Educadora envolve estudantes e comunidade com projeto de leitura

Projeto de escola estadual de Franca (SP), “Pé de Livros entre amigos” potencializou leitura entre estudantes da rede escolar com apoio das famílias

Na minha escola tem uma praça e, dela, brotam livros. Livros pendurados em árvores feito frutos e frutas. É só chegar, escolher um, colher e sentar com os amigos leitores para, juntos, construirmos saberes.

Sou professora de língua portuguesa na E.E. Adalgisa de São José Gualtiéri, localizada em Franca (SP), e leciono para os anos inicias do ensino fundamental. A unidade recebe crianças da comunidade do entorno, mas também de outros dez bairros periféricos e da área rural. Ao todo, são 566 estudantes.

Todos os anos realizo projetos de leitura, pois acredito que a partir dela tudo acontece: meus alunos tornam-se leitores e escritores em potencial. Tento ser criativa e, diante do perfil da turma, reinvento-me, ressignifico o meu trabalho e então elaboro o planejamento.

Mas em 2019, eu pretendia realizar um projeto de leitura que não só envolvesse minha sala de aula. Eu queria ir além: contagiar tanto os estudantes da Adalgisa, como de outras escolas da região, bem como a comunidade escolar.

Eu desejava que os estudantes fossem semeadores de leitura, levando o gosto por um bom livro para os amigos da escola e de outras instituições da região. Minha intenção era engajar também as famílias para que atuassem ativamente no projeto.

Pé de livros entre amigos

A partir da minha ideia inicial, procurei encontrar potencialidades para o projeto dentro da escola. Foi aí que enxerguei uma grande aliada: a pracinha escolar. Ela é linda, poética, arborizada e com cantos de pássaros – de vez em quando aparecem até tucanos: perfeito para um pé de livros! Um lugar propício para receber amigos.

Assim, surgiu o Pé de Livros entre amigos. A ideia era promover um trabalho efetivo com a literatura, a partir de uma leitura que fosse vivenciada, experimentada, e dialogada com todos os personagens da comunidade, além da realização de debates e discussões.

Era na árvore da praça que os livros seriam pendurados. E, dessa forma, saltaríamos as paredes da sala de aula e atingiríamos todos os estudantes da escola e da comunidade.

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Gosto pela leitura

A praça da nossa escola se tornaria algo mágico, pois era ali também que receberíamos crianças de outras escolas para discutirmos e recomendarmos leituras.

Com esse sonho em mente, elaborei o projeto, que nasceu justamente da necessidade de levar literatura de qualidade para meus alunos, desenvolver a escrita através de resenha literária, do mural de indicação, e do bate-papo literário com os familiares.

O objetivo geral era despertar o gosto pela leitura e contagiar toda a comunidade escolar, para além dos muros da escola. O contágio seria feito pelos meus estudantes e seus familiares e responsáveis, que se transformariam em semeadores de leitura.

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Articulação com a BNCC

Para articular o projeto ao currículo da minha turma de 5º ano, busquei apoio na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), principalmente nas competências que dizem respeito a questões socioemocionais: comunicação, argumentação, interatividade, convívio, trocas de saberes, empatia e cooperação e conhecimento.

E a BNCC me ofereceu caminhos para o desenvolvimento dos objetivos do projeto a partir da leitura literária. Assim, me aliei também à oralidade e produção de textos.

Metodologia do “Pé de livros entre amigos”

Com os objetivos bem claros e definidos, elaborei toda a metodologia do trabalho. Os resultados foram os seguintes:

Etapa 1 – Explicação das etapas aos familiares e alunos
Levei para a sala de aula várias obras literárias e, junto com os familiares e responsáveis (que aceitaram o desafio de ler um livro por semana com a turma), apresentei as obras, identificando a minha preferida e tecendo comentários sobre ela. Também expliquei a todos o projeto e os objetivos, inclusive as etapas que passaríamos. Dos rodízios literários semanais, das resenhas, da gravação de um vlog literário ao convite para demais amigos da escola e de outras escolas.

