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Estudante de pedagogia com TEA pretende apoiar escolas mais inclusivas

Leonardo Soares Barbosa conta o que o motivou a se tornar educador e quais barreiras eliminar para uma educação inclusiva de fato

Por Juliana Delgado

Neste sábado, 02 de abril, é comemorado o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo. A data, criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007, foi escolhida com o objetivo de levar informação à população para reduzir a discriminação e o preconceito contra as pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Leonardo Soares Barbosa, pessoa com TEA e estudante do 5º semestre de pedagogia em Sertãozinho (SP), acredita que a eliminação de barreiras à participação plena desse público na sociedade deve se iniciar na educação:

“A educação é a base para uma sociedade crítica e instruída. O papel do professor é fundamental para que haja esse estímulo de tornar os alunos cidadãos críticos.”

Com base na Declaração Universal sobre os Direitos Humanos, da ONU, que aponta que a educação é um direito que deve ser garantido a todas e todos, não poderia ser diferente com os estudantes público-alvo da educação especial, que inclui pessoas com deficiência, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e altas habilidades/superdotação. Este direito também está assegurado na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, também da ONU, e na Lei Brasileira da Inclusão.

Segundo o Censo Escolar, independentemente de possuir ou não laudo médico, o acesso da aluna ou aluno à educação não pode ser impedido, seja na matrícula para a sala de aula comum ou no Atendimento Educacional Especializado (AEE), serviço oferecido no contraturno das aulas regulares.

A pesquisa, realizada em 2021, apontou que 15 estados brasileiros contam com 100% dos estudantes com deficiência matriculados em escolas comuns no ensino médio. No estado de São Paulo, a porcentagem nesse nível escolar é de 99%. E foi em uma das escolas paulistas que Leonardo foi incentivado a entrar para o curso de pedagogia no ensino superior e se tornar um educador que favorece a inclusão nas salas de aula.

Em sala de aula, três estudantes estão ao redor de mesa quadrada, usando canetinhas coloridas para desenhar em papel branco. Fim da descrição.
Fonte: Arquivo pessoal.

Eliminação de barreiras à participação

A predileção do estudante por matemática o permitiu desenvolver suas habilidades na disciplina desde pequeno. Contudo, foi no ensino médio que Leonardo passou a se interessar pela docência, por conta do professor José Reis, que ministra a disciplina: “Ele foi meu maior incentivador, ele me acolheu, me ensinou de uma maneira que me fez escolher essa profissão. Quero também poder ajudar as crianças com deficiências na aprendizagem.”

O educador José Reis afirma que as potencialidades de cada estudante devem ser levadas em consideração, para ampliar a aquisição de conhecimento de acordo com as necessidades individuais: “Eu tenho dois estudantes com síndrome de Down que tem potencialidades muito diferentes, por exemplo, por isso tem que ser um plano para cada um.”

Embora tenha tido essas boas experiências, Leonardo relata que os anos iniciais do ensino fundamental apresentaram grandes desafios para sua formação acadêmica, pois os profissionais da educação não tinham conhecimento suficiente sobre as diferentes condições que os estudantes poderiam apresentar: “Eu ainda não tinha laudo fechado, nem imaginava que era autista. Nessa escola eu sofria bullying dos alunos, pois tenho dificuldades de socialização, e as professoras diziam que eu era tímido e mimado pela minha mãe.”

Em sala de aula, estudantes universitários, três meninas e um menino, apresentam trabalho pedagógico. Fim da descrição.
Fonte: Arquivo pessoal.

Após conseguir uma vaga em outra instituição, uma das educadoras informou à família de Leonardo sobre seu comportamento atípico e, assim, uma equipe multidisciplinar, contando com psiquiatra, pediatra, psicóloga, terapeuta ocupacional e neurologista, deu o diagnóstico de TEA.

Atualmente, Leonardo faz estágio como professor auxiliar na rede municipal e apoia um aluno do 1º ano que possui TEA. Seus objetivos são acolher e educar cada aluno independentemente de suas singularidades: “Quero dar oportunidades assim como eu tive. Quero lecionar matemática e fazer com que os alunos sintam gosto pela matéria”.

Para ele, a educação inclusiva faz com que os estudantes aprendam a conviver com o diferente, despertando a solidariedade humana e os levando a refletir sobre a existência e as dificuldades de cada um em sociedade.

Em consonância, o professor José Reis afirma que a educação inclusiva beneficia a todos: “Ajuda o crescimento pessoal e social de ambas as partes”.

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Transtorno do Espectro Autista

Para Leonardo, a principal barreira a ser enfrentada tanto na escola quanto em outros espaços da sociedade é a conscientização, para que as pessoas tenham ciência do que é ser uma pessoa com TEA: “Muitas vezes as pessoas criticam, pois não conhecem o autismo, já que a pessoa com autismo não aparenta ter nenhuma deficiência. Quebrar essa barreira abrirá chance para a inclusão.”

Ele explica que o autismo é uma deficiência intelectual que possui diversos graus. Os autistas podem ter hiperfoco em coisas ou pessoas e podem desenvolver habilidades específicas em certas áreas de conhecimento, mas nem todos possuem altas habilidades: “Todos os autistas têm desenvolvimentos diferentes uns dos outros. Eu me desenvolvi na matemática, mas outro pode ser bom em português, e assim por diante. Sempre escuto que os autistas são mais inteligentes, mas isso é um mito.”

Além disso, pessoas com TEA podem possuir dificuldade na coordenação motora e na interação social, que é outra grande barreira enfrentada no dia a dia: “Gostaria que as pessoas soubessem que somos diferentes, sim, mas percebemos quando somos acolhidos ou não em certo lugar ou situação. Muitas vezes as pessoas consideram deficientes quem aparenta, como pessoas com deficiência física, síndrome de Down, deficiência visual, entre outras.”

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Dessa forma, o estudante destaca que a educação inclusiva, além de possibilitar conversas sobre o assunto e apoiar a divulgação de informações sobre a deficiência, é o caminho para um mundo com a plena participação de todas as pessoas.

“Todos somos iguais com diferenças específicas. Cabe a cada um de nós respeitar, ter empatia e ser acolhedor.”

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