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Instituição do Quênia cria aplicativo de formação em educação inclusiva

Recurso criado pela The Action Foundation promove o compartilhamento de conhecimentos em educação inclusiva; organização também apoia práticas inclusivas em comunidades periféricas

Por Aldrin Jonathan

Apoiando há mais de 10 anos a educação inclusiva no Quênia, a organização The Action Foundation (TAF) lançou em 2019 um aplicativo para celular com o objetivo de promover o compartilhamento de conhecimentos em práticas educacionais inclusivas no país.

O aplicativo Somesha, disponível para o sistema operacional Android, conecta professores, estudantes, famílias e outras partes interessadas em fomentar a educação inclusiva. O recurso ajuda educadores e familiares a se comunicar, trocar ideias e também a obter apoio em sala de aula para auxiliar a aprendizagem de estudantes com deficiência.

Em lousa de madeira improvisada, criança escreve com giz branco, realizando exercícios de álgebra com desenhos. Ao lado, educador o observa vestindo uma camisa branca com os dizeres "smile child initiative". Fim da descrição.
Foto: The Action Foundation

Contando com a troca de experiências e um espaço de fórum, o recurso se originou a partir de experiências vivenciadas pela Action Foundation. A instituição tem mantido nos últimos anos um programa destinado a promover a educação inclusiva em escolas de comunidades periféricas de Nairóbi, capital do Quênia. Parte do programa implementado implicou no desenvolvimento do aplicativo.

Maria Omare, fundadora e diretora executiva da TAF, explica que o aplicativo desenvolvido se mostrou importante para a aprendizagem digital de educadores, particularmente durante o fechamento de escolas, ocasionado pandemia da covid-19.

Por meio do nosso guia de aprendizagem doméstico, trabalhamos para fornecer recursos para garantir que as crianças com deficiência não fossem deixadas de fora do processo de aprendizagem.

Maria Omare, fundadora e diretora executiva da The Action Foundation

Além do aplicativo, a TAF também desenvolveu um livro de diálogo infantil sobre Inclusão (Children’s Dialogue Book on Inclusion) que serve como um guia para o avanço da educação inclusiva no país. A obra, em inglês, pode ser baixada no site da organização.

Educação inclusiva no Quênia

Ainda que o direito à educação seja garantido pela Constituição do Quênia e o governo tenha elaborado uma Política Nacional de Educação Especial, em vigor desde 2010, o país enfrenta dificuldades de implementação de diretrizes inclusivas em regiões periféricas.

Em 2018, o relatório Kenya National Survey on Children with Disabilities and Special Needs in Education (Pesquisa Nacional sobre Crianças com Deficiência e Necessidades Especiais na Educação do Quênia, em tradução livre) revelou que o sistema educacional no país ainda está mal equipado para garantir o acesso de estudantes com deficiência.

O documento aponta que crianças que estão matriculadas em programas de educação infantil, especialmente em ambientes de baixa renda, têm maior probabilidade de desistir ou não conseguir fazer a transição para a escola primária.

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De acordo com Omare, embora as práticas inclusivas estejam se estabelecendo nas instituições de ensino, ainda há um grande número de estudantes, particularmente aqueles com deficiência, que não frequentam a escola.

“Isso é acentuado pelos níveis de pobreza, restrições culturais, incluindo discriminação e preconceito, barreiras institucionais e falta de apoio do governo”, analisa.

Apoio à inclusão em comunidades periféricas

Para minimizar os efeitos dessa realidade, a Action Foundation atua, desde 2009, em conjunto com redes de apoio locais para construir comunidades inclusivas e resilientes, a fim de propiciar o desenvolvimento de crianças e jovens com deficiência.

A fundação defende o fortalecimento de medidas para assegurar a educação e o desenvolvimento inclusivo da primeira Infância a estudantes público-alvo da educação especial. Para isso, estabelece e fomenta parcerias com o governo municipal, redes de ensino municipais e escolas regulares.

Em seus esforços, também realiza treinamentos contínuos de preparação e capacitação de educadores sobre metodologias de ensino inclusivas. Incentiva ainda a elaboração de materiais pedagógicos e métodos de aprendizagem que considerem as singularidades de cada estudante.

Acompanhadas por educadora e sentadas em chão, quatro crianças brincam com tampinhas coloridas de garrafa retiradas de balde laranja. Ao fundo, caixas de papelão amontoadas no canto direito contrastam com livro sobre a mesa no canto esquerdo. Fim da descrição.
Foto: The Action Foundation

Desenho Universal para a aprendizagem e metodologias inclusivas

A abordagem inclui diagnósticos precoces, proteção às crianças e construção de ambientes de aprendizagem estimulantes. Os educadores são incentivados a interagir com as crianças de maneira convidativa à brincadeira e à aprendizagem.

