O IRM utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos portais, de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.

Esse estudante tem um laudo médico ou pedagógico?

Há uma supervalorização do laudo médico na área da educação. Geralmente esse laudo chega à escola antes do estudante e passa a ocupar o “lugar da criança”, pois acredita-se que ele é capaz de definir “quem a criança é”, resultando em sérias consequências para todos os envolvidos no processo de aprendizagem.

O cenário é de desvalorização do saber docente pautado na prática educativa, considerado inferior ao fundamentado pela medicina e pela psicologia. Infelizmente, o discurso médico tornou-se comum entre os profissionais da educação, à medida que enfatizam a necessidade de acompanhamento médico para alunas e alunos com dificuldade de aprendizagem.

Esse lapso é destacado por vários estudiosos, dentre os quais Fanizzi (2017), mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora dos efeitos do discurso médico no cotidiano de professores e estudantes. Conforme consta em sua tese: “O pedagogo ou professor dá um passo para trás e cede espaço a alguém que fala como especialista: detentores de saberes médicos e psicológicos.”

 

Em sala de aula, cinco estudantes usando máscaras estão em suas carteiras, escrevendo sobre o caderno. Ao fundo, educadora, também de máscara, os observa em pé. Fim da descrição.
Foto: Pavel Danilyuk. Fonte: Pexels.

O laudo médico em si não é o problema, ele é indispensável para que as famílias encontrem respostas para comportamentos e características do estudante: o laudo garante direitos e insere educandos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com deficiência física ou intelectual e com altas habilidades na modalidade da Educação Especial, assegurando todo o apoio previsto na legislação.

Portanto, se o laudo é um texto com parecer técnico e especializado, é fundamental enaltecer a elaboração desse documento pelo professor da classe regular quando necessário, dado que aproximadamente 20% dos alunos de uma classe apresentam dificuldades de aprendizagem.

O que observar e o que registrar

É necessário observar o aluno como um ser competente e que aprende, considerando suas habilidades, dificuldades, o que ele consegue fazer, o que faz com ajuda e o que ainda não consegue fazer.

Segundo Rinaldi (2020, p. 237), pedagoga e gestora que vivenciou a abordagem Reggio Emília: “O aprendizado não ocorre de forma linear, determinada e determinista, em estágios progressivos e previsíveis; pelo contrário, é construído por meio de avanços simultâneos, paralisações e ‘recuos’ que tomam diversas direções.”

A abordagem Reggio Emilia se fundamenta no reconhecimento das múltiplas potencialidades da criança e tem como principal estratégia a Documentação Pedagógica, na qual os professores registram as etapas do processo de ensino-aprendizagem para reflexão e interpretação.

 

Leia também

+ Criatividade a favor de uma educação inclusiva de qualidade

Para Dahlberg, Moss e Pence (2019, p. 193), “A documentação pedagógica diz respeito principalmente à tentativa de enxergar e entender o que está acontecendo no trabalho pedagógico e o que a criança é capaz de fazer sem qualquer estrutura pré-determinada de expectativa e normas.”

Assim, não se trata de mais um documento meramente burocrático, desvinculado da realidade cotidiana, refere-se ao registro de uma prática de observação e de escuta do sujeito, da documentação do processo e não do produto, da ação do professor como um cientista que revisita seus registros junto ao estudante para avaliar a construção do conhecimento.

Essa prática se torna uma parte do ensinar e aprender por meio da reciprocidade pois, além de seu papel de apoio e de mediação cultural, se o educador sabe como observar, fazer a documentação e interpretação, poderá alcançar o seu mais alto potencial em sala de aula afirma Rinaldi (2020).

 

Saiba mais

+ Entre a educação especial e os frutos da educação inclusiva

Documentação pedagógica

A documentação pedagógica pode ser considerada o ponto de partida para a elaboração de um laudo pedagógico fundamentado e comprometido com a aprendizagem personalizada, um documento importante para promover um compartilhamento de informações sobre o desenvolvimento da criança com seus familiares e com os profissionais da saúde.

E se “Somos quem somos pelo que aprendemos e lembramos” (Kandel), a análise dos registros favorece a memória e a reflexão, além de contribuir para a construção da identidade do aluno. O laudo médico passará a cumprir seu papel de acrescentar informações e assegurar os direitos da criança.

“Aprender” significa criar memórias de longa duração, e quanto mais o educador combinar estratégias pedagógicas e estímulos emocionais aos registros do processo de aprendizagem, maiores as chances de garantir um aprendizado efetivo para todas e todos os estudantes, valorizando e respeitando suas especificidades.


Referências

DALHBERG G., MOSS P. e PENCE A., Qualidade na Educação da Primeira Infância: perspectivas pós-modernas, Porto Alegre: Penso, 2019

FANIZZI C, “A Educação e a Busca por um Laudo que Diga Quem És. 2017, Dissertação Mestrado, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 2017.

RINALDI, Carla, Diálogos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender, 12ªed., Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2020


Carina Zanini é neuropsicopedagoga e professora na rede pública do Estado de São Paulo, com especialização em Práticas de Ensino de Geografia e em Educação Especial e Inclusiva.

Este artigo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Instituto Rodrigo Mendes.

©️ Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5 Site externo. A cópia, distribuição e transmissão dessa obra são livres, sob as seguintes condições: você deve creditar a obra ao seu autor, sendo licenciada por Instituto Rodrigo Mendes Site externo e DIVERSA Site externo.

Compartilhe este conteúdo com seus amigos.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: