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Educadores relatam práticas inclusivas em rede municipal

Escuta e trabalho colaborativo permeiam planejamento de ações que garantem uma educação inclusiva em escola de Francisco Morato (SP)

Trazemos aqui a experiência de Francisco Morato, último município da região metropolitana de São Paulo, que possui uma população estimada em 175.8441 habitantes. A vulnerabilidade social é uma característica marcante pelas condições tanto geológicas quanto socioeconômicas e culturais, com 66,9% de incidência de pobreza.

A rede municipal de ensino de Francisco Morato é composta por 49 escolas, contabilizando as unidades de educação infantil, ensino fundamental e educação de jovens e adultos (EJA), e um total de 22.800 estudantes. Destes, 372 estudantes com deficiência.

No Atendimento Educacional Especializado (AEE), contamos com nove professores que atuam em onze Salas de Recurso Multifuncionais. A rede conta, ainda, com duas interlocutoras de Libras, que atendem três alunos: um na Educação Infantil e dois no Ensino Fundamental. Há também uma Educadora Social, que atende os estudantes de EJA e faz a interlocução do Departamento de Educação Especial junto à rede de serviços da Assistência Social e conselhos.

Temos nesse conjunto a Orientação Educacional que, no contexto da perspectiva inclusiva, é formada por profissionais colaboradores desse processo. Das doze orientadoras educacionais, duas prestam serviço de apoio no departamento de Educação Especial. Nas aulas presenciais, também contamos com o apoio dos auxiliares de atendimento educacional.

As duas equipes (AEE e Orientação Educacional) realizam o trabalho colaborativo com o professor de sala comum, e uma das ações é a oficina formativa, que normalmente ocorre presencialmente. Durante a pandemia, mantivemos as ações com a ferramenta do Google Meet, WhatsApp e contato telefônico.

 

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Mensalmente ocorre o “encontro com famílias”, atividade mediada pela Educadora Social, também mantida durante a pandemia com o uso de ferramentas virtuais. Os temas são escolhidos de acordo com as demandas das famílias, apresentadas nos encontros anteriores e nos contatos, que aconteciam na escola e agora se mantêm pelo WhatsApp. Para esses encontros podemos contar com convidados, como representantes da rede de apoio e conselhos.

Atendimento educacional especializado

No que se refere à educação especial, duas das principais mudanças foram significativas: a itinerância e o trabalho colaborativo.

A partir de 2017, iniciou-se na rede um novo desenho do trabalho do AEE, marcando efetivamente a sala de aula regular, espaço onde a inclusão escolar acontece legitimamente.

Para que esse atendimento ocorresse de fato, se fez necessária a revisão dos polos de atendimento e da efetivação das adesões aos atendimentos, incluindo a itinerância do profissional nas regiões onde os responsáveis teriam dificuldades em acessar os polos.

Nesse novo desenho, já foi possível ampliar a quantidade de atendimentos e iniciar o trabalho colaborativo, previsto nos dispositivos legais. Para que esse trabalho tenha impacto necessário na rede, os profissionais do AEE atuam nos dois turnos de trabalho no município, a fim de atender em um dos períodos e dirigir-se até a escola para o trabalho colaborativo no contraturno.

A partir de 2018, além da organização dos polos e da itinerância, foram organizados os “encontros formativos” entre os profissionais do AEE e os professores da Sala Comum para falar sobre os aspectos pedagógicos da escolarização e inclusão escolar dos estudantes com deficiência. Essa iniciativa se estendeu para a equipe de Orientação Educacional, que também passou a ter “encontros formativos” abordando aspectos pedagógicos relacionados as dificuldades escolares de outras ordens.

Com essas iniciativas, conseguimos aproximar as equipes de educação especial das equipes escolares. Essa aproximação vem consolidando a parceria entre o professor do AEE com o professor da sala comum que, por meio das trocas de experiências, sistematiza o trabalho colaborativo.

 

Representantes de municípios paulistas participam de formação. Eles estão sentados em duplas e, à sua frente, há uma mesa onde mulher usa notebook. Fim da descrição.
Rosemeire Rodrigues de Oliveira, coordenadora do Departamento de Educação Especial e Ana Paula Mendes Pereira, orientadora educacional, participam de formação. Foto: Rosemeire Rodrigues. Fonte: arquivo pessoal.

Escola Paulo Freire, campo de nossa experiência

A Escola Municipal Paulo Freire atende do ensino fundamental I ao EJA, no período noturno. A escola é a que possui o maior número de matrículas, em relação às demais unidades escolares municipais, atendendo 1500 alunos em 2020, e está situada em um território de vulnerabilidade social.

Em 2019, foi implantado na unidade escolar o Atendimento Educacional Especializado por meio da Sala de Recursos, atendendo a demanda de estudantes com deficiência do seu território. Em 2020, a escola atendia 32 alunos público-alvo da educação especial.

