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Dia do professor: docentes falam sobre profissão e direito à educação

Educadoras e educadores esclarecem o que os motivou a iniciarem a carreira docente e citam, ainda, a importância da diversidade em sala de aula

Por Juliana Delgado

Professor, professora, docente, mestre… Independentemente de como são chamados, professores têm um papel imprescindível na sociedade. Este papel vai além da formação acadêmica: educadores contribuem para o desenvolvimento de estudantes enquanto indivíduos e cidadãos.

Em 15 de outubro, o Dia do Professor marca homenagens e agradecimentos à profissão que forma todas as outras profissões, como diz o lema do Prêmio Educador Nota 10. Assim como o prêmio, que busca reconhecer professores e gestores escolares, o Dia do Professor objetiva a valorização docente de todas as áreas de conhecimento.

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Segundo Censo de 2020, mais de 2 milhões de professoras e professores brasileiros comemoram a data que, apesar de estabelecida nacionalmente em 1963, faz menção a um decreto de 1827 de Dom Pedro I, que iniciou a criação de uma legislação para a educação no Brasil.

Em sala de aula, estudantes estão em carteira respeitando o distanciamento social, enquanto educadora, na frente da lousa, apresenta boneco de corpo humano com sistemas digestórios. Ao lado do material, Gislaine, professora do atendimento educacional especializado, faz interpretação da aula em Libras.
Foto: Gislaine Kamer Bento. Fonte: arquivo pessoal.

Para dar voz a alguns desses profissionais, o DIVERSA entrevistou sete educadoras e educadores de diferentes escolas públicas para saber o que os motivou a iniciar a carreira docente e de que forma eles acreditam que a profissão possa ser mais valorizada. Confira:

Transformação de vidas

Tendo predileção pelo professorado desde pequena, com incentivo da mãe, Gislaine Kamer Bento é educadora desde 2013. Hoje ela atua como professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE) na rede estadual de São Paulo.

“Sempre gostei de crianças, apesar de ser muito tímida, me identifiquei com o ambiente escolar. O maior aprendizado que tive e que me ajudou muito foi a questão da perda da timidez, pois ter ingressado nessa área fez com que eu tivesse um bom desenvolvimento e conseguisse ser mais extrovertida.”

Para Valdineia Nascimento, educadora há 23 anos e atualmente guia intérprete de estudante surdocego e professora de Libras em centro universitário de Jundiaí (SP), a docência melhora vidas, e não só a dos professores:

“Optei por essa área porque acredito na educação como possibilidade de transformação. De vidas, de pensamentos, de quebra de paradigmas e de como nos constituímos uns com os outros, pois, enquanto estamos em contato com pessoas, as partilhas e as evoluções são constantes.”

Em quadra esportiva, guia intérprete Valdineia Nascimento acompanha estudante surdocego em jogo com outra estudante.
Foto: Valdineia Nascimento. Fonte: arquivo pessoal.

Em consonância, Helayne Carvalho, que atua como educadora há 21 anos e na área da educação especial desde 2011, afirma que a educação possibilita também mudanças sociais: “O saber abre as portas para que vidas sejam modificadas”.

No caminho certo

Muitos professores descobrem sua paixão pela educação quando estão em outros empregos, como é o caso de Érica Stachera, educadora há 26 anos. Ela decidiu seguir essa área depois de vivenciar a rotina escolar como secretária de uma instituição de educação infantil.

Em sala de leitura, professora Érica Stachera sorri para foto ao lado de estudante Mirella Martos dos Santos.
Foto: Érica Stachera. Fonte: arquivo pessoal.

Por sua vez, André Cyrino, de Fortaleza (CE), teve um contato prévio com instrução profissional e decidiu ingressar na licenciatura de educação física:

“Eu me formei em 2014 e um mês depois já estava na escola, acabei me formando antes, porque me inscrevi em concurso e consegui passar. Até abreviei minha formação em um semestre, para conseguir assumir o concurso. Passei a graduação todinha me preparando, porque sabia que era isso que eu queria fazer. Foi graças ao destino, ao caminho, enfim, deu certo.”

Luiz Felipe Lins, professor de matemática que conquistou o prêmio de Educador do Ano em 2020, leciona há 26 anos e teve como referência seus próprios docentes no período escolar:

“Tive professores que me motivaram, que me incentivaram, que acreditaram no meu potencial, então (ser professor) é uma maneira de retribuir tudo que a educação me proporcionou. Ao longo desse tempo em sala de aula, foram muito mais aprendizados do que ensinamentos, não tenho dúvidas.”

Professor Luiz Felipe Lins escreve com canetão vermelho em lousa branca.
Foto: Nidiacris Ribeiro. Fonte: Trupe Filmes.

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Educadores também aprendem

“O conhecimento é infinito”, afirma Gislaine, ao explicar que sempre se pode aprender com os estudantes, familiares, colegas professores e gestores da escola.

Para André, os educadores precisam estar em constante evolução para acompanhar as mudanças que ocorrem nas gerações de alunas e alunos, para evitar estar “ultrapassado”: “A profissão que escolhi não foi para ensinar pessoas, mas para passar o resto da vida aprendendo”.

