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Gestão democrática garante ambiente escolar inclusivo em escola de Manaus

Com metodologias ativas, participação das famílias e respeito às singularidades, diretora possibilita uma educação de qualidade para todas e todos

A Escola Municipal Professor Waldir Garcia, em Manaus (AM), foi inaugurada em 1986 e, em 2019, atendeu 223 alunos do fundamental I em tempo integral, das 7 às 16h. Somos flexíveis no horário para ajudar os familiares que precisam trabalhar.

Como diretora da unidade, vejo uma procura e matrícula elevadas de estudantes estrangeiros (haitianos e venezuelanos), crianças com deficiência, com distorção idade-série e em situação de risco social e de muita pobreza.

 

Fachada da Escola Municipal Prof Waldir Garcia, que possui muro e portões azuis. Fim da descrição.
Fonte: Fundação Victor Civita.

Foto: Fundação Victor Civita. A unidade está localizada às margens de um igarapé na periferia de Manaus e sofre com as enchentes, no período das cheias, e com incêndios, na época da seca. Grande parte da população mora em construções precárias, como palafitas, e a região também é considerada uma área de risco pelos órgãos de segurança, sendo constantemente penalizada com as consequências do tráfico de drogas.

Atendemos, portanto, uma comunidade de alta vulnerabilidade social que sofre com fome, desemprego, falta de moradia, lazer e cultura. E tem negados recursos básicos de saúde, saneamento básico e segurança.

Contudo, há um empoderamento e um senso de pertencimento da comunidade para com a escola: todas as pessoas envolvidas nela são parceiras e caminham juntas para eliminar as dificuldades.

Acolher para todos envolver e aprender

A partir desse cenário escolar com enormes barreiras educacionais e sociais, criei o projeto “Acolher para todos envolver e aprender”. Ele surgiu da necessidade de repensar nossa prática pedagógica tradicional, que acentua as desigualdades, e construir uma gestão democrática em consonância com os princípios da educação integral.

Colocamos o aluno como centro da escola, respeitando o seu desenvolvimento em todas as suas dimensões: intelectual, física, emocional, social e cultural. Não dá para falar em educação sem vivenciarmos a prática da inclusão de fato e de direito de todos os atores educacionais envolvidos no processo de ensino-aprendizagem e em condições iguais.

Tínhamos que oportunizar múltiplas estratégias e ações para combater a exclusão, provocada pelas diferenças de classe social, educação, idade, deficiência, gênero e raça. Trabalhar com as diferenças é importante para transformação da educação e da sociedade.

Desta forma, pensamos em desburocratizar as relações estabelecendo vínculos afetivos, além de engajar, dialogar e estabelecer mudanças atitudinais para quebrar paradigmas. Tínhamos que aprender a acolher, envolver, conhecer, fazer, conviver e ouvir. E ainda liderar estes processos de forma colaborativa, assumindo papéis diferentes e complementares, conforme descrevem as competências gerais 09 (Empatia e Cooperação) e 10 (Responsabilidade e Cidadania) da BNCC.

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Eliminar desigualdades

Garantir que todos aprendam na Waldir Garcia não era suficiente, principalmente levando em consideração as desigualdades sociais da nossa escola. Precisávamos de um projeto que atendesse e pensasse nesta demanda social, que buscasse a equidade como fator para a promoção de justiça social.

É importante ACOLHER para garantir que todos tenham acesso à matrícula, sem distinção e sem seleção. Independentemente das suas limitações financeiras, de idioma ou de aprendizagem. Não só entrar na escola, mas permanecer nela, sendo bem recebidos com atenção, respeito, afeto, educação e uma boa comunicação.

ENVOLVER os estudantes também é necessário. Para que se sintam à vontade, empoderados, valorizados, pertencentes neste espaço e engajados no processo escolar. Assim, conseguem perceber um significado em estudar e APRENDER, sendo respeitado e tendo garantido o seu direito à educação com equidade.

A gestão democrática como objetivo

Os conteúdos trabalhados no projeto foram alinhados ao Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, construído coletivamente com a participação da família, da comunidade e de todos os funcionários. Ele foi revisado e atualizado para atender uma demanda de escola inclusiva, democrática, participativa e que vivencia os princípios de educação integral.

Nos baseamos, ainda, em quatro pilares: sentir, imaginar, fazer e compartilhar. Assim, conseguimos criar práticas inclusivas para facilitar tanto a aprendizagem dos estudantes, quanto a convivência entre toda comunidade escolar.

 

Sentada à mesa na diretoria, gestora Lucia Cristina escreve em papéis. Fim da descrição.
Fonte: arquivo pessoal.

Também elaboramos estratégias pedagógicas voltadas a promover o desenvolvimento dos estudantes de maneira individualizada para garantir que todos tenham uma formação de qualidade, que lhes permita ser sujeitos críticos, autônomos e responsáveis com o mundo.