 

Montagem com duas fotos. A da esquerda mostra a fachada da Escola Municipal Paulo Freire, com muros externos nas cores verde e azul e muro interno branco, a da direita mostra o parquinho em área externa da escola. Ao fundo, moradias do bairro onde a unidade escolar está localizada. Fim da descrição.
Foto: Rosemeire Rodrigues. Fonte: arquivo pessoal.

Alice marcando histórias

Foi o caso de Alice que nos permitiu o encontro com o Instituto Rodrigo Mendes, por meio da formação DIVERSA Presencial. Em 2020, Alice tinha 6 anos e é a irmã mais velha de três irmãs. Ela estava regularmente matriculada no 1º ano e na sala de recursos da E.M. Paulo Freire. Mora com pai e mãe, e foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

 

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Esse encontro nos possibilitou refletir sobre a inclusão escolar de estudantes com deficiência na rede municipal de ensino, mas também ir além: pensar em um sistema de educação inclusivo.

Nosso trabalho presencial com Alice foi surpreendido pela pandemia da covid-19 e, além de aprendermos a lidar com as situações trazidas pelos estudantes, tínhamos também que aprender a lidar com a novidade do ensino remoto.

A chegada de Alice no ensino fundamental foi acompanhada pela professora do Atendimento Educacional Especializado, juntamente com a coordenadora pedagógica. Ambas pensaram nas estratégias e materiais necessários para a estudante iniciar o ano letivo.

 

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Relação com a família

Diante de alguns desafios, o primeiro pensamento era: como apoiar Alice?

A comunicação com a Alice na escola era desafiadora, assim como garantir sua participação nas atividades escolares. O tempo todo nos perguntávamos: Como Alice participará das ações da escola? Como apresentar o currículo pedagógico a Alice? Quais materiais usar? Como fazê-la entender seu lugar na sala de aula? Essas e outras questões emergiam a todo momento nos planejamentos das atividades escolares diárias. Se em tempos de ensino presencial já nos era desafiador e agora, em tempos de pandemia? Nem conseguimos conhecer direito os estudantes.

No início do ensino remoto, o contato com a família ficou bastante comprometido, só acontecia de acordo com a disponibilidade da mãe. A mãe, super atarefada, tinha dificuldades em nos responder, produzir vídeo, foto com Alice e dar retorno das tarefas propostas. Com difícil o acesso à internet, insistimos nas ligações, e mesmo assim às vezes não era possível o efetivo contato. As tarefas eram oferecidas com atividades práticas e adaptáveis para a realização em casa.

O momento era delicado e precisávamos ir com calma, amparando. Foi a melhor forma que encontramos para termos a mãe como aliada nesse processo de escolarização.

Em um primeiro momento, a ação da equipe foi estabelecer o contato com a família. A professora da sala comum e a professora de AEE foram se aproximando, ligando nos horários que a mãe podia atender, construindo vínculos, conversando e tentando entender o que dificultava esse processo de contato e o retorno das atividades escolares.

 

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Após diversas tentativas através de ligações e mensagens por aplicativo, foi realizada a escuta da mãe – conversamos sobre a rotina e a dinâmica que estava se estabelecendo em casa – o que colaborou para que pensássemos em ações e flexibilização dos conteúdos escolares.

A escuta nos trouxe o entendimento da dificuldade de Alice em expressar sua dor de dente, esse era o desafio da mãe: compreender o que estava acontecendo e poder cuidar de sua saúde bucal. Acionamos a rede de cuidados e Alice foi referenciada para o atendimento na rede de saúde, com o dentista – sanamos os desafios daquele momento.

 

Mãe de estudante sentada à mesa com educadora, vendo atividades escolares em fichário. Ambas utilizam máscara. Fim da descrição.
Foto: Rosemeire Rodrigues. Fonte: arquivo pessoal.

O que nos chamou a atenção nesse episódio foi o contato via áudio. A mãe estava sobrecarregada com assuntos de saúde da Alice, os outros filhos, as atividades remotas da escola, a casa… Não conseguia dar conta de tantos afazeres e ainda orientar as tarefas de escola com Alice. Compreendemos nesse movimento que cuidar de quem está cuidando seria nossa primeira ação, precisávamos acolher a mãe. Esse também é o papel da escola: papel acolhedor. E acolher é estabelecer vínculos, escuta, orientação. Isso nos permitiu compreender a importância da relação entre escola e família, e uma nova reflexão do campo escolar se inicia.

Fomos capturados pelos aspectos que a família nos apresentava, e que nos fez pensar no espaço escolar. É importante dar atenção a passagem da educação infantil para o fundamental. Essa
transição precisa ser pensada para todas as crianças. No entanto, para Alice era crucial.

Repensar a educação

Em tempos de um novo paradigma da educação em uma perspectiva inclusiva, essas questões precisam ser levadas em consideração. Precisamos enxergar como a deficiência está vinculada às barreiras sociais postas/impostas pelo sistema educacional e refletir sobre esse lugar. Repensar as normas se fez necessário.

