Rede promove trabalho colaborativo entre escolas para garantir inclusão

Escolas de educação infantil e ensino fundamental I planejam estratégias para apoiar a entrada de crianças com e sem deficiência no novo ciclo escolar

A transição da educação infantil para o ensino fundamental em sua essência já é um momento desafiador para educandos, constituindo-se um período de rupturas, ainda que a rede de ensino se dedique a desenvolver projetos de adaptação que garantam uma continuidade tranquila do processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças, como é o caso da Secretaria Municipal de Educação de Porto Feliz (SP).

Diante da antecipação do ingresso das crianças no ensino fundamental e da necessidade de acompanhar o desenvolvimento integral dos estudantes, foi elaborado um projeto na rede denominado “Encontros”. Como fundamentação, foram levados em consideração inúmeros documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Currículo Paulista.

No ano de 2019, o Núcleo de Formação Pedagógica elaborou e ministrou formação continuada para os professores da 2ª etapa da educação infantil, com foco no desenvolvimento de habilidades percussoras do processo de alfabetização. Nesse aspecto, destaca-se que é de extrema importância que o professor compreenda o desenvolvimento completo de uma determinada habilidade, para ter condições de identificar em qual nível a criança se encontra e, assim, propor atividades para que ela desenvolva suas potencialidades, sempre respeitando o seu ritmo.

 

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A culminância do projeto “Encontros” ocorre ao final do ano letivo, quando as crianças da 2ª etapa da educação infantil são levadas a conhecer a escola de ensino fundamental que entrarão no próximo ano letivo. É um momento ímpar, pois as crianças são levadas pelos profissionais com quem já convivem e têm afinidade para conhecer o local que frequentarão nos próximos anos.

Nesse momento, a equipe da nova unidade escolar está preparada para recebê-los e acolhê-los, realizando um tour para conhecer as salas de aulas, os outros estudantes, os professores e os principais espaços da escola.

Como resultado da ação, no ano seguinte, as crianças ingressam no 1º ano menos ansiosas e mais preparadas para a continuidade do processo educacional institucionalizado.

A comunidade escolar

Levando esse projeto em consideração, em 2020, quando iniciamos nossa participação no DIVERSA Presencial, trouxemos como situação desafiadora o caso do estudante Altair, que possui síndrome de down.

Ele saiu da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Profª Maria Odete Coan de Camargo para ingressar no 1º ano do ensino fundamental na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Coronel Esmédio, unidade escolar que atende cerca de 700 crianças, localizada na região central do município.

A EMEF Coronel Esmédio recebe alunos oriundos da zona rural e suas famílias são, em maioria, empregadas de fazendas, sítios, haras e chácaras da redondeza, além de crianças de outros bairros que não encontram vagas nas unidades escolares próximas de suas residências.

 

Fachada da EMEF Coronel Esmédio, que tem o muro externo da cor verde e interno branco. Fim da descrição.
Foto: Google Maps.

Conhecendo a situação desafiadora

Para Altair, o processo de ingresso no ensino fundamental tornou-se um desafio ainda maior, considerando barreiras arquitetônicas à sua locomoção. Portanto, o primeiro passo foi promover adequações no prédio escolar, possibilitando que a criança tivesse acesso e participação plena.

Inicialmente, compreendíamos ser esta uma situação desafiadora para nossa equipe por inúmeros motivos, como a necessidade de verificar a existência de comorbidades recorrentes de seu diagnóstico, flexibilização curricular, adaptação do prédio, estreitamento de laços e a realização de parceria com a família.

Em meados do mês de março, quando ainda estávamos aprofundando o conhecimento sobre as especificidades e potencialidades de Altair, fomos surpreendidos com a suspensão das aulas presenciais devido à pandemia da Covid-19 e o início do ensino remoto.

Configurou-se um momento de grande apreensão de todos com a nova demanda e formato de trabalho. A necessidade do distanciamento social trouxe mais um desafio para o desenvolvimento do trabalho a ser realizado com os estudantes.

As atividades a serem desenvolvidas começaram a ser disponibilizadas no Portal do Aluno, site criado pela Secretaria Municipal de Educação para atender a todos. Contudo, para atingir os objetivos propostos para Altair, repensamos o processo de ensino e as estratégias a serem adotadas.

 

Sentados no chão de quadra esportiva, educadora e estudante dão risada. O menino segura fitas coloridas de papel. Fim da descrição.
Foto: Gisele Carriel.