Em sala de aula, mulher está de frente para estudantes. Ela sorri e segura livro em uma das mãos. Fim da descrição.

Etapa 2 – Terças literárias

Nas terças literárias, recebíamos os familiares para, junto dos estudantes e convidados, discutirem as obras lidas. Neste dia, eles debatiam sobre o livro escolhido, opinavam, argumentavam. Além disso, também realizavam recomendações das obras, que era registradas em papéis autoadesivos e fixados no mural da sala de aula.

Diante dos debates, das resenhas escritas e das indicações dos responsáveis e colegas, os alunos passaram a escolher o livro que desejavam ler na semana seguinte.

Em sala de aula, cinco mulheres apresentam livros à turma. Fim da descrição.

Etapa 3 – Engajamento estudantil
O prazer e interesse pela leitura crescia a cada semana, bem como o número de responsáveis interessados em participar. O momento da escolha do livro era bem atrativo e competitivo. Os alunos sabiam o que queriam ler e porque desejavam conhecer tal obra.

Resenhas eram produzidas e enriquecidas a cada livro lido. As indicações literárias (oralidade e também escrita) ganhavam conteúdo, com novos vocabulários e leitores atentos aos detalhes.

Em sala de aula, estudantes uniformizados sorriem para foto. Cada um segura dois livros nas mãos, mostrando suas capas; a maioria dos livros é sobre cultura africana. Fim da descrição.

Etapa 4 – Recreio: hora de compartilhar leitura
Com os alunos interessados e motivados, era o momento de levar o gosto da leitura para toda a escola. Isso aconteceu no recreio, com distribuição de livros. Os estudantes sentavam ao lado dos colegas do processo de alfabetização (segundos e terceiros anos) e passavam o momento de lazer apresentando obras literárias.

Os professores das crianças dos referidos anos relataram o desenvolvimento positivo de alunos que estavam com dificuldades em se alfabetizar e que, a partir da interação com meu 5º ano, passaram a se interessar mais pela leitura.

Em área externa, crianças estão sentadas no chão lendo livros. Fim da descrição.

Etapa 5 – Semeando livros na pracinha escolar
Diante dos relatos desses educadores, resolvemos fazer um “atendimento” mais personalizado e pontual. Assim, colocamos obras literárias de interesse dos pequenos e de acordo com o tema trabalhado por eles em sala de aula.

Agendávamos dia e horário para cada ano e, na data marcada, íamos para a pracinha ler para os pequenos. Esses momentos ficaram registrados nos vídeos produzidos.

Meus alunos, crianças de dez anos, sentavam-se ao lado de outras crianças e os motivavam a ler. Mostravam as imagens e deixavam que eles criassem hipóteses.

Assim, a interação ia acontecendo e dando bons frutos. Na árvore da pracinha, penduramos livros. Era nosso pé de livro! E ao final de cada encontro, várias sementes eram plantadas: as sementes do interesse pela leitura.

Dezenas de estudantes em pátio escolar. Duas meninas pegam livros da árvore enquanto menino observa. Fim da descrição.

Etapa 6 – Semeando leitura na comunidade escolar
Após atender a todos os alunos da escola, fomos para a comunidade. Marcamos encontros com escolas vizinhas, tanto públicas como privadas. Montamos nosso “Pé de livros entre amigos” e penduramos livros na árvore. Inúmeros alunos aceitaram o nosso convite e colheram algumas boas leituras.

Etapa 7 – A comunidade como semeadora

O amor e prazer pela leitura fez com que meus estudantes quisessem semear esse saber entre todos. Assim, fomos para a rua e distribuímos livros para quem passava em uma avenida próxima à escola.

Munidos de cartazes de incentivo à leitura e com ajuda dos familiares, distribuímos mais de 200 livros na comunidade. Os livros foram arrecadados em uma campanha de doação.

