Como tornar as aulas de história mais inclusivas?

Experiências de educadores mostram caminhos para diversificar recursos, garantir acessibilidade e ampliar a participação dos estudantes

Criança em primeiro plano segura um globo terrestre durante atividade em sala de aula, enquanto outros estudantes estão sentados em círculo ao fundo.
Foto: Acervo Instituto Rodrigo Mendes

Pensar em inclusão na aula de história envolve garantir que todos os estudantes tenham acesso ao currículo e possam participar das atividades e aprender, considerando suas características e necessidades. Para isso, o planejamento pode prever diferentes recursos, linguagens e formas de participação, identificando e eliminando barreiras que possam surgir durante o processo educativo. 

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Nas aulas de história, essa diversificação pode ocorrer de muitas maneiras. Fotografias, documentos, mapas, objetos, relatos orais e memórias da comunidade, por exemplo, são fontes que oferecem diferentes caminhos para investigar acontecimentos, sujeitos e processos históricos. 

 Experiências de educadores reunidas pelo DIVERSA mostram como os princípios da inclusão na aula de história podem chegar à sala de aula. Do uso de histórias em quadrinhos à investigação da história do território, elas apresentam possibilidades para ampliar o acesso ao conhecimento e envolver os estudantes em sua construção. 

O que caracteriza a inclusão na aula de história? 

O ensino de história contribui para que crianças e adolescentes compreendam processos sociais, políticos e culturais, estabeleçam relações entre passado e presente e reconheçam a si próprios como sujeitos históricos. 

Para Douglas Ferrari, doutor em educação e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), essa área do conhecimento é essencial para a formação dos estudantes e para o exercício da cidadania. 

“Ao conhecê-la, refletimos sobre o nosso passado, o da nossa família e da comunidade, e começamos a entender nosso lugar no país e no mundo”, afirma. 

Na perspectiva da educação inclusiva, esse conhecimento deve estar acessível a todos. Isso significa garantir aos estudantes público da Educação Especial o acesso ao mesmo currículo oferecido aos demais, enquanto recursos e estratégias pedagógicas podem ser diversificados para eliminar barreiras à participação e à aprendizagem. 

inclusão na aula de história, portanto, não pressupõe reduzir conteúdos ou estabelecer objetivos de aprendizagem diferentes para determinados estudantes. O ponto de partida é reconhecer que todos podem aprender e planejar diferentes possibilidades para que isso aconteça. 

Essa perspectiva também está presente nos Cadernos Pedagógicos da Educação Especial Inclusiva, lançados pelo Ministério da Educação (MEC) em 2026, para apoiar professores e equipes escolares na organização do trabalho pedagógico e no desenvolvimento de práticas inclusivas. 

Para Douglas, o desenvolvimento de práticas inclusivas também passa pela eliminação de barreiras atitudinais. “O ponto principal para uma educação inclusiva é o interesse de professores, gestores e demais profissionais de educação para que ela aconteça. Precisamos ultrapassar a barreira vinda do indivíduo”, defende. 

Na prática, esses princípios podem orientar desde a escolha dos materiais utilizados até as maneiras pelas quais os estudantes participam das atividades e demonstram o que aprenderam. 

Inclusão escolar na aula de história: diversifique os recursos 

Para promover ensino de história inclusivo, livros didáticos e textos escritos não precisam ser os únicos caminhos para colocar os estudantes em contato com determinado conteúdo. Imagens, mapas, vídeos, objetos, histórias em quadrinhos e outras linguagens podem ampliar as possibilidades de acesso ao conhecimento. 

Uma experiência realizada durante o estágio supervisionado de estudantes do curso de história da Ufes mostra essa possibilidade. Em 2020, Douglas Ferrari e Miriã Lúcia Luiz, também professora da universidade, propuseram que os alunos desenvolvessem práticas de inclusão na aula de história nas escolas em que realizavam o estágio. 

Em uma turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no Espírito Santo, um dos estagiários utilizou histórias em quadrinhos da Turma da Mônica para trabalhar acontecimentos como a Independência do Brasil, a Proclamação da República e a chegada dos europeus à América. 

De acordo com Douglas, a escolha por um recurso com forte presença de imagens considerou a participação de estudantes surdos na turma. Os elementos visuais presentes nos quadrinhos ofereciam outras referências para a leitura e compreensão dos conteúdos, além de apoiar o trabalho do intérprete de Libras. 