Buscamos respeitar o tempo e o ritmo de aprendizagem de cada um no processo educacional, garantindo que eles convivessem em harmonia e igualdade, respeitando suas diferenças.

Metodologias ativas para o fim das barreiras

Optamos pelas metodologias ativas, que não ensinam somente o conteúdo, mas desenvolvem competências essenciais para avanços de realizações na vida pessoal, onde o estudante é o protagonista da sua aprendizagem.

Portanto, a aprendizagem não pode ser apenas teórica, o conhecimento tem que ser aplicado para solucionar os desafios da prática cotidiana. E o estudante precisa ser agente de transformação na sua vida pessoal e no mundo. Essa metodologia demanda que valorizemos a participação ativa e crítica dos estudantes em situações de diferentes aprendizagens.

Uma das ações desenvolvidas por meio do projeto se deu com os roteiros de estudos, para dar autonomia aos estudantes, incentivar a pesquisa e promover seu desenvolvimento pleno. Estes roteiros proporcionam que o educador seja um mediador e faça um acompanhamento personalizado da aprendizagem, respeitando as diferenças, o ritmo e o tempo de aprender de cada um.

 

Em espaço externo com gramado, estudantes conversam sentados em círculo no chão. Fim da descrição.
Foto: Lucia Cristina Cortez de Barros Santos. Fonte: arquivo pessoal.

Construímos ainda uma cultura colaborativa na escola, por isso trocamos o mobiliário. Extinguimos as carteiras e as filas, trocamos por mesas redondas para facilitar o trabalho colaborativo, para que as equipes possam se olhar, interagir, compartilhar memórias, crenças, concepções, objetivos e práticas ou atitudes comuns.

Tivemos crianças com e sem deficiência trabalhando no coletivo e um ajudava o outro. Extinguimos as avaliações, logo desestimulamos as competições e reduzimos as desigualdades advindas da meritocracia.

Eliminando barreiras de comunicação: espanhol e criolo para todos

Como o idioma é uma barreira para a aprendizagem de estrangeiros, criamos ações para nos comunicarmos, aproximarmos, envolvermos e aprendermos com as diferenças. Contando com a Secretaria de Educação de Manaus e com o consulado da Colômbia, surgiu o curso piloto de espanhol para os estudantes. Usamos caixa de som, microfone e Datashow.

Perto da escola, fica a igreja de São Geraldo e a casa de apoio aos imigrantes. Trabalhamos juntos e nos apoiamos. Eles nos indicaram um professor haitiano voluntário para ensinar o seu idioma aos funcionários da escola, e assim também iniciamos aulas de criolo.

Chegamos a montar um coral dos funcionários em criolo e tivemos oportunidade de nos apresentar na festa intercultural dos imigrantes!

Também buscamos transformar a escola num ambiente educador, em que as crianças sejam motivadas a ler e a escrever de forma concomitante e prazerosa, despertando o hábito da leitura e da escrita.

Para isso, garantimos o livre acesso a bons livros e títulos diversificados em diferentes espaços. Temos vários cantos de leitura, espalhados pela escola, além da biblioteca. Todos os espaços e tempos da escola são transformados em territórios de aprendizagem.

Intersetorialidade

Trabalhamos também com a intersetorialidade para criar um ambiente escolar inclusivo, assim nos articulamos com a Unidade Básica de Saúde (UBS), que disponibiliza sua equipe para acompanhar a saúde das crianças; o Coletivo Escola Família do Amazonas (CEFA); e a Organização da Sociedade Civil, que nos apoia nas tutorias, formações e demais atividades da comunidade escolar.

A Universidade Estadual e a Federal do Amazonas oferecem oficinas, palestras e estagiários. Também utilizamos o programa digital Profuturo, da Vivo, e recebemos um kit tecnológico composto por notebook, tablets, roteador, projetor e tela de projeção.

No laboratório de informática, usamos a plataforma Khan Academy. Nela, há videoaulas, exercícios que envolvem diversos conteúdos de matemática. A plataforma é gratuita e gera relatórios que demonstram a evolução do desempenho de cada estudante.

Estes equipamentos promovem a personalização da aprendizagem e ampliam as oportunidades de inovação junto aos educadores e estudantes. A partir deles, disponibilizamos o acesso a um ambiente de aprendizagem e conteúdos pedagógicos digitais.

Todos aprendem rápido e com prazer, pois o lúdico e a interação ajudam a estabelecer uma sala de aula mais ativa e interessante, com estudantes participativos e atentos.

Espaço de esperança e acolhida

Nossa intenção era de que toda comunidade escolar interna e a do entorno se envolvesse no processo educacional para promovermos de forma compartilhada a inclusão de fato e de direito entre todos os atores envolvidos neste fazer pedagógico.

A educação tem que ultrapassar os muros da escola. E é por isso que entendemos que a participação da escola na comunidade, e da comunidade na escola, é relevante no processo educacional. Por isso, desburocratizamos as ações de convivência e temos boas relações pessoais e sociais entre os envolvidos no processo.

