Projeto ensina Libras à comunidade escolar

Para propiciar um ambiente inclusivo à aluna com deficiência auditiva, educadores criam formações em Libras para estudantes, familiares e interessados 

Somos educadoras da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Professor Alberto Mesquita de Camargo, localizada na zona leste da capital de São Paulo. Em 2019, na turma de infantil I, recebemos uma aluna com dificuldade de comunicação e interação com os colegas de classe.

Identificando de barreiras

Jhacel tem influência do espanhol em suas falas, pois sua mãe é boliviana. Assim que chegou à escola, ficamos sabendo que ela tem baixa audição e que usava aparelho auditivo. A mãe também nos informou que a menina passava por acompanhamento com fonoaudiólogo.

Os professores e demais estudantes não a entendiam. Ela falava apenas água, para beber água, e pato, quando se referia a um personagem que ela gostava e desenhava muito. No início, Jhacel gritava para pedir algo e fechava os olhos quando não queria interagir e tentávamos falar com ela.

Em sala, ela andava de um lado para o outro, mexia nas caixas de brinquedos e se sentava no chão, porque estava acostumada a agir assim em sua casa. Também não participava das atividades propostas e nem das rodas de contação de história.

Chegada do instrutor de Libras

Diante dessa situação, entramos em contato com o Centro de Formação e Acompanhamento à Inclusão (CEFAI) de nossa unidade. A equipe nos orientou a conversar com a mãe da Jhacel para que ela permitisse o acompanhamento de um instrutor de Libras (Língua Brasileira de Sinas) durante a rotina escolar da aluna.

Após diálogo com a família, solicitamos o acompanhamento de um instrutor de Libras em nossa escola. Diogo chegou em agosto e passamos, então, a planejar uma estratégia pedagógica para eliminar as barreiras à participação de Jhacel.

Primeiro, tivemos que deixá-la à vontade para se adaptar a uma nova forma de se comunicar. Era preciso que ela se acostumasse com Diogo, o instrutor de Libras, para que ele pudesse, então, iniciar as atividades.

Desenvolvimento das propostas

Diogo e a professora de sala comum, Simone, planejaram as propostas juntos, em diálogo com a coordenação pedagógica. A experiência e o olhar dele em relação à Jhacel foram muito importantes no processo. Além de ser instrutor de Libras, Diogo também tem deficiência auditiva, o que lhe facilitou compreender o processo de desenvolvimento da aluna.

Aos poucos, ela começou a apontar o que queria e Diogo percebeu algumas preferências dela, como o interesse por brincar com massinha. Partindo dessa predileção, Diogo utilizou atividades com o material para que Jhacel aprendesse a escrever o seu nome.

Além disso, ela também passou a participar da contação de histórias. Ela realizava a interpretação em Libras das partes principais da história, conseguindo fazer “tchau”, “caiu” e “pato”. Para isso, utilizamos patos como personagens, uma vez que causavam interesse na aluna.

Libras para todas e todos!

Com o desenvolvimento das atividades, Jhacel começou a pertencer mais ao grupo. Achamos, então, importante ampliar as ações para toda a escola, de forma a diminuir barreiras de comunicação.

Dessa forma, tivemos a intenção de mostrar o trabalho do Diogo para as outras crianças da escola e nos propusemos a montar plaquinhas para indicar cada local em Libras.

Identificamos, com imagens do Diogo, os principais lugares da escola: banheiro, parque, diretoria e secretaria. Planejamos também uma data em que o Diogo levou as outras turmas a esses locais e ensinou um pouco de Libras.

Foi uma experiência muito significativa. As crianças das outras classes passaram a valorizar muito o trabalho do instrutor de Libras e a interagir muito mais com a Jhacel.

Aprendizado para todos

Também passamos a ensinar em sala, a todas as crianças, como fazer em Libras elementos do cotidiano dos estudantes, como cores, animais e alimentos.

Seis crianças em pé e perfiladas (4 meninas e 2 meninos) fazem gestos em Libras com as mãos. Fim da descrição.
Estudantes se comunicam em Libras após aulas de Diogo. Foto: Divulgação

Em decorrência das atividades, a turma toda se empolgou com o aprendizado de Libras. Todas e todos tinham o interesse de aprender cada vez mais para poderem interagir e se comunicar com a Jhacel: faziam com ela e para ela.

As famílias também passaram a se envolver no processo, à medida que as crianças contavam o que aprendiam. A mãe de uma aluna fez um vídeo da filha ensinando Libras para os familiares e mandou pra escola.

Comunidade escolar envolvida no processo

Em sala de professores, Diogo segura mãe de uma moça sentada em cadeira para ensinar Libras. Eles são observados por mulher sentada em cadeira ao lado deles. Fim da descrição.

Por conta disso, também decidimos abrir aulas semanais de Libras para toda a comunidade escolar. O Diogo ensinava libras uma vez por semana aos funcionários, familiares e pessoas que quisessem participar. Quando percebemos, toda a comunidade já estava envolvida.

A mãe de Jhacel começou a participar das aulas e nos contou que a filha passou a interagir mais com ela, uma vez que fazia a utilização de Libras. A tia e a mãe de uma das crianças da escola também fizeram parte das aulas para facilitar as relações em casa: a tia estava perdendo a audição e ficava irritada quando não a compreendiam.

Para nós, educadores da escola, a experiência foi incrível. Passamos a refletir sobre a importância da inclusão e do ensino de Libras na escola e fora dela. Vimos o quanto é essencial a utilização de Libras em todos os lugares para eliminar barreiras e garantir a participação de todas e todos. Foi uma vivência enriquecedora!

 

Ao redor de crianças, professor Diogo conversa em Libras, enquanto pessoas observam e tiram fotos. Ao fundo, existem árvores. Fim da descrição.
Diogo, ao centro, se comunica com as crianças em Libras. Foto: Divulgação
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