EJA em foco: registros no Colégio de Aplicação da UFRGS

Inicio este relato com um trecho do meu caderno de anotações, pois, sendo formada em Ciências Sociais e atuando como professora de Sociologia, é uma prática cotidiana observar o espaço e as relações escolares de forma etnográfica.

Primeiros flashes

Primeiro dia de aula. Entardecer. A escola em alguma hora irá dormir, mas não será agora. Luzes são acesas, mas nem todos os lugares estão iluminados. Neste meio claro e meio escuro algumas pessoas vão chegando aos poucos. Perto das sete horas já são muitas. Vêm a pé, de ônibus, motos e carros, já não se vê lotações escolares.

Nos corredores, antes silenciosos, escuto passos e conversas, mas não correria, rodinhas de mochilas ou a gritaria ecoada pelo dia, são sons mais baixos e passos com movimentos mais contidos. Mas quem são essas pessoas que em breve serão os meus alunos e as minhas alunas, que juntos coabitaremos esse lugar?

Busco na internet imagens, coloco palavras-chave como “escola”, “colégios”, “escola e estudantes”, “estudantes educação básica”, “estudantes ensino fundamental”, “estudantes ensino médio”, “escolares” … e encontro apenas crianças e adolescentes.

Toca o sinal, vou para a sala de aula e encontro rostos não familiares às imagens que pesquisei. Mas por quê? São estudantes, mas suas idades diferentes, corpos adultos, com vinte, trinta, quarenta, cinquenta, sessenta, setenta anos de trajetória de vida.

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Penso: seria essa escola única? Ou esses rostos não são (re)conhecidos no imaginário social como estudantes de educação básica? Seriam, de certa forma, sujeitos invisibilizados socialmente? Mas, se eu os vejo, como tornar visível o que é visível para além deles mesmos e das demais pessoas que trabalham diretamente neste recorte espacial e temporal da escola noturna?

Então reflito: de que maneiras a escola (re)acolhe àquelas e àqueles que um dia, há pouco ou há muito, muito tempo, por motivos diversos, tiveram que se afastar dela. E eu, como posso contribuir nesse processo?

Durante os últimos anos, venho trabalhando na Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CAp/UFRGS). Cabe salientar que esse colégio é público e atende estudantes de Porto Alegre e Região Metropolitana, cujo ingresso ocorre no início de cada período letivo, semestral para essa modalidade de ensino, sendo a seleção realizada somente pelo meio democrático de sorteio público, em sessão aberta com a presença dos inscritos. As vagas universais são divulgadas por meio de edital publicado no site da instituição e amplamente divulgado.

Fui guiada por inquietações: como conhecer as alunas e alunos, suas motivações e compreensões do estar sendo (novamente) estudante? Como planejar atividades pedagógicas nas quais essas pessoas sejam visibilizadas, conhecidas e reconhecidas? Atividades essas que também abordem as percepções desses jovens, adultos e idosos sobre o retorno à escola e ao cotidiano escolar. Como propor um pensar e um repensar sobre o ser estudante dessa modalidade de ensino, por meio de uma linguagem atrativa?

Uma das tentativas foi de provocar reflexões e narrativas que convocassem imagens como catalisadoras de possíveis problematizações sobre os sujeitos estudantis, seus lugares na educação, seus espaços no âmbito escolar, além dos seus olhares de si, do coletivo e da própria escola. Assim, utilizar como dispositivo fotografias produzidas pelos estudantes da EJA enquanto sujeitos de ação e criação. Por fim, promover interação social, partilhar experiências e socializar essas produções imagéticas, buscando ampliar a visibilidade no espaço intra e extraescolar.

Para tanto, o currículo é entendido conforme orienta Fernando Hernandez (2013, p.90-91) como capaz de “explorar, debater e gerar relatos visuais e performativos que contestem os hegemônicos” e, assim, capaz de produzir um novo regime de visualidade que possibilite um olhar ampliado sobre a escola e seus sujeitos, principalmente esses sendo estudantes da EJA, que podem estar atualmente invisíveis socialmente.

Como pressuposto, também me embasei em Paulo Freire (1981, p.108) em sua proposta de “Através da sua permanente ação transformadora da realidade objetiva, os homens, simultaneamente, criam a história e se fazem seres histórico-sociais”; no sentido que esses grupos sociais podem reconhecer-se como construtores ativos de sua trajetória na instituição escolar.