Estudantes uniformizados acompanham educadora em entrega de livros nas ruas. Coletor de lixo sorri para a foto, segurando um livro. A educadora está segurando um megafone e, ao lado dela, as crianças levam um carrinho com livros. Fim da descrição.

Eliminação de barreiras

Na minha sala de aula não havia alunos com deficiência, mas tivemos participação de crianças com deficiência física e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Antes do encontro entre as salas de aula e convidados de outras escolas, era realizada uma entrevista com os educadores para entendermos as singularidades de cada turma. Eu discutia com meus alunos e elaborávamos estratégias para que todos fossem contemplados com o momento literário que proporcionaríamos.

Pesquisamos sobre as características das pessoas com TEA e pensamos em como eliminar barreiras. Meus alunos foram dando ideias e tudo deu certo: as professoras ficaram encantadas com a participação de todos.

Destaco que meus alunos sempre encontravam o melhor caminho para garantir a participação de todos os convidados, como quando identificaram que a altura em que colocávamos os livros nas árvores não era acessível a todos. Assim, diminuímos a distância para o chão, de forma que os livros suspensos fossem alcançados por todos.

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Processo de avaliação

O processo de avaliação aconteceu de diversas formas: diante de cada resenha produzida, dos argumentos apresentados, pelo convencimento da indicação literária, das indicações escritas nos papeis autoadesivos e na discussão literária.

Meus registros evidenciam as conquistas também no campo da escrita, na produção de bons textos. Notados nos momentos de organização das visitas que receberíamos de outras escolas, na seleção dos livros que iam para o projeto, na interatividade dos alunos com os convidados e nas avaliações internas e externas.

A leitura realmente abriu portas! O Pé de Livro representou o plantar, o cuidar, o semear das sementes.

Ninguém ficou para trás

Foto impressa de estudantes uniformizados está pendurada em árvore com fita vermelha. Fim da descrição.

Há muitas evidências do desenvolvimento dos estudantes, principalmente no que se refere a melhoria dos argumentos, das resenhas produzidas e da riqueza de vocabulário utilizado.

Além de formar leitores assíduos e críticos, a turma passou a se sentir responsável por levar e despertar este gosto nas demais pessoas. Eles saíam em busca de novos leitores e faziam muitas crianças despertarem para a importância de ler, o que o apoiou o processo de alfabetização delas.

Tenho relatos maravilhosos de crianças que se transformaram por meio da leitura e de mudanças concretas notadas por toda equipe escolar e comunidade. A leitura transformou meus alunos!

Além das mudanças de atitude, comportamento e ações, a aprendizagem e conquistas didático-pedagógica eram nítidas, percebidas por todos. Os alunos se autoavaliavam e avaliavam o desempenho e conquistas de cada colega. Um zelava pelo aprendizado do outro. Ninguém ficou para trás!

Eu acreditava ter todas as etapas, mas as crianças muitas vezes me sinalizaram novos caminhos e estratégias. Várias vezes ressignifiquei, reinventei, replanejei, recriei.

Compromisso em formar protagonistas

Não acredito em ensino sem uma base literária efetiva e que vá além das fichas de leitura e resumos da obra. Sou uma professora “ensinante e aprendente”. Pensei e visualizei todas as etapas do projeto, me debrucei na seleção de obras literárias de qualidade, estudei minuciosamente a BNCC e principalmente como a literatura é capaz de dialogar com a vida humana.

Quero formar aluno protagonista, produtor de conhecimento, mas também de conteúdos, por isso produzimos Vlog Literário e vídeos das etapas. Nosso projeto pôde contribuir para que todos reconhecessem a importância e magia da educação literária.

Quando eu era criança, na minha casa havia um pé de jabuticaba e um pé de limão. Resolvi que faltava um pé de livro. Plantei, floresceu e chamei todas as crianças para a colheita.


Rita Mozetti Silva foi uma das 10 vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 de 2020 com o projeto “Pé de livro”. 

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