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Ouvintismo estrutural e exclusão social da pessoa surda

Ouvintismo. Talvez a palavra seja nova para você; pode até parecer estranha: ouvintismo… O que é isso? Embora a palavra não seja tão popular, o fenômeno a que ela se refere, infelizmente, já vem de longa data e precisa ser cada vez mais debatido. É urgente, pois ele está mais perto de nós do que imaginamos. Muitos de nós, senão todos, partilhamos de ideias ouvintistas sem nos darmos conta.

Por que falar de ouvintismo? O que temos a ver com isso?

O ouvintismo pode ser compreendido como uma corrente de pensamento de acordo com a qual se estrutura socioculturalmente o mundo a partir da matriz ouvinte, gerando, portanto, exclusão, negação e invisibilidade das pessoas surdas e suas produções.

 

Orientador pedagógico, Tiago Ribeiro sorri para a câmera. Ele é um homem adulto, com cabelo curto enrolado, barba e óculos de grau. Fim da descrição.
Fonte: arquivo pessoal.

Conheci o termo, pela primeira vez, lendo textos do autor e pesquisador Carlos Skliar. De acordo com Skliar, o ouvintismo se refere aos sistemas de representação e compreensão que os ouvintes fazem e impõem sobre a surdez e os surdos, uma vez que o mundo é narrado, explicado e normatizado a partir da experiência de ser ouvinte. Em outras palavras: o ser ouvinte traduziu-se como sinônimo de normalidade em nosso mundo. Isso implicou e implica complexos processos de silenciamento, negação cultural e violência simbólica contra a população surda, muitas vezes sendo-lhes negado o direito de se perceberem e se afirmarem positivamente como pessoas surdas que são, chegando ao absurdo da privação linguística.

O ouvintismo não está apenas na violência física ou verbalmente expressa. Ele está nas diferentes esferas (públicas e privadas) da vida social e nas relações tecidas cotidianamente, podendo se manifestar em atos bem-intencionados ou gestos e ações flagrantemente preconceituosas contra os surdos e suas produções culturais.

Historicamente, os surdos têm sido narrados pelos ouvintes como sujeitos da falta, inferiores, incapazes, como denunciam pesquisadoras surdas como Gladis Perlin, Karin Strobel e Shirley Vilhalva. Pela impossibilidade de ouvir e, assim, efetivamente não partilhar de todas as produções culturais de um povo pautado na oralidade/sonoridade, as pessoas surdas foram e têm sido negadas em sua existência, em sua forma de ser e estar no mundo desde sua singularidade linguística e cultural, marcada pela visualidade.

Em biblioteca, duas jovens conversam em língua de sinais.
Fonte: Pexels.

Você sabia que, por muitos anos, os surdos tiveram que enfrentar a proibição da língua de sinais em seus processos educativos? Além da proibição da língua visual nos espaços escolares, a ideia de que o surdo era um “não-ouvinte” significou a imposição de métodos de ensino que consistiam, basicamente, na tentativa de fazer do surdo um ouvinte em potencial, focando na abordagem clínica para a leitura labial e a utilização da fala, através do processo da oralização.

Por muito tempo o ouvintismo fez com que a educação de surdos se resumisse, basicamente, ao domínio da fala e de uma profissão manual. Que visão de educação e sujeito teríamos aí?

A surdez tem sido justificativa para ações e políticas segregacionistas, capacitistas, preconceituosas e, muitas vezes, indiferentes, violentas, excludentes e colonizadoras. E isso, claro, não fica apenas no campo das ideias. O impacto do ouvintismo está na vida das pessoas surdas, nas suas vivências e experiências.

Tanto quanto na educação, por ser estrutural, o ouvintismo atravessa diferentes âmbitos da vida pessoal e social. Você já parou para pensar, por exemplo, no que pode significar, para uma pessoa surda, ir ao hospital? À delegacia? Tirar documentos? Ir comprar um presente, uma roupa? Como um surdo pode, por exemplo, ficar autonomamente e despreocupado na rodoviária ou aeroporto, quando as chamadas são, muitas vezes, sonoras apenas?

O mundo foi pensado, hegemonicamente, pelos ouvintes e para os ouvintes. Não é à toa que o lema “Nada sobre nós sem nós”, atualmente utilizado como lema das pessoas com deficiência, surgiu no movimento surdo. Pessoas surdas têm voz, saberes, cultura aqui e agora, no presente. E por que esse posicionamento é ainda importante, em pleno 2021?

 

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Para pensar sobre essa indagação, proponho outras: você conhece a expressão “conversa de surdos”? Geralmente, ela é usada como referência a conversações onde é impossível se entender. Não será essa uma frase ouvintista? Não será nossa linguagem também um dispositivo que reforça estereótipos pautados em modelos a-normalizadores, toda vez que evoca as diferenças como marca de desigualdade? Há sentido nesse uso da expressão “conversa de surdos”, uma vez que tais sujeitos partilham uma mesma língua e podem conversar e se entenderem muito bem?

Imagine, por exemplo, um surdo que vive sozinho e precisa de informação sobre vacinação contra a Covid-19. Ele não sabe língua portuguesa, apenas Língua Brasileira de Sinais (Libras). Liga a TV. Não tem garantido o acesso à informação. Internet não é uma opção, tampouco o jornal impresso… Onde buscar informação em Libras? Os sites das instituições públicas e privadas estão prontos para o acesso de pessoas surdas sinalizantes? Os conteúdos atendem a quase 10 milhões de pessoas da comunidade surda brasileira? E as emergências e pronto atendimentos médicos?

São muitos os exemplos também no ambiente escolar:

i) os professores que “simplificam” textos, ideias e outros materiais para alunos surdos, comprometidos com seu trabalho… e encharcados de princípios pedagógicos ainda sustentados em ideias ouvintistas. Será que é caso de simplificação ou de mediação? Por que é preciso simplificar para os alunos surdos? Eles não são capazes de entender ou aprender?;

ii) O adulto surdo que diz não precisar estudar, porque surdo “não consegue nada mesmo”, projetando a imagem de menos valia que, muitas vezes, lançam sobre ele;

iii) Os espaços e eventos que se propõem a discutir sobre educação inclusiva, mas sequer garantem a acessibilidade linguística…

 

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Talvez, inspirados em Grada Kilomba, escritora, psicóloga, teórica e artista, não se trata de sermos ou não ouvintistas, mas de tentar perceber onde guardamos e como manifestamos nosso ouvintismo de cada dia, para que todo dia possamos nos desconstruir e ensurdecer nosso olhar.


Tiago Ribeiro é orientador pedagógico dos anos iniciais do ensino fundamental no Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Autor do livro “Leitura e escrita na Educação de Surdos”.

Este artigo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Instituto Rodrigo Mendes.

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