Educação inclusiva: como garantir que o direito não se fragmente pelo caminho?
O balanço do Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva revela que, embora o acesso seja uma realidade consolidada, a falta de formação docente ainda ameaça a trajetória escolar de estudantes com deficiência
O Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva, celebrado em 14 de abril, nos convida a fazer um balanço com quem está na linha de frente: educadores e gestores que, todos os dias, constroem na prática o que os marcos legais determinam. Se os dados já mostram que a escola comum é, de fato, o lugar do público da Educação Especial, é preciso manter a luz sobre a realidade e os desafios de quem faz isso acontecer.
O crescimento de estudantes com deficiência em classes comuns alcançou 93,5% em 2025, de acordo com o Censo Escolar, evidenciando a consolidação do acesso à escolarização em ambientes comuns. Já segundo o Panorama da Educação Especial 2025, no período de 2015 a 2024, observamos uma transformação expressiva no perfil dos estudantes que chegam à sala de aula: pessoas autistas passaram de 5,6% para 44,2% das matrículas desse público em toda a Educação Básica. Essa mudança convoca profissionais da educação ao aprimoramento contínuo de suas práticas para acolher e ensinar turmas cada vez mais heterogêneas.
Os resultados da trajetória escolar revelam o impacto do trabalho realizado nas escolas. A aprovação nos anos iniciais do Ensino Fundamental subiu de 74,5% para 91,5%, e o abandono recuou para 0,6%. Esses números têm rosto: eles são a expressão concreta do compromisso das equipes escolares com a permanência e o desenvolvimento de cada um dos estudantes público da Educação Especial.

Celebrar os avanços não significa ignorar o que ainda precisa mudar. O principal desafio está na formação: somente 6,4% dos professores regentes da Educação Básica têm formação continuada em Educação Especial, segundo o Panorama. Esse dado já é preocupante. Quando observamos os números por etapa, o quadro se torna ainda mais crítico.
A formação continuada cai progressivamente ao longo da trajetória escolar, seguindo o caminho inverso do que seria necessário para garantir uma inclusão sustentada do início ao fim da vida escolar. Na pré-escola, 9,0% dos professores têm essa especialização; nos anos iniciais do Ensino Fundamental, 8,8%. Nos anos finais, o percentual cai para 4,4%; no Ensino Médio, para 2,9%; e na educação profissional, chega a apenas 0,6%.
Nesse sentido, um estudante com deficiência que conclui os anos iniciais e avança para o Ensino Fundamental encontra, progressivamente, um corpo docente menos preparado para recebê-lo. A inclusão, sob essa ótica, vai se fragilizando ao longo do percurso, justamente quando o estudante mais precisa de suporte para concluir a sua formação com qualidade.
A escola comum já mudou. Esse é um fato que os dados confirmam e que educadores e gestores vivem no dia a dia. A pergunta que o Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva nos coloca é como garantir que a inclusão produza aprendizagem real, em cada etapa, sem que o direito se fragmente no caminho.
A resposta começa no incremento da formação continuada como política de Estado, não como iniciativa isolada. Além disso, passa pelo reconhecimento de que os resultados alcançados até aqui são produto do trabalho de quem está na escola e de que esse esforço merece as condições adequadas para ir mais longe.
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Karolyne Ferreira é coordenadora de advocacy do Instituto Rodrigo Mendes. Possui bacharelado e licenciatura em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em engenharia civil e urbana pela Escola Politécnica da USP. É responsável por promover a agenda da educação inclusiva, além de acompanhar e articular em rede com outras instituições pautas que foquem na melhoria das políticas públicas. Membra da Coalizão Brasileira pela Educação Inclusiva.
