluna em sua potencialidade, nasceu o projeto pedagógico “Conhecendo o mundo por meio do tato”. Essa iniciativa teve como principais objetivos:

  •      (I) Explorar os sentidos remanescentes da criança para introdução da Libras Tátil e Código braile;
  •      (II) Propiciar condições que possibilitem exploração e conhecimento de mundo por meio dos sentidos remanescentes, visando o desenvolvimento da autonomia;
  •      (III) Buscar estratégias e recursos de acessibilidade que visem a eliminação das barreiras do entorno;
  •      (IV) Oferecer apoio ao professor da sala de aula para adaptação de atividades e implementação de recursos, de forma que trabalhe o desenvolvimento da coordenação motora, estimulação sensorial e comunicação, garantindo o princípio da equidade;
  •      (V) Orientação familiar.

Desenvolvimento integral da estudante

Assim que retornamos às aulas presenciais, a estudante passou a frequentar o Atendimento Educacional Especializado em sala de recursos multifuncionais. Nessa sala, trabalhei a estimulação integral da aluna, objetos de referência e iniciação da Libras Tátil e Código braile. Além das miniaturas de objetos do seu cotidiano, texturas diversas, tintas, objetos da natureza e outros recursos, também foi utilizada a técnica de “mão sobre mão” para direcionar a exploração de tudo que lhe era oferecido.

Foi necessário utilizar diversos recursos para trabalhar seu desenvolvimento integral, com adaptações necessárias em todas as etapas do trabalho. Iniciei solicitando algumas adaptações para a sala de aula e para a sala de recursos multifuncionais como a colocação de uma mesa de tamanho menor, com recorte oval, para encaixe da cadeira, que também passou por adaptações.

Foram elaborados objetos de referência para a sala de aula comum e para a sala de recursos multifuncionais. Todos os profissionais que trabalhavam com a aluna passaram a utilizar um objeto de referência para que ela os identificasse. Alguns materiais também foram adaptados e confeccionados para estimulação sensorial, como jogos com texturas e painel de luz.

A importância das parcerias para o sucesso do trabalho

As técnicas e procedimentos desenvolvidos com a estudante no AEE eram compartilhados com a professora da sala de aula comum, Eunice Carvalho, e com a família para que houvesse uma sinergia no trabalho com a criança, ou seja, um vínculo de confiança entre escola e família.

A cada atividade desenvolvida com a turma, a professora da sala de aula entrava em contato para orientações, troca de ideias e sempre realizava as adaptações necessárias para que todos tivessem acesso às atividades. A proposta foi apresentar o mundo e suas interações por meio dos sentidos remanescentes e iniciamos com atividades táteis. Na sequência, as atividades envolveram o olfato e o paladar.

Articulei, também, uma parceria com o Instituto Rio Pretense dos Cegos Trabalhadores (IRCT), onde a aluna é atendida e, desde então, nos mantemos em contato para troca de ideias e informações. A escola e as instituições parceiras alinharam o conteúdo a ser trabalhado com o AEE, e tanto a pedagoga do Instituto dos Cegos, quanto a professora da sala de aula comum, trabalharam com Libras Tátil para que a aluna percebesse seu significado.

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Resultados do trabalho desenvolvido

Os resultados começaram a aparecer quando, por exemplo, foi trabalhado o sinal referente à água. As atividades propostas a fizeram sentir e experienciar a água em todas as suas funções: no banho, para beber, na torneira, entre outros. Em casa, em um dia chuva, a mãe a colocou na janela e estendeu suas mãos para que pudesse sentir a água da chuva. Então, a menina fez o sinal de água em Libras, evidenciando que havia compreendido o conceito de água, algo que alegrou toda a equipe. A partir desse momento, a estudante reconheceu a água em diferentes situações e passou a sinalizar, por meio de Libras, quando quer beber água.

Com o cenário imposto devido à pandemia da covid-19, a maior parte do trabalho desenvolvido foi de forma remota e a participação da família foi fundamental com o envio das devolutivas. Diante das devolutivas enviadas, foi possível perceber que a estudante apresentou muitos progressos. Percebemos aumento na concentração durante a realização das atividades e ela também demonstrou noções de alguns conceitos, como “dentro e fora”. Nas atividades, nas quais foram oferecidas luzes coloridas, ela direcionava seu corpo para a luminosidade.

A habilidade de memória também foi trabalhada em propostas da vida diária. A menina memorizou o caminho a ser percorrido de seu quarto até a sala de sua casa. Quanto à coordenação motora, apresentou bom desenvolvimento, conseguindo se sentar sem apoio e se arriscando a se levantar apoiando nos móveis, iniciando os primeiros passos.

A mãe relatou que a filha acompanha o preparo dos alimentos e, quando sente o cheiro, algumas vezes, faz o sinal em Libras de comida. O cheiro do alimento sendo preparado é uma pista concreta para que compreenda o momento da refeição.

Diante dos relatos da família e das observações realizadas, foram evidenciadas várias aprendizagens, como reconhecimento dos objetos de referência ao chegar na sala de aula, na sala de recursos multifuncional e no reconhecimento da professora de AEE. Utilizando o resíduo visual, a estudante explora objetos luminosos e se direciona para eles.

 

Professora e estudante em ambiente escolar (na sala de recursos multifuncionais) mexem em objeto de madeira com lâmpadas coloridas na parte superior. O objeto está apoiado sobre uma mesa, que também tem um boneco e uma cartela com o nome da aluna: Isis. A professora usa máscara de proteção. Fim da descrição.
Foto: arquivo pessoal.

Participação de todas e todos

Todos os estudantes da turma foram orientados sobre a necessidade do toque para interação e reconhecimento dos colegas, quebrando a barreira comunicacional e possibilitando interação com o ambiente e, consequentemente, na aquisição das habilidades de comunicação, orientação, mobilidade, coordenação motora e outras.

Essa foi minha primeira aluna de atendimento com surdocegueira. Me senti desafiada a oferecer um trabalho de qualidade e colaborar para o seu desenvolvimento integral. Durante todo o processo de trabalho, realizei pesquisas a respeito da surdocegueira e troquei experiências com a professora da sala de aula comum, que também se dedicou a esses estudos.

As dificuldades iniciais deram lugar ao crescimento pessoal, profissional e sentimento de gratidão pela oportunidade de tê-la como aluna. Ela participou ativamente das atividades, como protagonista da sua aprendizagem, com apoio e orientação da família e profissionais envolvidos nesse processo. A técnica “mão sobre mão” fazia a criança avançar no conhecimento de objetos, pessoas e do mundo ao seu redor.

Com o desenvolvimento desse projeto, percebe-se que um caminho já foi trilhado e trouxe avanços para a autonomia da aluna, pois, atualmente, ela já consegue sinalizar quando está com sede, fome e necessita de cuidados com a higiene. Reconhece pessoas e lugares por meio dos objetos de referência e se levanta quando quer se locomover ou mudar de lugar. Sua aprendizagem continua em construção e novos profissionais atuarão com a criança, dando continuidade a esse trabalho para que ela permaneça se desenvolvendo.


O projeto “Conhecendo o mundo por meio do tato” é um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2021.

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