Maria Lúcia Dias Batista de Oliveira

Trabalhava com uma classe de 35 alunos em ano de 2004, no primeiro ano (antiga primeira série) do Ensino Fundamental. A preocupação com a alfabetização de todos os alunos era algo inquietante para mim. Procurava diferentes recursos para mediar os conhecimentos junto as crianças, mas tinha um aluno com baixa visão e por mais que tentasse, o menino em questão não conseguia acompanhar o restante da turma. O aluno usava óculos e os esquecia várias vezes, ele dizia – “professora eu esqueci os óculos em casa”. Aquilo me perturbava, pois na minha ignorância em trabalhar com os estudantes com deficiência, acreditava que bastaria ele colocar os óculos e tudo seria mais fácil, ledo engano, tudo o que tentava parecia não surtir efeito, comuniquei a coordenadora da escola, e a mesma se propôs a chamar a mãe da criança para que tivéssemos uma conversa e a alertássemos para não deixar o filho vir à escola sem os “benditos óculos”. Alguns dias depois a mãe veio até a escola, conversamos e ouvimos o desabafo da pobre mãe. Ela nos disse que os óculos em questão já estavam vencidos e que já tinha solicitado aos agentes de saúde uma nova consulta para o filho, mas isso já havia alguns meses, e nada do retorno a sua solicitação, ela estava disposta a pagar do próprio bolso a visita do filho ao oftalmologista, mas não tinha recursos, o marido estava desempregado e ainda tinha mais cinco filhos. Estavam sobrevivendo graças aos favores dos amigos e vizinhos. Fizemos uma campanha para ajudar o aluno a conseguir os novos óculos, juntamos o dinheiro suficiente para a consulta e para as lentes. Depois de uns quinze dias o meu aluno veio com os óculos novos, mas tirava constantemente do rosto. Ele tinha vergonha de usá-los. Comecei a ficar próxima a ele e conversar sobre o assunto, procurei levantar a autoestima do meu aluno, mas ainda não estava conseguindo que ele avançasse na aprendizagem. Foi aí que percebi que mesmo usando os olhos novos ele ainda não conseguia visualizar as atividades que solicitava a ele, comecei a ampliar todos os conteúdos trabalhados, os colegas ajudavam também o orientando em algumas ações que lhe passava despercebido, toda vez que necessitava copiar ou ler algo da lousa ele se levantava e vinha até a mesma, colocava o rosto bem próximo a lousa e copiava, a sua carteira já estava junto a minha mesa, e aos poucos ele foi perdendo a vergonha e pedia ajuda quando precisava, mesmo quando não pedia eu estava por perto observando as suas ações, ele tinha segurança em mim. Consegui alfabetizá-lo dentro das limitações que o aluno tinha. Esse fato foi muito gratificante, no ano seguinte ele foi para outra turma, fui até a professora que iria trabalhar com ele e passei todas as informações que tinha sobre como trabalhar com ele. Acho que poderia ter feito muito mais por essa criança, mas fiz o que estava no meu alcance no momento.

Maria Lucia Dias Batista de Oliveira – Apiaí/SP.

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