Também são encorajados a aplicar efetivamente o Desenho Universal para a Aprendizagem e metodologias de ensino orientadas por Planos Educacionais Individualizados (PEIs). Além disso, apostam em trabalhos colaborativos com cuidadores e profissionais de apoio.

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Essas ações acontecem particularmente em áreas urbanas de Nairóbi, como Kibera, Mukuru e Kawangware. Nesses locais, a TAF auxilia a formação de educadores em mais de 26 escolas.

Para Omare, as ações têm ajudado a fortalecer o apoio à aprendizagem de todos os estudantes:

As relações e interações mútuas entre estudantes com deficiência e sem deficiência têm oferecido um terreno positivo para que todos os alunos aprendam de forma competitiva e cresçam.

Avanços na aprendizagem

Desde a criação da Action Foundation, em 2009, 1.600 crianças com e sem deficiência foram beneficiadas com o projeto. O TAF iniciou melhorias na pré-escola por meio de um modelo centrado na criança, que incluiu a colaboração de educadores e materiais educacionais de baixo custo.

Foto da cintura para cima de Maria Omare. Ela é uma mulher negra, com cerca de 30 anos. Seu cabelo tem tranças enraizadas e veste um terno amarelo com botões. Fim da descrição.
Maria Omare, fundadora e diretora executiva da The Action Foundation. (Foto: Maria Omare)

Inicialmente, 16 professores voluntários viajaram para centros locais de desenvolvimento da primeira infância para trabalhar ao lado de 40 educadores. Ao longo do tempo, os números cresceram, incluindo 240 professores regulares, 800 cuidadores e 21 diretores de escolas, entre 2015 e 2019.

De acordo com Omare, as práticas da instituição impactaram positivamente o cenário da educação inclusiva nas comunidades. Houve o aumento do número de matrícula de crianças com deficiência em escolas comuns, bem como a retenção desses alunos nas unidades educativas.

Para a diretora da TAF, há um motivo para os avanços nos indicadores: as escolas inclusivas fornecem uma plataforma para que todos os alunos, independentemente de suas especificidades, aprendam e prosperem, criando um ambiente favorável.

A educação inclusiva desempenha o papel de garantir a equidade de modo que nenhum estudante seja deixado de fora, uma vez que o ambiente de aprendizado se torna amigável para acomodar as diversas singularidades.

Conexão com o território

As atividades também envolvem a comunidade escolar e os membros da família para trabalhar de forma colaborativa com uma equipe de voluntários em saúde comunitária. Isso para identificar crianças com deficiência dentro e fora da escola, acompanhar sua matrícula e assegurar sua permanência na escola.

A rede de apoio ainda promove visitas domiciliares com o objetivo de avaliar o desenvolvimento e a aprendizagem dos estudantes. As ações visam garantir que os alunos estejam se beneficiando de um sistema educacional inclusivo.

Duas adolescentes negras realizam a pintura de uma árvore em cartolina apoiada em bancada. Ao lado, os pais a acompanham. Ao fundo, um homem sentado em outra bancada e duas mulheres em pé observam de longe.
Ações da TAF envolvem comunidade escolar e membros da família. (Foto: The Action Foundation)

Além das ações educacionais, a Action Foundation também possui projetos de promoção de saúde e bem-estar, empoderamento feminino e proteção infantil. A organização aposta no desenvolvimento social dos sujeitos de forma a proporcionar que cada um alcance o seu máximo potencial.

De acordo com Omare, os programas defendem a provisão de serviços de saúde e educação para crianças e jovens com deficiência dentro de suas comunidades locais. Um projeto realizado na comunidade de Kibera cresceu tanto que, em 2018, se tornou um centro modelo para o desenvolvimento inclusivo baseado na comunidade.

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“Nossa abordagem holística ataca as causas fundamentais da exclusão, incluindo pobreza, discriminação e falta de acesso a serviços cruciais”, avalia.

É possível criar ambientes inclusivos com poucos recursos

Segundo Omare, as escolas beneficiadas pelos programas da Action Foundation se tornaram referências de processos inclusivos e em educação para todos. E isso serve para inspirar outras redes de ensino ao redor do mundo.

“A Action Foundation tem demonstrado que a educação inclusiva pode ser alcançada em áreas com recursos limitados”, acredita.

Além disso, a diretora entende que os projetos da instituição têm obtido sucesso em mudar as percepções negativas entre cuidadores, professores e gestores de escolas em relação à educação de crianças com deficiência:

Acreditamos que as crianças com deficiência prosperam quando são incluídas em todos os aspectos da vida social. Para isso é essencial o apoio da comunidade e a valorização da diversidade em nível de base, nacional e global.


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