Visualidades em foco

Perceber que a escola continua sendo um lugar para transmitir informação em massa, que pode gerar submissão, mas também resistência e possibilidade de ser, pode ser o primeiro passo para ensaiar outras posições e começar a escrever novas narrativas.
(HERNANDEZ, 2013, p. 91-92).

O Projeto “Visualidades da EJA” foi realizado junto aos estudantes das turmas de Sociologia do Ensino Fundamental e do Ensino Médio da Educação de Jovens e Adultos. Inicialmente, foram realizados encontros de formação e de prática fotográfica, ambos sob a mediação do fotógrafo, artista e professor Carlos Augusto Maahs.

No primeiro dia, foi ministrada uma aula sobre os princípios básicos da fotografia, envolvendo os ensinamentos sobre o tripé: luz (diafragma) velocidade/tempo (obturador), qualidade (ISO), bem como composição. Os participantes aprenderam a melhor manusear suas câmeras fotográficas e aparelhos celulares.

Já o segundo encontro, foi dedicado à atividade de registros pelo colégio. Como suporte técnico, disponibilizamos cinco câmeras semiprofissionais, além do uso dos próprios celulares. A ideia era que buscassem expressar por meio do texto visual, as possíveis respostas para a seguinte questão: O que a escola é para você?

Como guia, propomos que caminhassem lentamente e observassem atentamente o espaço escolar (a paisagem, os lugares, os objetos, as pessoas, as atividades realizadas, o cotidiano), seguido do registro do que mais chamava a atenção e os prendia por mais tempo, na tentativa de capturar os sentimentos despertados.

Nessa ação pedagógica, pudemos destacar um forte engajamento e participação, totalizando 697 fotografias. Cada estudante enviou pelo menos uma foto, que compôs a mini exposição montada em painel na escola, como fechamento do ano letivo da EJA.

Na sequência, em um espaço organizado no saguão com Datashow e tela, todas as produções ficaram expostas durante a festa com as turmas, docentes e direção. Por fim, foi lançado o convite à participação no Concurso Fotográfico Olhares do CAp em comemoração ao 65º aniversário do CAp/UFRGS.

Percebemos, por meio da lista dos finalistas, que estudantes envolvidos na atividade tiveram suas imagens selecionadas. As fotos ficaram ilustrando o banner do site do colégio e seus autores receberam certificados em solenidade no aniversário do colégio.

Nessas situações, as produções dos alunos foram compartilhadas com a comunidade escolar e era perceptível o sentimento de orgulho sobre suas obras. Relatos sobre essa experiência pedagógica também foram publicados posteriormente.

Os olhares dos estudantes da EJA

Ao analisar o conjunto de imagens, percebemos que a maioria retratava a natureza no CAp, que marca a paisagem intramuros e do ambiente que circunda o colégio: aves (quero-quero, caturritas, pombas e garças), répteis (lagartos), insetos (borboletas) e plantas variadas, como vasos de flores, árvores (frutíferas, floridas ou não) plantadas no pátio ou as que encobrem os morros e/ou a região mais alagadiça próximos.

O colégio fica localizado no Campus do Vale da UFRGS, distante da região central de Porto Alegre, quase na divisa com o município de Viamão, ao lado de um conjunto de morros de preservação ambiental (Morro Santana) e de uma área plana de pântano, cercado, portanto, de vegetação nativa e habitat de diversos animais.

Colagem de quatro fotos da escola, tiradas por estudantes. Na primeira, muro com desenho de mão e de mulher. Na segunda, aluno com livro aberto no chão da biblioteca. Na terceira, prédios da escola. Na quarta, espaço externo de quadra escolar, com natureza com redor. Fim da descrição.
Fotos: Odete Bernardo; Luis Henrique Monteiro; e Giácomo Bittencourt. Fonte: arquivo pessoal.

Acompanhando os participantes durante os seus registros, houve expressões de como era belo o lugar e que, ao sair do ônibus e entrar no colégio, pareciam entrar em uma outra dimensão, mais calma, longe do agito e do barulho da cidade. Como explica as suas escolhas de imagens o aluno José Roberto Ferreira da Silva: “O que me chamou a atenção é que o Colégio de Aplicação está no meio da natureza. É muito difícil uma escola ser assim. Tem muito tipo de bicho”.

Uma segunda categoria que gerou muitos registros foi a estrutura física da escola, bem como os múltiplos espaços nos quais os estudantes se sentiam mais à vontade e acolhidos para estar, seja nos momentos de aula ou nos momentos de sociabilidade com colegas e professores.

