DIVERSA presencial: um curso de diálogos e inclusão

Formação em serviço oferecida pelo Instituto Rodrigo Mendes é impulso inicial para educadores transformarem suas práticas sob a perspectiva de uma educação mais inclusiva

Grupo de cerca de 15 educadores presta atenção a aula. Eles estão sentados em carteiras arranjadas em conjuntos e usam notebooks e cadernos sobre as mesas.
Educadoras e gestoras de educação participaram do DIVERSA presencial 2018. Foto: Diego Lajst/IRM.

Em 2018, tive a oportunidade de acompanhar o ciclo formativo em educação inclusiva para educadores e gestores de educação de municípios de São Paulo, o DIVERSA presencial. Pautado de como seria a dinâmica do primeiro encontro, acompanhei a coordenadora do projeto, Liliane Garcez, e a mediadora, Patrícia Brito, junto com outros membros do Instituto Rodrigo Mendes — instituição responsável pela formação —, no local onde aconteceriam trocas de experiências sobre casos reais de inclusão de estudantes com deficiência na escola comum.

Na sala, estavam presentes oito representantes — entre professores, coordenadoras e gestoras — dos municípios de Caieiras, Cotia, Mogi das Cruzes, Nova Odessa e São Caetano do Sul. Mesmo tendo uma prévia do que aconteceria, não pude deixar de me surpreender e aprender com as histórias que começariam a ser exploradas a partir daquela data em encontros quinzenais.

A metodologia do DIVERSA presencial

Os educadores dos municípios mostraram-se um pouco tímidos no início da formação, mas perceberam que esse seria um curso diferente e que não estariam em um papel apenas de ouvintes. Por lidarem com casos reais em suas escolas, teriam que se expor e praticar, também ali, a relação com desconhecidos.

A partir dessa primeira data, aconteceram mais nove encontros, cada um com uma dinâmica diferente, que traçaram um percurso formativo de todos os presentes. Teve exposições, discussões, trocas, escutas, aprendizados e também poesia.

Sem cronogramas fixos, as aulas seguiram abertas para as intervenções dos participantes e foram orientadas de acordo com o que surgia nos diálogos. Marcos, Jackson, Sophia, Júlia e Danilo foram os estudantes, inseridos dentro de contextos desafiadores dos municípios, cujas trajetórias foram apresentadas a cada encontro pelos educadores como base para as discussões.

As primeiras apresentações foram focadas sobretudo em uma perspectiva clínica de cada uma das crianças. Laudos, CIDs, famílias desestruturadas, culpabilização de sistemas educacionais e falta de preparo foram termos e assuntos que permearam as falas iniciais dos participantes. Era visível que estavam ali em busca de respostas e de caminhos para “resolver” as questões da sala de aula. Mas, logo nos primeiros encontros, perceberam que não sairiam dali com receitas prontas ou caminhos certos para a resolução de seus desafios. Fato que os impactou, mas que também abriu possibilidades para que os encontros seguissem com uma abordagem mais dialógica.

Após o fim do DIVERSA presencial 2018, os educadores registraram suas experiências ao longo do percurso formativo. Confira os relatos produzidos pelos municípios participantes:

+ Instigada por caso desafiador de inclusão, escola incentiva colaboração entre professores
+ Atividades de arte no AEE auxiliam aluno a conhecer e expressar própria identidade
+ Escola cria articulação com Assistência Social motivada por caso de inclusão
+ Para incluir criança sem laudo fechado, escola aposta em colaboração e troca de saberes
+ Escola aposta na formação dos funcionários para ampliar cultura de inclusão

Das políticas públicas à sala de aula

Ao se falar sobre os direitos das pessoas com deficiência, foi destacada a necessidade da retomada histórica de momentos importantes de conquistas sociais feitas por este público e como a valorização de processos históricos pode ser fundamental para se propor novos caminhos. Estudar a relação entre a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), em um plano macro, e a necessidade de se estabelecer uma Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência, como política focalizada, mostrou-se esclarecedor para a compreensão de que mesmo quando se fala em direitos humanos é necessário especificar as políticas públicas para grupos que foram historicamente excluídos.

Os encontros se encaminharam para o aprofundamento de discussões coletivas de temas como trabalho colaborativo, Atendimento Educacional Especializado (AEE), flexibilização curricular, legislação, função do educador, entre outros. Os assuntos foram sempre abertos e propostos pelos próprios participantes do curso, o que reforçou o caráter participativo da formação.

Mudança de olhar

Ter a oportunidade de acompanhar a transformação do discurso dos educadores desde o primeiro até o último encontro foi instigante. As trocas e discussões nos encontros promoveram não apenas uma sensibilização para a causa, mas incentivou a mudança de práticas na sala de aula e no fazer dos educadores. Professores que antes trabalhavam apenas com o objetivo de encaixar seus alunos e alunas em um determinado currículo pré-estabelecido passaram a diversificar suas práticas e, com isso, buscar incluir todos nas atividades.

Se antes o foco estava no estudante com deficiência, eles passaram a buscar um olhar para as práticas pedagógicas de modo a contemplar toda a turma, não utilizando a especificidade de um estudante como desculpa para a exclusão. Se somos sujeitos em constante transformação, não faz sentido definir a pessoa apenas por uma de suas características ou por seu diagnóstico. São principalmente as diferenças presentes em uma sala de aula que podem questionar e, portanto, melhorar o sistema educacional.

O DIVERSA presencial apresenta-se apenas como um impulso inicial para a transformação de práticas pedagógicas sob a perspectiva de uma educação mais inclusiva. É visível que cada grupo de participantes possui também suas especificidades com relação aos conhecimentos compartilhados nos encontros. Ainda assim, já foi possível observar uma mudança no discurso e nas práticas, aumentando o protagonismo do sistema de educação nos municípios participantes.

Menos “mito do herói” e mais protagonismo; menos superação e mais autonomia. Que o lema da luta pelos direitos, “Nada sobre nós, sem nós”, possa impulsionar a escuta e a inclusão de todos em espaços comuns. Que proporcione uma saída de um isolamento para a criação de laços de pertencimento. Iniciativas como o DIVERSA presencial buscam plantar essas sementes.

 

Diego Barcelos é jornalista e faz parte da equipe do Instituto Rodrigo Mendes.

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