“Ao final da experiência, o estagiário do curso percebeu que a estratégia também favoreceu outros estudantes. A combinação entre elementos escritos e visuais ampliou as formas de contato da turma com os conteúdos trabalhados”, conta o professor. 

O caso evidencia um princípio da inclusão na aula de história: diversificar recursos não significa necessariamente preparar uma atividade exclusiva para determinado estudante. Uma estratégia pensada para eliminar uma barreira encontrada por alguns pode criar possibilidades de aprendizagem para todos. 

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Inclusão na aula de história: materiais acessíveis 

Além de diversificar recursos, é necessário observar se as informações presentes neles estão acessíveis. Fotografias, mapas, ilustrações, vídeos e outros documentos visuais podem ser importantes fontes históricas, mas também podem criar barreiras quando parte da turma não consegue acessar as informações que apresentam, o que compromete a inclusão na aula de história. 

Essa preocupação apareceu em outra experiência realizada durante o estágio supervisionado da Ufes. Em uma escola de Serra (ES), o professor de história construía com os estudantes um livro sobre Jacaraípe, bairro onde a unidade estava localizada. 

O material reunia acontecimentos históricos, memórias de moradores e personagens da região. Para torná-lo mais acessível, Douglas Ferrari lembra que duas estagiárias do curso de história envolveram estudantes do 8º e do 9º ano na descrição das 177 imagens e desenhos presentes na publicação. As descrições permitiram que estudantes cegos tivessem acesso às informações presentes nas imagens, assim como auxiliou estudantes com dislexia e deficiência intelectual, exemplificando como o ensino inclusivo de história se traduz em prática. 

Nesse caso, a acessibilidade não foi tratada apenas como uma adequação realizada depois que o material estava pronto. Ela passou a fazer parte da própria atividade pedagógica, com os estudantes participando da construção de um recurso que poderia ser utilizado por diferentes pessoas. 

Para promover a inclusão, portanto, o professor pode observar os materiais já durante o planejamento: todos conseguem acessar as informações necessárias para realizar a atividade? Há barreiras que podem ser eliminadas antes mesmo de o recurso chegar à sala de aula? 

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Transforme o território em fonte de investigação histórica 

As fontes utilizadas nas aulas não precisam estar apenas nos livros, arquivos ou museus. Objetos guardados em casa, construções e outros elementos do cotidiano também permitem investigar mudanças e permanências e estabelecer relações entre conhecimentos históricos e o território, ampliando as possibilidades da inclusão na aula de história. 

Foi o que fez a professora de história Francilda Machado em “Meu Quintal Meu Campo de Pesquisa“, experiência realizada com uma turma de 6º ano da Escola Municipal Santa Bárbara, na zona rural de São Bento (MA). 

A escola recebe estudantes de diferentes comunidades da região, várias delas remanescentes de quilombos. A experiência surgiu em 2021, durante o período de ensino remoto provocado pela pandemia de Covid-19. Como grande parte da turma tinha dificuldade de acesso à internet, a professora buscou caminhos para promover o ensino de história inclusivo a partir dos espaços e recursos disponíveis no cotidiano dos estudantes. 

Em área externa rural, educadora conversa com estudantes que estão em roda e fazendo anotações em caderno. Todos usam máscara. Fim da descrição.
Foto: Trupe Filmes

Ao trabalhar fontes históricas, por exemplo, a professora pediu que os estudantes identificassem fontes existentes em suas próprias casas e escolhessem uma delas para produzir uma miniatura com materiais encontrados no quintal. 

Em outra atividade, relacionada aos sítios arqueológicos, eles demarcaram espaços para realizar pequenas escavações e encontraram pedaços antigos de porcelana, rochas, raízes e outros vestígios. As descobertas serviram como ponto de partida para discutir a história pessoal e da própria comunidade. 

O projeto “Meu Quintal Meu Campo de Pesquisa” foi um dos dez vencedores do Prêmio Educador Nota 10 de 2021, reconhecimento nacional a práticas pedagógicas transformadoras. 

Ensino de história inclusivo: amplie as formas de participação 

inclusão na aula de história também pode oferecer diferentes possibilidades de participação. Pesquisar, entrevistar, analisar fontes, escrever, produzir vídeos e compartilhar descobertas são alguns dos caminhos pelos quais os estudantes podem se envolver durante as aulas. 

