Docentes promovem diálogo com família para inclusão na pandemia

Escola municipal relata estratégias desenvolvidas para garantir que estudante público-alvo da educação especial não fique para trás no ensino remoto

A rede municipal de Barueri (SP) dispõe de 107 escolas, sendo 61 unidades de educação infantil, 46 de ensino fundamental e 7 EMEIEF, que agregam educação infantil e ensino fundamental. Em 2020, o município situado na zona oeste da região metropolitana de São Paulo, a 26 km da capital, contou com 69.830 estudantes matriculados e 2.665 professores efetivos, sendo 57 do Atendimento Educacional Especializado (AEE).

O município possui um decreto municipal (Decreto nº 8306 de 2016) que postula sobre as adaptações curriculares a alunas e alunos com deficiência matriculados na rede e é signatário das políticas voltadas para a inclusão e o direito à aprendizagem de todos. Dentro da Secretaria de Educação, temos o Departamento Educacional Especializado, que possui uma equipe técnica com 31 profissionais, dentre eles: professores de educação básica, professores do AEE, fonoaudiólogas, pedagogos, psicólogas, psicopedagogas e intérpretes de libras.

O trabalho pedagógico com o estudante público-alvo da educação especial conta, principalmente, com dois instrumentos: a adaptação curricular, instituída a partir de decreto municipal conforme previamente citado, com vistas a garantir que todo aluno tenha acesso ao currículo municipal; e o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI), elaborado a partir das avaliações realizadas pelo professor do AEE, que orienta as ações dos profissionais da unidade escolar em relação a cada aluno.

 

Fachada da escola municipal Padre Luiz de Oliveira Andrade, em Barueri. A escola possui muros muros externos brancos, enquanto os internos são azuis, e portões em azul escuro. Fim da descrição.
Foto: Google Maps.

Situação desafiadora na rede de ensino de Barueri

Em 2020, o estudante Clenilson, matriculado na EMEF Padre Luiz de Oliveira Andrade, apresentava comunicação e interação restrita com os professores e com os colegas de classe. Havia dificuldade em identificar se ele compreendia o que acontecia ao seu redor. Na maior parte do tempo, apenas repetia a fala dos outros, e acreditávamos se tratar apenas de um tipo de ecolalia. Era notável a dificuldade na mobilidade, devido ao seu comprometimento motor.

Um dos desafios era promover um tempo maior de permanência do estudante em sala de aula. A fala era que todas as estratégias e recursos adotados não prendiam a atenção do educando, levando os professores a ficarem apreensivos e acreditarem que não era possível a participação do aluno nas atividades. Havia queixa sobre falta de atenção e foco.

As alternativas encontradas quando o aluno apresentava comportamentos atípicos era inseri-lo em ambientes mais tranquilos e longe de qualquer barulho, cantar com ele e assistir a vídeos no YouTube, acompanhado por sua agente de inclusão.

Conhecimentos mobilizados e criados

A partir da formação Diversa Presencial, oferecida pelo Instituto Rodrigo Mendes, passamos a refletir sobre alguns pontos, como a necessidade de conhecer realmente quem era o aluno.

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Uma das primeiras ações foi a comunicação com a família e a realização de uma entrevista para compreender melhor a dinâmica do aluno em casa. A partir desse contato, a mãe relatou algumas dificuldades em relação ao acompanhamento das atividades escolares do filho, e o pai trouxe informações sobre os interesses do estudante.

Devido à pandemia da covid-19, foi realizada uma conversa de forma virtual com a professora de educação especial que lecionou para Clenilson na educação infantil e em parte do ensino fundamental.

O diálogo ampliou os nossos conhecimentos sobre o educando e suas possibilidades de aprendizagem. Por meio dessa discussão de caso, percebemos a necessidade de realizar um levantamento quanto aos serviços ofertados pelo município com os quais a família contava.

Montagem com oito fotos de educadores. Acima, logo da Secretaria de Educação de Barueri e texto "Participantes no DIVERSA". Do lado direito, símbolos de arroba e nomes dos educadores: "Patricia Parisi, Juliana Peixoto, Luciana, Sirley, Marcelo, Elaine, Katia e Juliana Lara". Fim da descrição.

Foto: Secretaria Municipal de Educação de Barueri.

