Guias-intérpretes apoiam pessoas surdocegas durante isolamento social

Barreiras comunicacionais e falta de recursos são as maiores preocupações de estudantes e pessoas com surdocegueira na pandemia

Embora desde o início do isolamento social tenham sido pensadas estratégias em diversas esferas públicas para garantir os direitos básicos a toda a sociedade, atualmente, quase quatro meses após o primeiro decreto de quarentena, há pessoas que ainda enfrentam desafios em sua rotina devido à pandemia. 

Segundo dados de 2018 do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), existem cerca de 40 mil pessoas surdocegas no Brasil e algumas delas utilizam-se exclusivamente de métodos de comunicação que precisam de contato físico, como Tadoma, onde a pessoa coloca a mão próxima à boca da outra que fala, e Libras tátil, que consiste na Língua Brasileira de Sinais adaptada para ser reconhecida por meio de toques nas mãos.

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A barreira comunicacional na pandemia

Para Claudia Sofia, representante da Associação Brasileira de Surdocegos (Abrasc) , o início da quarentena não foi fácil e levanta uma questão importante: “Foi uma surpresa! Usando Tadoma e Libras tátil precisa ter todas as precauções. Para nós foi assustador, porque as pessoas desconhecem que precisamos tocar. (…) Quando um surdocego ficar internado, será que ele vai ter um guia-intérprete ali no hospital? Como vai ficar a informação dele?”

Camila Indalecio, irmã de Claudia, pondera sobre as dificuldades de comunicação mesmo estando dentro de casa e conta uma experiência vivida por conta do isolamento:

Quando eu recebi uma visita de dois amigos, que vieram me entregar alguns materiais de estudo em braile, eles não souberam como reagir. Eles sabiam que eu usava o Tadoma e eles ficaram sem ação. Como além do Tadoma eu uso a Libras tátil, eles preferiram colocar a luva para fazer a Libras tátil, mas nesse momento eu fiquei um pouco constrangida e até mesmo chateada.

Apoio de guias-intérpretes

Eduardo Ruas, guia-intérprete há mais de vinte anos, alega que ele e outros colegas da área têm acompanhado surdocegos em atividades que requerem sair de casa, como ir a farmácias, lojas e supermercados, e que ele também tem feito atendimento remoto, auxiliando uma família a interagir com a filha surdocega.

Eduardo Ruas, de camiseta preta, máscara, luvas e óculos, está no meio de Carlos Jorge e Claudia Sofia. Carlos também usa máscara e está com camiseta florida roxa, se comunicando com Eduardo por meio de libras tátil. Claudia Sofia, de máscara e blusa amarela, se comunica com Eduardo por tadoma. Fim da descrição.
Claudia Sofia e Carlos Jorge se comunicando por meio de tadoma e Libras tátil com o guia-intérprete Edu Ruas durante a pandemia.

Na área da educação desde 2010 e atualmente guia-intérprete de um estudante surdocego com baixa visão e TEA da rede municipal de São Paulo, Christiane Pedro tem trabalhado em conjunto com os professores da sala de aula regular e em parceria com a família para oferecer os materiais de estudo adaptados às necessidades do aluno:

A mãe, além de estar se interessando em aprender a língua de sinais, está acompanhando as atividades em vídeo com o filho. A gente recebeu um material, que é a trilha de aprendizagem, que eu consegui adaptar. Todos os dias temos plantões on-line com os professores e a gente pensa no que fazer dentro de cada disciplina. Dentro da biologia, trabalhamos a questão do vírus, a conscientização. E eu tive a ideia de pegar sacola plástica e cordão de sapato e amarrar e puxar as perninhas, e ficou super bacana. É uma coisa simples, que ele teve no concreto para representar o vírus.

A educação de surdocegos no isolamento social

Diante da pandemia da Covid-19, muitas secretarias de educação estabeleceram orientações para assegurar a continuação do processo de ensino-aprendizagem durante o período de suspensão das aulas, mas as principais atividades têm se dado on-line, a distância.

Camila alega que a maioria das pessoas com surdocegueira precisam ter atendimento presencial, o que não tem acontecido durante a pandemia:

A criança, o jovem com surdocegueira, infelizmente, está privado de ter uma educação de qualidade, um desenvolvimento educacional. Certas atividades, muitas vezes os pais não tem como fazer, porque precisam de equipamento, material, precisam de um profissional presencial para estar com eles.

De acordo com Eduardo, que já acompanhou estudantes com deficiência auditiva em sala de aula, as barreiras enfrentadas vão além da comunicacional:

O sistema educacional atual não oferece os recursos necessários para a equiparação de oportunidades de aprendizagem a todos os alunos.

Estudante Diogo Bonfim, vestindo blusa e jaqueta azuis, posiciona triângulo de EVA vermelho em caderno de desenho. Sobre a mesa, estão losangos e outros triângulos vermelhos, azuis e verdes e cola bastão. Fim da descrição.
Estudante Diogo Bonfim, realizando atividade acompanhado pela guia-intérprete Christiane Pedro.

Respeito às singularidades

Para Camila, não são apenas os estudantes com deficiência que estão sendo prejudicados pela falta de acessibilidade aos conteúdos on-line. Ela alega que ainda é necessário muito trabalho para a criação de ambientes escolares acessíveis a todos:

Como estamos vivendo um período crítico, todos estão tendo que se adaptar em todas as áreas, inclusive na área educacional. Nem todo jovem tem acesso à internet. As pessoas com deficiência já encontravam essas barreiras comunicacionais, arquitetônicas, em todas as áreas e passaram a ter também essas dificuldades, mas é importante a gente continuar batalhando para conseguir um espaço mais inclusivo para pessoas com deficiência e para todas as pessoas, para que possamos ter uma educação de qualidade no Brasil.

A guia-intérprete Christiane alega que diversidade e um ambiente escolar inclusivo dependem da conscientização de todos:

Muita gente não sabe o que é surdocegueira. A gente precisa trabalhar a conscientização, mostrar para os profissionais, tanto educadores, como gestores, principalmente para as famílias, que seus filhos são capazes de ser o que eles quiserem, respeitando até onde eles podem ir. A gente tem que respeitar acima de tudo as suas singularidades e oferecer estratégias para que eles consigam caminhar sozinhos.

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