Na Escola Presidente Tancredo Neves, em Boa Vista (RR), a professora de história Rutemara Florencio desenvolveu com estudantes do Ensino Médio o projeto “Histórias das Mulheres em Roraima“. 

A proposta surgiu da percepção de que as mulheres apareciam pouco nas narrativas históricas presentes nos materiais didáticos. Em vez de apenas apresentar novas personagens à turma, a professora convidou os próprios estudantes a investigar a participação de mulheres na construção da história do estado. 

Cerca de 90 estudantes participaram do trabalho. Eles pesquisaram a história de Roraima, ajudaram a selecionar as personagens, elaboraram roteiros e entrevistaram 41 mulheres de diferentes áreas e trajetórias. 

Fotografia em ambiente escolar ao ar livre onde quatro mulheres estão sentadas ao redor de uma mesa redonda de pedra. Três delas estão do lado esquerdo: uma jovem de blusa verde gravando com o celular, outra jovem de blusa estampada sorrindo e uma mulher de óculos e blusa rosa segurando um papel. Do lado direito, uma mulher vestindo farda escolar militar azul, boina vermelha e insígnias sorri para o grupo.
Créditos: Márcio Lavor/Nova Escola

Depois, analisaram os relatos relacionando as experiências das entrevistadas aos processos históricos estudados e produziram textos, sites e documentários para compartilhar as descobertas. 

Todos participaram do processo de criação, incluindo um estudante cego, que realizou entrevistas e escreveu uma das histórias apresentadas pelo projeto, reflexo do ensino inclusivo de história vivida por toda a turma. 

Ao final, os 90 estudantes haviam pesquisado a história de Roraima, entrevistado 41 mulheres e produzido textos, sites e documentários com as descobertas. A iniciativa foi uma das dez vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 de 2019.

Inclusão na aula de história: reflita sobre quem aparece nas narrativas  

A mesma pergunta que motivou o projeto de Roraima também orienta outras experiências de inclusão na aula de história, dessa vez sob a perspectiva racial. 

Foi a partir dela que a professora Angela Maria Vieira criou a iniciativa “Pretas Empoderadas” com estudantes do Ensino Médio, da Escola Dr. Jorge Lacerda, em Joinville (SC). 

Ao analisar com a turma o currículo e os materiais didáticos, professora e estudantes identificaram a predominância de narrativas eurocêntricas, brancas e masculinas. Dessa análise, eles questionaram onde estavam as mulheres negras na história e começaram uma investigação sobre suas trajetórias. 

Os estudantes pesquisaram mulheres negras brasileiras e de outros países, de diferentes períodos históricos e campos de atuação. Política, artes, ciência e liderança de quilombos estavam entre as áreas contempladas. 

Foto da ilustração de Suzanne Sanité Bélair feita por uma estudante. Na ilustração, Suzanne, uma mulher negra, veste um uniforme militar na cor azul com detalhes dourados. Fim da descrição.
Foto: Angela Maria. Fonte: arquivo pessoal.

Ensino inclusivo de história: leve o projeto além da sala de aula 

Para ampliar o alcance da pesquisa e documentar as etapas do projeto, os próprios estudantes criaram um perfil no Instagram chamado “escola.inclusiva”, uma forma de compartilhar as descobertas também com as famílias. 

A turma também visitou a Câmara de Vereadores de Joinville, onde entrevistou Ana Lúcia Martins, primeira mulher negra eleita vereadora na cidade, em 2020. Na conversa, a vereadora falou sobre representatividade, os desafios de atuar em um parlamento majoritariamente branco e masculino e a importância de um ensino descolonizado e plural. 

Ao todo, 26 mulheres foram homenageadas em uma exposição construída a partir das pesquisas da turma. Durante o percurso, os estudantes também discutiram racismo estrutural e institucional, representatividade, justiça social e equidade. 

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Do uso de quadrinhos e imagens descritas à escuta de mulheres e mulheres negras na história, essas experiências mostram o compromisso de construir a inclusão na aula de história em diferentes contextos. Para Douglas Ferrari e Miriã Lúcia Luiz, pesquisadores da Ufes, esse é o horizonte que projetos como esses apontam: “um ensino de história menos excludente e mais sensível aos diferentes percursos de aprendizagens”.

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