“A escola é um dos espaços mais prazerosos da vida”, diz atleta paralímpico
Medalhista em três Mundiais de Frame Running, Vinicius Krieger relembra a trajetória escolar e esportiva que o aproxima da Paralimpíada

Aos 20 anos, Vinicius Marques Krieger Quintino concilia a graduação em Educação Física com uma rotina de atleta paralímpico de alto rendimento. Medalhista em campeonatos mundiais, ele compete no Frame Running, modalidade do atletismo paralímpico, e tem como um de seus principais objetivos disputar os Jogos Paralímpicos de Los Angeles, em 2028.
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Vinicius estudou toda a Educação Básica em escolas comuns e guarda uma relação positiva com esse período. Para ele, a escola é um dos espaços mais prazerosos da vida e cumpre uma função relevante não apenas na aprendizagem, mas também na formação de pessoas que compreendam e respeitem as diferenças.
Ao olhar para o próprio percurso, o jovem chama atenção para o valor de poder experimentar, fazer escolhas e participar de diferentes espaços ao longo da vida.
Em relato ao DIVERSA, Vinicius relembra sua trajetória escolar, a presença do esporte desde a infância e os caminhos que o levaram ao atletismo de alto rendimento e ao Ensino Superior.
Crescer experimentando possibilidades
O esporte faz parte da minha vida desde criança. Aos sete anos, comecei a praticar judô e, depois, também fiz natação e joguei futebol, um dos esportes de que mais gosto.

Por causa de uma anóxia durante o parto, tenho paralisia cerebral, o que traz alguns comprometimentos relacionados ao equilíbrio, à fala e à coordenação motora fina. Meus pais tinham algumas preocupações, principalmente quando eu queria tentar uma atividade nova, mas sempre buscaram me apoiar.
Meu pai costuma contar uma história dessa época. Eu queria jogar futebol e, preocupado com a possibilidade de eu me machucar, ele perguntou se eu tinha certeza. Respondi que, se ele não me deixasse jogar, eu nunca saberia como era.

Aos sete anos, também escrevi uma espécie de contrato para os meus pais assinarem. Nele, dizia que seria atleta e que eles não poderiam me impedir de fazer as coisas que eu quisesse. Eles assinaram e, desde então, continuaram ao meu lado nas escolhas que fui fazendo.
Uma escola para todos
Desde pequeno, estudei em escolas comuns, onde pessoas com e sem deficiência aprendiam e conviviam. Ao longo dos anos, encontrei professores e outros profissionais da educação que acreditaram em mim e buscavam garantir minha participação nas atividades. Poder acompanhar as mesmas atividades que os colegas foi um ponto marcante da minha formação.

Lembro que, no Ensino Médio, por exemplo, alguns professores conversavam comigo para entender como poderiam organizar atividades e avaliações para que eu participasse e mostrasse o que estava aprendendo. Também me envolvia bastante nas propostas em grupo, momentos que fizeram diferença para me relacionar com as turmas.
A escola também influencia a maneira como as pessoas compreendem a deficiência. Falar sobre o tema, desconstruir estereótipos e combater atitudes capacitistas pode tornar o percurso escolar de muitas pessoas mais confortável e prazeroso.
Para mim, a escola é um dos espaços mais prazerosos da vida. Ter a oportunidade de estudar em uma escola comum contribuiu para o meu desenvolvimento cognitivo e pessoal e me preparou para outros momentos da minha trajetória.
A aprendizagem e minha relação com o esporte também influenciaram a decisão de qual curso escolher para a graduação. Hoje, estou no segundo ano de Educação Física e sigo conciliando os estudos com os treinos e as competições. Estar no Ensino Superior representa a continuidade de um caminho que começou ainda na escola e também me permite aprofundar conhecimentos em uma área que acompanha minha vida desde criança.
Um novo caminho no esporte paralímpico
Durante a minha vida, o futebol acabou abrindo uma nova possibilidade no esporte. Foi por meio dele que conheci o Comitê Paralímpico Brasileiro e, depois, com o meu treinador, tive contato com o Frame Running, modalidade na qual o atleta corre com o apoio de um equipamento com três rodas. Esse suporte é essencial principalmente por causa das dificuldades de equilíbrio e coordenação provocadas pela paralisia cerebral.

Logo me identifiquei com esse esporte e fiquei apaixonado, já que gosto especialmente da velocidade e da estratégia envolvidas em uma corrida. Com o apoio da minha família, consegui comprar meu próprio equipamento, conhecido como Petra, e fui evoluindo nos treinamentos e nas competições.
Das primeiras corridas aos Mundiais
Conforme fui avançando no Frame Running, as competições passaram a fazer parte da minha rotina. Hoje, treino normalmente de segunda a sexta-feira e, em alguns dias, de manhã e à tarde. A quantidade e a intensidade dos treinos levam em consideração as necessidades do meu corpo e o desempenho que o esporte exige.
Em 2023, aos 16 anos, participei do Mundial de Atletismo Paralímpico de Paris e conquistei a medalha de bronze nos 100 metros da classe T72. No ano seguinte, fui ao meu segundo Mundial, em Kobe, no Japão, e fiquei com a prata, uma das maiores conquistas da minha vida.

Em 2025, participei do meu terceiro Mundial, dessa vez em Nova Déli, na Índia, onde terminei os 100 metros na quinta colocação.
Chegar a essas competições envolve muito mais do que o momento da corrida. Meus pais continuam sendo essenciais, assim como meu treinador, meu clube, minha equipe médica e outras pessoas que fazem parte dessa preparação.
O sonho de Los Angeles 2028
Depois de três Mundiais, tenho um novo objetivo: buscar uma vaga nos Jogos Paralímpicos de Los Angeles, em 2028. Essa edição terá um significado especial para quem pratica Frame Running, porque a modalidade vai integrar o programa paralímpico pela primeira vez. Saber disso me deixa muito animado, pois o meu maior sonho é disputar uma Paralimpíada.

Quando olho para tudo o que vivi até aqui, vejo o quanto foi decisivo ter oportunidades e pessoas que confiaram em mim. Pude estudar, praticar diferentes esportes, seguir uma graduação e descobrir um caminho no atletismo.
Por isso, considero muito importante que outras pessoas com deficiência também possam ter essas vivências. Ter oportunidades de participar, fazer escolhas e descobrir aquilo de que gostamos ajuda a construir nossos próprios caminhos e a enfrentar os desafios da vida.