Educação durante a pandemia

É muito importante que, em situação de aula presencial ou remota, os educadores sejam sensíveis às dificuldades, medos e anseios dos educandos nessa passagem para o ensino fundamental e os ajudem nessa jornada. Para isso, a recomendação da BNCC é considerar o histórico da criança que está chegando ao primeiro ano.

É essencial que o professor saiba como aquele aluno caminhou na educação infantil, quais habilidades desenvolveu, onde tem mais dificuldade e quais são seus potenciais. Isso vai ajudá-lo a desenhar uma transição mais saudável, respeitando os conhecimentos que aquela criança traz.

Pensando nisso, nas reuniões de planejamento e formativas, os coordenadores e os professores das salas comuns, bem como do Atendimento Educacional Especializado (AEE) puderam conversar com os educadores que acompanharam os alunos nas fases anteriores para trocas. A leitura do portfólio, do Plano Individual e as avaliações também foram muito úteis nesse sentido. Com essas informações em mãos, foi muito mais fácil alinhar o projeto “Encontro”, garantindo, assim, a efetividade e a continuidade do aprendizado.

 

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Durante o ensino remoto, além do acesso às atividades disponibilizadas no Portal do Aluno, a professora da sala comum e a professora de AEE trabalharam de modo colaborativo para direcionar atividades ao Altair, com orientações via WhatsApp para auxiliar a família em seu desenvolvimento.

 

Criança com síndrome de down participa de video chamada com educadora, que aparece na tela em retângulo menor à direita. Fim da descrição.
Foto: Gisele Carriel.

Apoio dos educadores

No ensino fundamental, a brincadeira dá lugar a atividades mais estruturadas e desafiadoras. A interação também ganha outra intensidade. Na medida que os alunos precisam afirmar sua identidade e se relacionar no coletivo, eles também passam a ser avaliados. É um mundo novo cheio de novos desafios!

Por isso, é por meio do projeto “Encontros” que o ensino fundamental tem se preparado para receber os alunos oriundos da educação infantil, sejam crianças com ou sem deficiência.

É de responsabilidade dos professores e da escola os desafios da transição, sendo indispensável o equilíbrio entre as mudanças introduzidas, a continuidade das aprendizagens e o acolhimento afetivo, de modo que a nova etapa se construa com base no que os educandos sabem e são capazes de fazer, evitando a descontinuidade do trabalho pedagógico.

Mudança de paradigmas

A partir dos encontros no DIVERSA Presencial, a equipe iniciou um processo reflexivo, propondo situações desafiadoras e reais diante das barreiras que envolvem o ambiente escolar.

As trocas de experiências com os demais municípios foram instigantes e as temáticas abordadas fomentaram nossa equipe, promovendo a sensibilização, fortalecendo o diálogo entre a equipe escolar e, principalmente, quebrando paradigmas.

Hoje, vemos o Altair sob uma nova ótica. Um olhar que vai além de um laudo. Conseguimos perceber que estávamos tão preocupados com as barreiras de estrutura física do prédio e priorizando a demanda médica que deixamos de olhar o real papel da escola no processo: ensinar para a vida!

A proposta dialógica sensibilizou-nos a coletar as evidências e intensificar a parceria com a família do estudante, partindo do entendimento do que impedia, o que facilitaria e colaboraria para o fortalecimento da família com toda a equipe escolar.

Esse percurso construído e direcionado junto à formação DIVERSA presencial foi de suma importância para que algumas ações da equipe escolar fossem alinhadas de forma a garantir não só o acesso a uma educação de qualidade, mas a construção de saberes e vivências, a partir de reflexões e estudos, que impactaram e promoveram mudanças na forma de interagir e pensar de toda a equipe positivamente e gradualmente, ampliando o conhecimento.

O ano de 2020 foi desafiador, mas estamos cientes do comprometimento de toda a equipe escolar diante dos desafios apresentados, garantindo o direito ao aluno de aprender significativamente.


Este relato de experiência é fruto da participação dos autores na edição 2020 do DIVERSA Presencial – formação para profissionais envolvidos com o processo de escolarização de estudantes público-alvo da educação especial em escolas comuns, desenvolvida pelo Instituto Rodrigo Mendes Site externo em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen Site externo. Por meio de parcerias com secretarias municipais de educação, o projeto tem como objetivo contribuir com a ampliação de conhecimentos sobre a educação inclusiva a partir de situações reais e desafiadoras escolhidas pelos participantes.

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