Educadores do ensino médio flexibilizam atividades para tornar aulas acessíveis

Além de outras estratégias pedagógicas, intérprete e professores ensinam Libras a todos os estudantes da turma para eliminar barreiras comunicacionais

Conheci Guilherme em seu 2º ano do ensino médio, quando comecei a atuar como intérprete de Língua brasileira de sinais (Libras) na Escola Estadual Orosimbo Maia, em Campinas (SP). Nas primeiras semanas, em conversa com outros professores, soube que o estudante, que possui deficiência auditiva, não tinha participação ativa nas aulas.

Procurei me informar sobre como ele se expressava e soube que, no ano anterior, não houve um trabalho focado no desenvolvimento de sua autonomia e que o aluno passou por dificuldades de relacionamento com os demais colegas de classe.

Após tantos meses sem apostas em seu potencial, o estudante foi deixado para trás. Era preciso reverter essa situação. Então, junto com outros professores que abraçaram a iniciativa, começamos a criar atividades para tornar a escola inclusiva, tanto em termos de participação quanto em aprendizagem de todos os estudantes.

 

Criando atividades significativas

Primeiro, procurei identificar o que o aluno já sabia por meio de um ditado em Libras. Guilherme tinha um bom repertório na língua de sinais, conhecia muitas palavras em português escrito, mas tinha dificuldades para criar frases curtas. Já em matemática, ele mostrou conhecer os números, mas não fez as operações básicas por não compreender as noções de unidade, dezena e centena.

Criamos, então, atividades para ampliar o vocabulário nas duas línguas e para desenvolver a escrita em língua portuguesa. A partir dos temas das aulas, eu apresentava novos sinais em Libras e ele fazia exercícios de construção de frases. Usamos imagens e recursos visuais nas atividades para torná-las mais significativas para o estudante.

Em matemática, fizemos atividades de soma, subtração, multiplicação e divisão também com recursos que faziam sentido para o aluno.

Essas atividades aconteceram nas aulas regulares das duas disciplinas. Em poucos meses, o jovem começou a produzir textos curtos em língua portuguesa e a efetuar operações até a unidade de milhar. Em seu próximo ano escolar, planejamos trabalhar para que ele pudesse escrever textos maiores e conseguisse resolver situações-problema mais complexas em matemática.

Comunicação e socialização

Para ampliar as possibilidades de expressão do estudante, os docentes de história e arte desenvolveram atividades em grupo.

Nas aulas de arte, a professora propôs a produção de um texto dramático para ser encenado para toda a classe. O roteiro deveria ser composto por: situação inicial, quebra da situação inicial, conflito, clímax e desfecho. Tendo Guilherme como protagonista, o grupo apresentou uma peça sobre uma pessoa surda que não é atendida corretamente no hospital porque os médicos não falam Libras.

Guilherme e seu professor se abraçam e sorriem para foto ao lado do painel visual com ilustrações sobre a Revolução Industrial preparado pelo estudante.
Guilherme fez um painel sobre Revolução Industrial para a disciplina de história. Foto: Arquivo pessoal.

As situações apresentadas na peça mexeram com a turma, que expressou vontade em se comunicar melhor. Sabendo desse desejo da classe, o professor de história concordou em ceder um tempo de suas aulas para que todos pudessem aprender Libras. Uma ação simples que melhorou a participação do estudante nas aulas e seu envolvimento com os demais.

Ao fim do semestre, o docente propôs como avaliação para o jovem a apresentação de um seminário sobre Revolução Industrial. Para concretizar essa tarefa, primeiro, delimitados os pontos importantes do assunto e coletamos imagens em jornais, revistas e na internet para montarmos um painel visual. Muito empolgado com o desafio, o estudante apresentou o trabalho para os colegas em Libras, enquanto eu fazia a tradução para o português.

Novo ano, novos desafios

Em seu primeiro ano na escola, Guilherme enfrentou dificuldades para se comunicar e, por isso, se isolou do convívio com os colegas. Com uma visão precipitada sobre a situação, a escola deixou, aos poucos, de apostar no aluno. Mas ao mudarmos nossa perspectiva, olhando mais atentamente para seu potencial, ele foi mostrando que é capaz de compreender e ser compreendido.

No 3º ano, o jovem teve novos colegas de classe, já que as salas foram reconfiguradas. Mas as ações do ano anterior deixaram marcas. O professor de educação física, como fez o de história no ano anterior, tem cedido parte de suas aulas para que a classe continue a aprender a língua de sinais — e muitos adolescentes de toda a escola têm me procurado em outros momentos fora da aula para aprender mais Libras.


Este relato de experiência, publicado originalmente em 12 de abril de 2019, é fruto da participação dos autores na edição 2018 do Ensino médio inclusivo – curso oferecido pelo Instituto Rodrigo Mendes com objetivo de apoiar equipes multidisciplinares das redes de educação no planejamento de políticas públicas para a garantia de acesso, permanência e aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial.

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