Em todas as etapas tivemos um grande envolvimento dos responsáveis. Eles se sentem pertencentes à escola e participam de forma prazerosa das ações propostas, sejam administrativas, pedagógicas ou sociais.

Trabalho colaborativo

Temos algumas oficinas e almoços pedagógicos com os funcionários, e os familiares assumem os serviços da escola, nas salas de aula, na cozinha, no portão, na secretaria… Assim, não suspendemos as aulas e envolvemos as famílias no fazer pedagógico.

Realizamos assembleias, que acontecem com funcionários, estudantes, familiares e comunitários semanalmente, para discutimos os problemas e tomarmos decisões no coletivo. Reunimos toda a escola para debater, ouvir as sugestões, solucionar problemas e votar. O que é aprovado na assembleia é colocado em prática.

Também criamos as tutorias, em que o foco é estabelecer uma relação de confiança e de reciprocidade. Cada criança escolhe o seu tutor, que o acompanha até sair da escola. Eles propiciam espaços de escuta, criam laços afetivos e acompanham individualmente todas as crianças no seu dia a dia escolar e nos seus ambientes familiares.

Todos as mães, os pais, responsáveis e/ou funcionários podem ser tutores, independentemente de função ou formação. Valorizamos as experiências de vida, os saberes dos territórios de cada um. Reconhecemos que todos são educadores e corresponsáveis pela aprendizagem dos estudantes.

Evidências de aprendizagem

Neste projeto, trabalhamos e acompanhamos individualmente o desempenho acadêmico dos alunos, as disciplinas críticas e a distorção idade-série para estabelecer metas e compartilhar, com os sujeitos envolvidos no processo, ideias e ações para eliminação das dificuldades encontradas. Não fazemos avaliações para dar uma nota e não reprovamos. Eles não estudam para uma prova, mas para a vida.

Nossa nota no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) é 7.4 por quatro anos consecutivos. Estes resultados impactaram para revisarmos nosso Projeto Político Pedagógico (PPP). Nossa escola vem se preparando não só para realização das avaliações externas, mas para que todos aprendam.

 

Em quadra esportiva, dezenas de estudantes estão sentados no chão. Um menino e uma menina estão à frente deles, em pé, e a menina fala ao microfone. Fim da descrição.
Foto: Lucia Cristina Cortez de Barros Santos. Fonte: arquivo pessoal.

Obtemos bons resultados na aprendizagem. Todos os nossos alunos avançam, aprendem a ler, a escrever e a contar. Acreditamos que uma base sólida de aprendizagem em cada ano escolar é essencial para o bom prosseguimento nos estudos. Por isso, a preocupação com o desempenho dos alunos vale para todos. Os resultados de Ideb são uma consequência do nosso trabalho e indicam que estamos garantindo uma aprendizagem significativa.

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Educação de qualidade para todos

Ao longo do projeto, fui me reinventando e me reconstruindo como profissional da educação. Abandonei o tradicional e parti para uma gestão democrática.

Sempre fui consciente do meu papel como líder e das minhas responsabilidades. Para concretizar o projeto, voltei a estudar e a pesquisar sobre práticas educativas inovadoras. Comprei vários livros. Viajei a São Paulo para conhecer escolas públicas inovadoras. Aprendi que precisava equilibrar as ações administrativas e pedagógicas, motivar a todos os sujeitos do processo, incentivar a pesquisa e a formação continuada em serviço e inovar na escola.

 

Lucia Cristina, de blusa rosa e óculos com armação preta, fala sobre escola. Ao fundo, parede ilustrada com bandeira do Brasil e fachada de escola ao centro. Fim da descrição.
Fonte: Fundação Victor Civita.

A escola tem que ser um espaço de escuta e de diálogo. Não dá para o gestor ter uma postura inflexível, ditatorial, autoritária e centralizadora. Dessa forma, acabei com a hierarquia e criei relações mais humanas e horizontais, onde as pessoas se sentem acolhidas e podem dar as mãos, formando uma rede colaborativa e de apoio, num movimento cíclico.

Tive que resolver os conflitos e o absenteísmo com uma conversa franca, sincera e com empatia. Precisamos ter certeza que estamos no mesmo lado. Somos parceiros e podemos ter pensamentos divergentes dentro de uma convivência de respeito e harmonia.

Não é fácil realizar mudanças na escola e na vida. No decorrer destas aprendizagens, houve muita resistência por parte de funcionários, familiares, alunos e comunitários, mas é questão de tempo para todos perceberem como as inovações fazem bem para o ambiente escolar e para as pessoas.

A educação tem que ser libertadora e formadora de cidadãos críticos e reflexivos. Uma escola que respeita a heterogeneidade e a individualidade da comunidade escolar assegura uma educação de qualidade para todos.


Lucia Cristina Cortez foi uma das 10 vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 de 2020 com o projeto “Acolher para todos envolver e aprender”.

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