O que Alice sabia/conhecia desse espaço? E sobre as relações? Quais barreiras Alice precisava
enfrentar? Como é que estamos tratando os estudantes? Estávamos jogando contra as
possibilidades de Alice comunicar o tanto que ela capta de tudo e como há muitas maneiras de fazer isso. A compreensão de tudo isso foi fundamental no processo de escolarização.

Descobrimos que é preciso permitir conhecer e reencontrar os amigos (aqueles que vieram para a mesma escola que Alice), que o que eles querem é interagir com os colegas e que podemos ajudá-los nisso. Dar significado a escola: para que serve? O que faço aqui? Tem regras? A turma pode colaborar com esse movimento? E o jogo vira… Na verdade, Alice e mostrou o que muito refletimos nesse processo formativo: nós, educadores, sabemos muito do saber pedagógico, há sempre um caminho para o professor, e é preciso muito trabalho e colaboração.
Por fim, Alice nos despertou para o cuidar-educar-incluir.

 

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Aprendemos com a educação inclusiva que é preciso garantir encontros com a equipe escolar para pensar em ações que promovam mudanças de perspectiva na escolarização de crianças e adolescentes com deficiência. Que é necessário revisitar o Projeto Político Pedagógico, no que se refere à instituição do Atendimento Educacional Especializado, e garantir a participação das famílias dos estudantes nesses momentos.

Aprendemos que a sala de aula é um espaço de possibilidades, e que pensar o AEE para além da sala de atendimento consolida o trabalho colaborativo e efetiva a atuação em todos os espaços e com todos no âmbito escolar. Aprendemos que precisamos revisitar os princípios norteadores do Currículo Municipal, assegurando a equidade.

Para nós, a inclusão escolar é compreendida como processo compartilhado na forma de uma gestão colaborativa e a participação no Diversa Presencial nos deu a oportunidade de (re)pensar a educação no município.

Ter Alice e as situações advindas do seu processo de escolarização suscitou caminhos de ruptura, sentidos e (re)construção de um trabalho sob o ponto de vista das ideias, paradigmas, concepções e discursos que marcam a história de toda pessoa com deficiência, e atravessa seu processo de educação, compreendendo que a escola é só uma parte desse fenômeno.

A história de Alice nos apresenta perspectivas e posicionamentos dos processos de gestão da rede municipal, principalmente, quanto ao sistema de educação – princípios e filosofia. A importância de pensar em formação a partir da metodologia de estudo de casos, do âmbito escolar e da Secretaria Municipal de Educação, com a participação de vários representantes do sistema de ensino municipal.

Uma situação desafiadora por si só pode reverberar discussão, construção de conhecimento e possibilidades estratégicas que darão mais legitimidade ao processo de inclusão escolar. Que seja o centro da formação: “discutir a partir das experiências que de fato a gente tem”, e tenhamos oportunidade de compreender práticas inclusivas, sustentáveis, com qualidade e equidade, matrícula, acesso e permanência, e principalmente as possibilidades de construção de conhecimento.

Por uma educação de qualidade

O DIVERSA Presencial foi para nós um grande parceiro nesse processo de construção do movimento educacional inclusivo em nosso município. Compartilhamos aqui o sentimento da importância da reconfiguração dos modos de organização da modalidade educação.

No intuito de multiplicar o que aprendemos, organizamos uma proposta de formação continuada, tendo como metodologia situações desafiadoras apresentadas pelas escolas da rede municipal de ensino.

Em um primeiro momento, nos comprometemos com a elaboração de uma Política Municipal de Educação na Perspectiva Inclusiva, a partir da discussão e reflexão realizadas na formação,
em um modelo social de educação para pessoas com deficiência.

O trabalho formativo experienciado nos torna agentes de defesa de direitos, agentes políticos responsáveis pela eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias. E assim chegamos aonde nos propomos, para “assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, bem
como promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos” (ONU, agenda 2030 – ODS), sem retrocesso, sem deixar ninguém para trás. Isso significa investimento e aposta na educação pública.

 

Em sala de aula, estudantes em carteiras dispostas em grupos. Três educadores estão de pé em frente à porta e uma professora está em frente à turma, com a lousa de fundo. Fim da descrição.
Fonte: Prefeitura de Francisco Morato.

Este relato de experiência é fruto da participação dos autores na edição 2020 do DIVERSA Presencial – formação para profissionais envolvidos com o processo de escolarização de estudantes público-alvo da educação especial em escolas comuns, desenvolvida pelo Instituto Rodrigo Mendes em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen. Por meio de parcerias com secretarias municipais de educação, o projeto tem como objetivo contribuir com a ampliação de conhecimentos sobre a educação inclusiva a partir de situações reais e desafiadoras escolhidas pelos participantes.

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