Criação de jogo estimula estreitamento de laços em equipe escolar

Durante construção de material pedagógico acessível para aula de ciências, educadoras reforçam importância de trabalho colaborativo

Em um ano atípico, com acontecimentos marcantes, fomos obrigados a rever e reestruturar nossas vidas. Muitos precisaram aprender a cozinhar, a lidar com a tecnologia, a cortar o cabelo de familiares, entre tantas outras questões do dia a dia.

Em meio a tantas novidades, fomos surpreendidas com a notícia que participaríamos de um curso a distância com o tema “Materiais Pedagógicos Acessíveis” e nele iríamos lidar com algo novo e tão temido em nossa profissão: a tecnologia.

Desde o início da proposta, tínhamos a ideia de trabalhar com duas classes de 5º ano, com média de 32 alunos, sendo cinco deles crianças com deficiência. Ambos os grupos possuem a mesma professora polivalente e o apoio de uma estagiária em ambos os períodos.

Nossa unidade de ensino, E.M.E.F. Prof. Álvaro Pereira Gaspar Filho, está localizada no município de Peruíbe (SP), em um bairro de vulnerabilidade social. A sala de aula é acessível, ampla e arejada. O ambiente conta com lousa digital, aparelhos de som, projetores (quando solicitado pela professora) e jogos educativos.

 

Fachada da E.M.E.F. Prof. Álvaro Pereira Gaspar Filho, com muros externos azuis e internos da cor salmão. Fim da descrição.
Foto: Erica Stachera. Fonte: acervo pessoal.

Planejamento do projeto

Nosso projeto foi realizado com esses dois grupos, pois desde o início do ano observamos que o maior desafio seria criar metodologias de ensino que amparassem e atendessem a todos os nossos alunos.

Sendo assim, observamos o currículo do 5º ano e decidimos trabalhar com a área de ciências da natureza, com a unidade temática “vida e evolução” e com o objeto de conhecimento “sistema digestório”.

Após reconhecer nossas dificuldades e traçar nossos objetivos, optamos por criar um jogo de trilha que oportuniza ao aluno conhecer as funções dos órgãos do sistema digestório no processo da digestão, trabalhando de forma lúdica e interativa e eliminando barreiras ao aprendizado.

 

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Sistema digestório

O jogo foi confeccionado em um tabuleiro de madeira em formato de corpo humano. Os órgãos do sistema digestório são contornados com tinta em alto relevo. Ele tem recurso eletrônico composto pelo sistema de áudio (arduino), e conta também com cartões de perguntas, dado tátil e pinos marcadores.

 

Sob tecido azul estendido no chão, silhueta em madeira com ilustrações do sistema digestório humano. Ao lado, caixa de mdf aberta, com cartilhas de papel dentro. Na tampa da caixa está escrito "trilha do sistema digestório". Fim da descrição.
Foto: Erica Stachera. Fonte: acervo pessoal.

Esse material pedagógico acessível foi projetado dentro do conceito de Desenho Universal de Aprendizagem (DUA), pois universaliza a construção do conhecimento, contemplando as especificidades de cada aluno.

Educação na pandemia

Como o projeto foi desenvolvido em um período de pandemia, a criação do material e as reflexões no processo formativo influenciaram o trabalho pedagógico remoto com os estudantes. Desenvolvemos Atividades Pedagógicas Não Presenciais (APNP), preparadas pela professora polivalente, e contamos com a participação de alguns estudantes, ao gravarem os áudios com as perguntas do jogo (por meio do aplicativo de mensagem WhatsApp).

Para idealizar e colocar em prática nosso projeto, a equipe, composta por coordenadora pedagógica, professora polivalente e professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE), criou um grupo no WhatsApp e realizou várias reuniões.

Devido aos altos índices de casos da Covid-19 na região, optamos por utilizar o material físico somente com o retorno das aulas presenciais. Para o remoto, planejamos uma sequência de aulas, buscando uma metodologia ativa.

Planejamento da utilização do material

Planejamos uma atividade diagnóstica inicial sobre a temática com o jogo de trilha, sem uma prévia do conteúdo a ser trabalhado ou intervenção da professora.

Em seguida, os estudantes participam do jogo de trilha. A professora anota as dificuldades apresentadas pelas crianças durante o jogo, grupo a grupo. Enquanto a professora observa um grupo, os demais, simultaneamente, realizam outras atividades pertinentes à temática.

Posteriormente, por meio de pesquisa, apreciação de vídeos e textos para leituras dialogadas, a professora apresenta os conteúdos propostos, trabalhando novamente com o material em um terceiro momento e observando como o conteúdo foi construído por cada aluno.

Para avaliação, são observadas as respostas dos estudantes durante as atividades diagnósticas inicial e final do jogo de trilha Sistema Digestório e, posteriormente, por meio de uma produção oral, textual ou artística, considerando o objetivo da aula.

 

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Estreitamento de laços no percurso

Ao longo de todo o trabalho, uma rede de apoio foi sendo criada. Pudemos contar com o recebimento do kit de eletrônica oferecido pelos organizadores da formação; a madeira, oferecida pela inspetora da escola; o recorte da silhueta do jogo, feito pelo irmão da coordenadora; a pintura, realizada pela filha de uma das professoras; o verniz, aplicado pelo marido de uma das educadoras; e por toda a parte eletrônica, organizada por outro marido.

Aos poucos nosso projeto foi ganhando forma, cor e voz. Nossos laços foram se estreitando, tanto com nosso pequeno grupo da escola, como com os participantes e mediadores do curso. A troca de saberes proporcionou momentos riquíssimos e únicos. Parávamos e ouvíamos atentamente a todas as novidades tecnológicas que nos passavam. Ficávamos extasiados com tanta informação e por vezes chegamos a sonhar com uma “Sala Maker” em nossa escola.

Falando na nossa escola…

Apresentamos nosso projeto aos nossos amigos professores, trocamos nossas experiências, expusemos nossa proposta do trabalho dentro do Desenho Universal e de uma metodologia ativa, e todos ficaram encantados.

Ao realizar um balanço de todo o processo, observamos que, se não estivéssemos em um período pandêmico, poderíamos ter deixado os estudantes pintarem o tabuleiro, recortarem as fichas de perguntas, construírem o arduino em sala de aula, manusearem um pirógrafo, entre tantas outras experiências que poderiam ter vivenciado, criando, desde a construção, um projeto riquíssimo com a participação de todos.

Porém, toda a experiência é válida. Agora nossa equipe está pronta, esperando a volta às aulas de braços abertos, com uma metodologia totalmente inovadora, com “professoras makers” e com um jogo hiper legal!


Este relato de experiência é fruto da participação das autoras na edição 2020 do Materiais pedagógicos acessíveis – formação em serviço para educadores envolvidos no processo de escolarização de estudantes público-alvo da educação especial em escolas comuns.

A edição de 2020 do projeto foi realizada pelo Instituto Rodrigo Mendes e o MudaLab, com a parceria do Credit Suisse Hedging Griffo e do Instituto Península, e apoio da AT&T e Abadhs com objetivo de contribuir na construção de materiais pedagógicos acessíveis que auxiliem o processo de ensino-aprendizagem de estudantes com e sem deficiência.

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