Estudantes têm participação ativa em aula de matemática diferenciada

Com jogo de senhas, educadores despertam interesse pelo conteúdo e garantem aprendizagem a todos

A Escola Estadual Dr. Genésio de Almeida Moura está situada no Jardim Damasceno da cidade de São Paulo (SP), região com cerca de 20 mil habitantes, marcada pela vulnerabilidade social e pela precariedade das habitações.

Sendo a única nas proximidades a oferecer ensino médio e fundamental, a escola tem grande procura. Em 2017, teve 1.789 alunos matriculados, sendo 626 do ensino médio. Na época, atendíamos uma estudante com deficiência no ensino médio e dois no ensino fundamental II.

Planejamento para atender a todos

Ao notarmos estudantes tímidos e com pouca participação nas aulas, decidimos trabalhar priorizando transpor barreiras pedagógicas para gerar engajamento e despertar mais interesse pelos conteúdos propostos em sala.

Além da socialização dos estudantes com seus colegas de classe, tivemos por objetivo ofertar uma proposta pedagógica que contemplasse o planejamento didático-metodológico, com currículo flexibilizado e recursos diferenciados que atendessem a todas e todos.

Ao conversarmos com a equipe docente, o professor de matemática Kleberson da Silva Pereira propôs que aplicássemos um jogo aos estudantes e, após conversa com o grupo, analisamos barreiras, facilitadores e várias ideias de projetos.

 

De frente para lousa branca, professor apresenta o placar de pontuação do jogo das senhas. Fim da descrição.
(Foto: Alfredo Brant)

Entendemos que a aplicação de uma aula diferenciada de matemática poderia possibilitar um resultado mais proveitoso em termos de aprendizagem para todos. Os alunos foram receptivos e ficaram entusiasmados.

Fizemos uma reunião com os responsáveis dos estudantes da turma para apresentar o projeto e tirar dúvidas em relação à didática utilizada. E houve uma resposta positiva: muitos afirmaram que a iniciativa foi de grande importância, por estarmos numa região escassa de programas inclusivos e de eliminação de barreiras. Enfatizaram ainda que muitas das vezes o único lugar que possuem é a escola, pois não há locais acessíveis a todos na região.

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Jogo de senhas

A proposta do jogo criado pelo educador era desenvolver conteúdos de Resolução de Problemas, Jogo, Análise Combinatória e Permutação Simples. A partir da escolha do Jogo de senhas, realizamos a captação de material para os tabuleiros (feitos de papelão) e peças (construídas com EVA colorido).

 

Detalhes do jogo de senhas, com tabuleiro verde e peças redondas sobre ele. As peças são em EVA nas cores verde, amarelo, laranja, rosa, preto e branco. Fim da descrição.
(Foto: Alfredo Brant)

Para o desenvolvimento do jogo, separamos os estudantes em grupos e sorteamos os duelos entre eles. Cada grupo recebeu várias peças coloridas para criar uma senha que deveria ser descoberta pelo grupo adversário, na base da tentativa.

O grupo desafiado tinha até oito tentativas para descobrir a senha, composta por quatro peças. Após a solução do desafio, anotávamos a quantidade de tentativas usadas para a resolução do problema. Ganhava o grupo que descobrisse a senha com menos tentativas.

A separação dos grupos foi realizada conforme a disposição dos alunos dentro da sala: cada um ficou com quem mais conversava. Em um primeiro momento, não quisemos mudar esta formação, justamente para que pudessem resolver da melhor maneira a proposta do jogo, já que se conhecem e desenvolvem uma interação rotineira.

Participação dos estudantes

A princípio, a estudante Ester, que possui síndrome de down, só observou os estudantes fazerem as jogadas, até que se sentisse confortável para participar. Seu grupo foi formado com base nas aulas anteriores, com os alunos com os quais sentisse mais afinidade e se sentisse confiante. Observamos seu interesse em mexer manualmente com os materiais e com as cores, o que a deixou mais participativa.

 

Em sala de aula, professor acompanha envolvimento de duas meninas e dois meninos com o material pedagógico. Ester posiciona peça amarela de EVA em tabuleiro. Fim da descrição.
(Foto: Alfredo Brant)

Depois da 3ª aula, todos se adaptaram ao jogo e perceberam que o projeto estava dando resultados no raciocino lógico e na socialização de todos.

Houve interesse da maioria dos estudantes e entusiasmo na realização da aula proposta. O professor sentiu a necessidade de mais tempo para que eles praticassem o jogo e pudessem partir para a execução da Análise Combinatória efetivamente em trabalhos a serem realizados em caderno.

Após alguns dias de desenvolvimento das ações com os tabuleiros, foi apresentado aos estudantes o mesmo jogo, mas individualmente no computador. Eles ficaram mais entusiasmados.

Trabalho colaborativo

Tivemos apoio da gestão escolar e dos docentes, nos auxiliando na obtenção de material para criação do tabuleiro, na demanda da aula e na criação de novas estratégias para melhor compreensão da aula pelos alunos. Também contamos com a ajuda dos responsáveis dos alunos, pois sem o incentivo e a aceitação nada seria possível.

Mesmo com pouco tempo hábil para a realização do projeto, esta primeira experiência serviu de parâmetro para que possamos pensar novas propostas de aula, fazendo com que o aluno tenha mais interesse em participar das atividades escolares.

Vimos que as ferramentas tecnológicas são de maior aceitação nessa geração de estudantes, incluindo Ester, que ficou fascinada com as cores das peças e o desenvolvimento do jogo, e o computador se mostrou uma peça importante no desenvolvimento da aula.

A estudante era considerada tímida e retraída. Mas, após o projeto, sua família relatou que ela se mostrava ansiosa para ir à escola e que, ao retornar para casa, ficava mais comunicativa, demonstrando grande interesse pelas atividades.

 

Em sala de aula, professor Kleberson sorri enquanto observa uma menina e dois meninos sentados em volta de mesa, interagindo com Jogo de senhas. A menina também sorri. Fim da descrição.
(Foto: Alfredo Brant)

Este relato de experiência é fruto da participação dos autores na edição 2017 do Ensino médio inclusivo – curso oferecido pelo Instituto Rodrigo Mendes com objetivo de apoiar equipes multidisciplinares das redes de educação no planejamento de políticas públicas para a garantia de acesso, permanência e aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial.

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