Portanto, observamos que as construções e a estética física chamavam a atenção, mas, sobretudo, a questão simbólica que engendrava um sentido maior e mais profundo para àquele conjunto arquitetônico (prédio, salas, quadras de esporte, biblioteca, horta) e de objetos ou materiais escolares (mesas, cadeiras, bancos, livros etc.), que representavam o recomeço dos estudos e as novas interações sociais estabelecidas.

O estudante José Roberto Ferreira da Silva relatou: “Eu me baseei com o meu recomeço de trajetória na escola, que eu não imaginava estar estudando novamente. Eu aprendi muita coisa”.

Em espaço externo com grama, estudante pardo está deitado no chão, enquanto tira foto de saída de água com o celular. Fim da descrição.
Foto: Katiuci Pavei. Fonte: arquivo pessoal.

As pessoas que constituem a EJA do CAp

O terceiro grupo de fotos, nomeado de “As pessoas que constituem a EJA do CAp” revelava o próprio momento da oficina, com cenas da atividade nas quais os participantes estavam fazendo seus cliques, se organizando e/ou posando para colegas. O que foi considerado ser uma demonstração de espírito coletivo e de autovisibilidade, sendo protagonistas da ação e dos instantes criativos.

Foi levantada a questão da escola como um lugar onde conheceram pessoas e fizeram amizades, sendo fundamental a ajuda entre colegas para dar força e evitar que desistam era narrado por muitos estudantes.

Diversas fotografias envolviam imagens de cenas nas quais os estudantes estão demonstrando os seus saberes engendrados pela/na escola, como lendo, escrevendo ou pesquisando em computadores. Sendo essas últimas realizadas pelos estudantes adultos e idosos, que estavam a mais tempo distantes dos bancos escolares, o que nos induz a pensar em quanto o retorno aos estudos potencializa novos aprendizados.

Em espaço externo, estudante negra com mochila nas costas tira foto de prédio da escola com o celular. Fim da descrição.
Foto: Katiuci Pavei. Fonte: arquivo pessoal.

Nas conversas, foi destacado que o colégio representava o momento vivido de busca por mais conhecimento e, assim, novos projetos futuros poderiam ser traçados, tais como continuidade de estudos em cursos técnicos ou ensino superior, troca de emprego ou promoções dentro da carreira, entre outros.

Na quinta e última categoria de imagens, intitulada “Produções dos sujeitos escolares”, encontrei retratados os trabalhos escolares realizados por eles ou por outros estudantes, tais como grafites, quadros, painéis e instalações que estavam em exposição pelo colégio, ou ainda cena de teatro e instrumento musical, indicando a autoria vinculada ao melhoramento da autoestima e o autorreconhecimento.

Como comenta a estudante Odete de Oliveira Bernardo: “Os trabalhos dos estudantes parecem chamar a atenção. É muito legal a capacidade que cada um tem quando se esforça. E quando o professor valoriza isso. Em cada etapa, mesmo a mais simples”

Clique final

Consideramos que a dinâmica exposta teve a capacidade de cativar os estudantes por meio de reflexões individuais e coletivas. Optou-se por uma linguagem em especial: a imagética, por meio de registros fotográficos realizados pelos participantes.

Nesse sentido, visualizamos a possibilidade dos educandos (re)pensarem e (re)significarem a escola a partir da pluralidade de suas vivências, fazendo com que o ambiente escolar ganhe uma multiplicidade de sentidos.

Almejamos construir novos projetos voltados para a reflexividade dos estudantes acerca da sua posição no ambiente educacional, no sentido de colocá-los como sujeitos ativos e pensantes de sua própria condição discente.

Concluo este texto e essa fase do projeto acreditando que esse tipo de ação pedagógica pode ampliar a visibilidade e a visualidade da modalidade de ensino EJA, ofertada pelas instituições. Reconhecendo seus estudantes enquanto sujeitos de saberes, que resistem aos movimentos de exclusão social e escolar, que lutam pela efetivação do direito fundamental subjetivo à educação e aos demais direitos individuais, coletivos e sociais humanos.

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Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

HERNÁNDEZ, Fernando. Pesquisar com imagens, pesquisa sobre imagens: revelar aquilo que permanece invisível nas pedagogias da cultura visual. In: MARTINS, Raimundo; TOURINHO, Irene (Org.). Processos e práticas de pesquisa em cultura visual e educação. Santa Maria: Editora da UFSM, 2013. p. 77-95.

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