Educadora cria vídeos com acessibilidade em Libras

Professora de Atendimento Educacional Especializado elaborou canal no Youtube para permitir aprendizado a todos os estudantes durante ensino remoto

Com o fechamento das escolas por conta da pandemia de Covid-19, o ensino remoto, no seu início, me apresentou algumas fragilidades: muitos estudantes com dificuldades de acesso à internet e com problemas para a utilização dos recursos de tecnologia.

Outra significativa barreira que logo ficou evidente era a dificuldade de comunicação com estudantes com deficiência auditiva e que utilizam somente a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Como possibilitar acesso à educação a esses estudantes durante a suspensão das aulas presenciais?

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Para as crianças e jovens com deficiência auditiva, enviar as atividades não fazia sentido, e muitas vezes as explicações por chamada de vídeo não eram tão claras, além de contarem com muitos imprevistos, como falha na conexão.

Elaborando estratégias inclusivas

Diante desses desafios, senti-me instigada, como professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE) da rede estadual de São Paulo, a realizar um trabalho que proporcionasse aprendizado a todos os estudantes.

Então, em diálogo com outros educadores, decidi começar a gravar vídeos com as explicações das atividades e enviá-los via WhatsApp. A ideia me pareceu boa para possibilitar o acesso dos estudantes ao conteúdo.

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Contudo, mais um problema apareceu: os vídeos eram muito longos e acabavam sobrecarregando a memória do aparelho de celular. Isso fazia com que os estudantes excluíssem o vídeo, não tendo a possibilidade de revê-lo em caso de dúvidas.

Inspirações

Enquanto pensava em possíveis soluções, participei das Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC), onde foram abordados diversos temas de fundamental relevância para o ensino remoto. As experiências compartilhadas pelos colegas de profissão sobre tecnologia me levaram a refletir e lembrar da formação Ensino médio inclusivo: construindo uma escola para todos, realizado pelo Instituto Rodrigo Mendes em parceria com a Escola de Formação dos Profissionais da Educação (EFAP).

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Realizei a formação em 2018 e, a partir dela, desenvolvi com outros educadores o projeto “Cultura Inclusiva” na Escola Estadual Washington Luís, localizada na cidade de Mogi das Cruzes (SP). Na época, nosso objetivo era conscientizar a comunidade escolar sobre a importância da educação inclusiva para todas e todos. Para isso, utilizamos atividades culturais e significativas, como rodas de conversa, visita ao teatro, gincanas, entre outras.

Foi um trabalho interdisciplinar, envolvendo estudantes, familiares, professores, coordenadores e outros funcionários da escola. Os alunos com deficiência auditiva participaram de todas as atividades, demonstrando muito protagonismo. Foi uma experiência de fundamental importância para todos os envolvidos, o que nos fez refletir sobre como é possível sempre atingir e promover conhecimento a todas e todos.

Canal do Youtube

Voltando ao nosso período de pandemia, a experiência e o aprendizado da formação me mostraram que temos que estar abertos a novas formas de ensinar, sempre partindo do repertório e das potencialidades dos estudantes.

Ao recordar o projeto, lembrei que havia criado um canal do Youtube para a divulgação das atividades. Revisitei o canal e vi a possibilidade de utilizar a plataforma para proporcionar acesso aos conteúdos e às explicações das aulas para os meus estudantes.

Em diálogo com outros educadores e com a coordenação pedagógica da escola, decidi utilizar o canal para construir acessibilidade em Libras dos materiais estudados. Como exemplo, tenho uma aula de coordenadas matemáticas.

Em sala de estar, Gislaine grava viídeos em Livras senada em cadeira. Ao seu redor, estão aparelhos utilizados para a gravação, como televisão, computdaor, teclado, aparelho celular e livro. Fim da descrição.

Tornando os conteúdos acessíveis em Libras

Aparelhos utilizados para a gravação de vídeos: há uma televisão e um computador em cima de um hack e teclado, mouse e livros em cima de banco. Fim da descrição. Utilizei alguns recursos da sala de minha casa, como mesa, TV, para mostrar as atividades, e meu computador. Isso foi importante para destacar o aspecto visual das aulas, essencial para o processo de aprendizagem de estudantes com deficiência auditiva.

Percebi que este método facilitou a rotina de estudos: muitos alunos não possuem celular e só realizam as atividades no período noturno, quando um familiar com celular chega na residência. Com o vídeo gravado, eles podem ver e rever o conteúdo a hora em que quiserem.

Recebi muitos comentários positivos de familiares e dos próprios estudantes. Todos se mostraram bastante motivados e animados com o projeto. Por conta desse retorno, além das aulas por videoconferência, também continuo gravando os vídeos.

Estou sempre em contato com as professoras intérpretes (que são as responsáveis por interpretar as atividades da sala comum) e com os demais educadores. Há uma troca muito significativa e importante nas adaptações das atividades: o trabalho colaborativo, a comunicação e a troca são fundamentais para alcançar todos os estudantes.

Reinventando a prática diariamente

Em sala de estar e em frente à TV, Gislaine faz sinal de positivo com as duas mãos. Fim da descrição.
Gislaine durante gravação. Foto: Arquivo pessoal.

Com a nova realidade, nós, professores, temos que nos reinventar e continuar nossos trabalhos, participando constantemente da vida dos nossos estudantes. Estamos repensando a nossa prática e aprendendo no dia a dia como alcançar a todos durante o ensino remoto.

Estamos tentando de todas as formas desenvolver as habilidades e potencialidades dos estudantes, levando em conta também as competências socioemocionais de cada um, para estarmos presentes, ainda que virtualmente.

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