Ações desenvolvidas

Com o início da pandemia, tivemos que estruturar novas formas de atuação, de modo a atender às necessidades de todos os estudantes remotamente com aulas e atendimentos on-line.

Em relação a continuidade de ensino de forma remota para Clenilson, a equipe de gestão da escola realizou visita domiciliar para compreender se a família possuía recursos tecnológicos para participar das atividades ofertadas, o que também possibilitou conhecer melhor o aluno. Cabe ressaltar que a família recebeu formação sobre o uso das tecnologias que o município disponibilizou para as aulas e os atendimentos do AEE de forma síncrona e assíncrona.

Todas essas atividades contribuíram para o estreitamento de vínculo entre família e escola, o que resultou em maior participação do estudante nas aulas remotas, melhor acompanhamento da família na realização das atividades e suporte no uso de materiais impressos e ferramentas oferecidas.

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Com estes investimentos, Clenilson passou a fazer os atendimentos do AEE de forma remota e os professores da sala comum passaram a organizar suas aulas síncronas com conteúdos adaptados dos componentes comuns curriculares referentes ao ano em que ele está matriculado, de forma a possibilitar sua participação e garantir seu acesso ao currículo.

Quanto à equipe docente, o trabalho colaborativo foi intensificado com reuniões periódicas para discussão do caso, reelaboração do PDI, construção de atividades e avaliações específicas para todos os alunos com deficiência da unidade escolar.

Em relação às ações do Departamento Educacional Especializado (DEE), a equipe técnica passou a reunir-se após as formações para pensar em formas de atuação junto à escola. Além disso, algumas reuniões foram realizadas entre equipe técnica e equipe escolar, participantes da formação, para estruturarmos ações efetivas em relação ao processo de escolarização do Clenilson.

Foi organizado um horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC) com todos os professores da escola, no qual discutimos a formação e alguns conceitos de educação inclusiva. Nesse encontro, os professores que participaram do Diversa Presencial deram depoimentos destacando aprendizados.

Como desdobramento desta ação, a II Semana da Valorização das Diferenças, evento promovido pelo Departamento Educacional Especializado com a rede municipal, teve foco em educação inclusiva e foram propostas discussões sobre barreiras atitudinais e o trabalho colaborativo nos HTPC de todas as unidades escolares.

Resultados e mudanças

As principais mudanças observadas foram sobre a postura dos professores e funcionários em relação às ações propostas ao Clenilson, fortalecimento da parceria entre família e escola e a função da gestão como articuladora dessas relações.

A criação de redes foi essencial para que todos se sentissem responsáveis pelo processo de escolarização do aluno. Apesar de ser o início de um longo processo de construção, hoje há uma maior compreensão sobre a necessidade de refletir sobre a inclusão na escola e o papel que cada um tem nesse processo.

Outro ponto relevante é o trabalho colaborativo entre o professor de AEE e os professores de sala comum. A gestão escolar buscou mobilizar e articular a equipe docente para propiciar integração entre os diversos segmentos da escola e para que as ações desenvolvidas fossem estendidas a demais estudantes com deficiência.

A partir das discussões proporcionadas pelo Diversa, passamos a compreender que é preciso tempo para conhecer o aluno, saber quais são seus conhecimentos prévios e seu modo de dizer as coisas.

Percebemos como Clenilson se expressa e se comunica, e isso foi essencial para as estratégias propostas a ele. Com as ações realizadas, houve aumento do tempo de participação nos atendimentos remotos do AEE e em algumas participações em aulas síncronas de outros professores. Nossos desafios para o próximo ano serão a ampliação da permanência e participação do estudante em sala de aula, com seus colegas e professores, além da expansão das intervenções realizadas para as demais unidades escolares da rede municipal de Barueri.

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Este relato de experiência é fruto da participação dos autores na edição 2020 do DIVERSA Presencial – formação para profissionais envolvidos com o processo de escolarização de estudantes público-alvo da educação especial em escolas comuns, desenvolvida pelo Instituto Rodrigo Mendes em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen. Por meio de parcerias com secretarias municipais de educação, o projeto tem como objetivo contribuir com a ampliação de conhecimentos sobre a educação inclusiva a partir de situações reais e desafiadoras escolhidas pelos participantes.

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