Escola cria prática inclusiva com caderno do aluno

A partir da utilização do material, educadores desenvolvem atividades colaborativas e interdisciplinares para todos os estudantes

Em 2017, éramos educadoras da Escola Estadual Professor Andronico de Mello, situada nas imediações das avenidas Francisco Morato e Giovanni Groncchi, no centro geográfico da Vila Sônia, zona oeste da cidade de São Paulo.  Está bem próxima ao estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, e aos bairros da Vila Progredior e Caxingui.

A instituição oferece o ensino médio e recebe alunos oriundos de diversas unidades educacionais próximas, tanto da rede pública, quanto privada.  Possui 36 turmas, distribuídas em três períodos, totalizando cerca de 1.200 alunos, e recebe cerca de 600 novos estudantes anualmente. São da região do Morumbi, de bairros vizinhos e de comunidades em vulnerabilidade social do entorno, o que proporciona grande diversidade e heterogeneidade entre os estudantes.

Naquele ano, havia seis alunos com deficiência e a maioria estava na turma do 2ª ano A. Embora a escola seja bem ampla e aberta, não era acessível em todos os seus pontos. O piso superior e a área verde não possuíam rampas ou elevador, o que dificultava o acesso à quadra de esportes, ao laboratório de ciências, à sala de informática e de leitura.

Em pátio de escola, vários estudantes se reúnem em volta de acentos,enquanto alguns estão sentados no chão e outros caminham. Fim da descrição.
Estudantes se reúnem em pátio da escola. (Foto: Alfredo Brant)

Diante de todo o contexto educacional que nos cercava, fomos convidadas a participar da formação Ensino Médio Inclusivo, oferecida pelo Instituto Rodrigo Mendes e que tem o objetivo de apoiar educadores, gestores escolares e membros de equipes técnicas das secretarias de educação no planejamento de políticas públicas para a garantia de acesso, permanência e aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial.

O caderno do aluno

A partir do que nos foi proposto na formação, fizemos um diagnóstico sobre o contexto da escola e decidimos elaborar um projeto para potencializar a autonomia dos estudantes por meio de atividades do caderno do aluno. Nossa intenção também era proporcionar uma maior interação e socialização entre os estudantes com e sem deficiência, além de desenvolver o máximo potencial de todos.

No início daquele ano, os estudantes de uma turma do 2ª ano participaram de um trabalho de sociologia que utilizou o caderno do aluno e focou em temas como relacionamentos humanos e socialização. Como a experiência foi bem positiva, decidimos ampliá-la para outras turmas da escola.

O caderno do aluno é um material pedagógico oferecido em toda rede do estado de São Paulo com o objetivo de desenvolver competências e habilidades por meio de um roteiro de estudos unificado para os estudantes e professores. Além disso, os conteúdos atendem as especificações do Currículo Oficial do Estado de São Paulo dentro das áreas do conhecimento e auxilia os estudantes no processo de aprendizagem.

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A ideia era utilizar o material na elaboração de uma estratégia pedagógica de garantia de aprendizagem a todos os estudantes de forma significativa e eficaz. O método tradicional de ensino é ler, copiar do livro e fazer exercícios sobre a matéria. Nós apostamos em utilizar o caderno como um instrumento fomentador de aprendizagens e de atividades pedagógicas.

Com a definição de nosso objetivo, começamos a materializar as ações do nosso projeto. Tivemos como inspiração uma atividade de construção de instrumentos musicais recicláveis nas aulas de física sobre acústica e ondulatória. Foi uma estratégia que poupou recursos e ainda envolveu todos os estudantes do 2 ano.

As aulas e a construção dos materiais resultaram em uma apresentação de sarau que contou com apresentações de alunas e alunos de toda a escola, contribuindo para desenvolvimento do protagonismo e do trabalho colaborativo entre os estudantes. Júlio, que têm deficiência física, participou ativamente cantando com seus colegas e sendo acompanhado no violão por um aluno do 3ª ano.

Interdisciplinaridade e trabalho colaborativo

Ficamos tão impressionadas e instigadas pelo envolvimento dos alunos nas atividades, que decidimos dar continuidade ao projeto, utilizando novamente o livro de física. Mas, dessa vez, com o tema luz e cores.

Os estudantes estudaram os conteúdos da matéria em sala de aula e foram separadas em grupos de trabalho para apresentar as características luminosas que haviam aprendido. Todos do 2ª ano realizaram as atividades e participaram ativamente, contribuindo com explicações e com questionamentos.

A importância do projeto em termos de aprendizagem era notável. Percebemos uma maior socialização entre os estudantes com deficiência e os demais: eles se sentiam mais pertencentes ao contexto das aulas, realizando em conjunto uma atividade em que todo mundo aprendia.

Além dos grupos de atividades de física, houve aulas com interdisciplinaridade em química, cuja professora responsável elaborou aulas com todos os estudantes no laboratório. Lá, eles visualizaram a cromatografia em papel filtro, decompondo as cores de canetas esferográficas e conhecendo a espectometria de chamas (levando em conta a teoria de cores para cada elemento químico).

Nesta atividade, os estudantes realizaram atividades com tintas para apreensão dos conteúdos. Em grupos, fizeram pinturas em cartolinas para darem continuidade ao estudo das cores.

Em sala de aula, estudante em cadeira de rodas pinta em cartolina com pincel. Ao seu lado e debruçada sobre mesa de apoio, educadora sorri enquanto olha para ele. Fim da descrição.
Júlio realiza atividade acompanhando por educadora. (Foto: Alfredo Brant)

Protagonismo e aprendizado

Ao todo, foram envolvidas as nove salas de 2ª ano do ensino médio e metade do 3ª ano também. Além deles, outros professores da escola e a equipe de coordenação pedagógica também participaram ativamente da elaboração e desenvolvimento das atividades.

Ao longo da elaboração das atividades, foi perceptível o maior envolvimento dos estudantes com as atividades e com seus pares. Todos se mostraram mais entusiasmados, empoderados e detentores do conhecimento.  O projeto também serviu para a construção de um ambiente mais harmônico, afetuoso e inclusivo para todas e todos.

Além de não deixar ninguém para trás, e garantir um aprendizado significativo a todas e todos, o trabalho também foi importante para os educadores e educadoras na medida em que proporcionou uma experiência singular, potencializando o trabalho colaborativo e interdisciplinar em sala de aula.

Em sala de aula, dois estudantes, lado a lado, sorriem. Ao fundo, interpretações dos alunos do quadro "Monalisa". Fim da descrição.
Júlio durante (à esquerda) apresentação de estudantes. (Foto: Alfredo Brant)

 


Este relato de experiência é fruto da participação dos autores na edição 2017 do Ensino médio inclusivo – curso oferecido pelo Instituto Rodrigo Mendes com objetivo de apoiar equipes multidisciplinares das redes de educação no planejamento de políticas públicas para a garantia de acesso, permanência e aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial.

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