Educadora Helayne Carvalho, mulher com cabelo escuro, sorri para a foto. Ela está com o cabelo preso e usa brincos e blusa floral.
Foto: Helayne Carvalho. Fonte: arquivo pessoal.

Dentre os diversos aprendizados adquiridos na formação em pedagogia e em sala de aula, Helayne destaca: ter mais empatia com o outro, planejar as vivências de acordo com as possibilidades de cada estudante e ser um professor pesquisador, a fim de potencializar ainda mais as ações planejadas.

Os ganhos pessoais também são inúmeros. Assim como Gislaine, Érica relata que foi dando aula que teve oportunidade de aprimorar habilidades socioemocionais, considerando a realidade social dos estudantes e dos colegas de trabalho: “Aprendi a ser uma pessoa mais paciente, menos ansiosa, mais cooperativa e mais solidária.”

No quesito pedagógico, Érica declara que se dedicou à alfabetização e aprendeu como a criança constrói seu conhecimento acerca da leitura e da escrita, e isso possibilitou uma melhora de suas propostas de atividades alfabetizadoras para todos os alunos, considerando cada um.

Suzi Dornelas, que atua como professora de educação física, reforça a definição de que ser educadora é estar em constante aprendizado e que ela não se vê em outra profissão: “Acredito que, com o passar do tempo, aprendi a construir a minha práxis pedagógica, meu olhar sobre a área da educação, e percebi que a sala de aula é o meu lugar”.

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Valorização no Dia do Professor

No Dia do Professor, as homenagens voltadas a esses profissionais são muitas, mas sempre houve a necessidade de abranger o reconhecimento da profissão para todo o restante do ano. Para os entrevistados, a valorização é fundamental, pois, segundo Valdineia: “não há pedagogia por amor, e sim pedagogia com amor”.

Gislaine afirma que o professor no Brasil não é valorizado, mas o reconhecimento faz com que o professor se sinta parte do processo de desenvolvimento de estudantes e, quando algo é reconhecido, seja por familiares, colegas de trabalho ou até mesmo pelos próprios alunos e alunas, os professores não desistem.

É importante ressaltar que valorização não está somente relacionada à remuneração, e sim em um conjunto de ações que permite que ele cumpra sua função social, como aponta Suzi:

“Vivemos em uma realidade em que não possuímos os recursos necessários para atender a demanda de alunos e do avanço da tecnologia, possuímos jornadas de trabalho exaustivas, falta incentivo e falta de valorização da formação continuada. Se faz necessário permitir que o educador tenha voz na elaboração de políticas públicas que sejam eficientes e atendam às necessidades da classe.”

Em quadra esportiva, educadora Suzi Dornelas aparece de costas em roda com os estudantes, todos estão de mãos dadas. Ao centro da roda, uma estudante está vendada e participa de jogo.
Foto: Suzi Dornelas. Fonte: arquivo pessoal.

Para Helayne e Érica, também é necessário que os gestores tenham empatia com a condição de trabalho: não superlotarem as salas de aula, oferecerem escola com infraestrutura adequada e disponibilizarem cursos de extensão focados nas potencialidades de estudantes e professores.

Ensino de qualidade para todos

Com educadores mais bem preparados e motivados para realizarem seu trabalho, a educação no país pode ser alavancada, para alcançar cada vez mais crianças e jovens de maneira efetiva. O destino do ensino de qualidade para todas e todos começa com a jornada do professor.

Na opinião de André Cyrino, a educação só pode ser chamada de educação se for para todos: “A proposta de educação vem de uma ideia universalizante do ponto de vista da humanidade, um acordo que a gente faz para perpetuar a humanidade. A importância da educação para todas e todos é que, colocando nesses termos, a educação só existe nessa forma”.

Em quadra esportiva, educador André Cyrino dá aula para estudantes que estão ao seu redor. Todos seguram raquetes de ping pong.
Foto: André Cyrino. Fonte: arquivo pessoal.

Suzi afirma que a escola é “onde ocorre o encontro de várias culturas, crenças, saberes, corpos” e, a partir disso, é essencial compreender a diversidade e as diferenças presentes nela para valorizar e não excluir: “Essas diferenças nos fazem ser parte de uma sociedade, reconhecer que cada pessoa é única e aprender com a individualidade de cada uma e respeitá-la”.

Pensando nisso, a educadora Valdineia afirma que as escolas precisam entender que é possível aprender com as diferenças e que todos podem aprender do seu jeito, desde que sejam oportunizadas diferentes estratégias pedagógicas e práticas para atender às singularidades:

“Não é possível atuar usando as mesmas estratégias, há necessidade de um movimento por parte do educador e da escola para promover e garantir aprendizagem a todas e todos. O acesso ao currículo deve ser garantido.”

Ela complementa que olhar para cada um e reconhecer suas especificidades não é uma tarefa fácil, mas é recompensador observar as evoluções dos estudantes durante o percurso educacional:

“A diversidade é primordial nas escolas e em todos os espaços sociais, pois ao conviver com as diferenças, seja de quaisquer origens, as crianças têm a oportunidade de se tornarem adultos inclusivos, tolerantes, compreensivos, que além de aceitarem as diferenças, respeitam e percebem que é possível aprender com o diferente, que o diferente não incomoda, não atrapalha, mas pensa, sente, aprende, brinca e interage à sua maneira.”

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