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Escritor com deficiência lutou por seu direito à educação inclusiva e hoje conscientiza sociedade

Formado em pedagogia, José Roberto Camargo Lobato escreve para conscientizar a sociedade sobre educação para todos após sua experiência em escola especial

Sou escritor de literatura infantil. Aos dez anos de idade, comecei a escrever histórias com personagens animais. Aos 15, publiquei o meu primeiro livro e hoje tenho três livros publicados.

Quando eu era criança, as escolas públicas não aceitavam a matrícula de estudantes com deficiência e só uma escola especial particular me aceitou.

Eu nasci com paralisia cerebral e, quando eu era pequeno, a primeira escola que estudei foi uma escola especial onde havia crianças com diferentes deficiências. Um dia, eu estava conversando com um grupo de amigos e eles falaram que queriam muito estudar em uma escola comum para conhecerem as outras crianças e as professoras das escolas.

Em bancada fora da sala de aula, dois estudantes sentados lado a lado escrevem em cadernos apoiados em seus colos.
Foto: Norma Mortenson. Fonte: Pexels.

Foi então que uma amiga minha que utilizava cadeira de rodas contou que já tinha estudado em uma escola municipal, mas sofreu preconceito por ser pessoa com deficiência e negra. Quando ouvi a história dela, eu coloquei no meu coração a bandeira de luta da pessoa com deficiência.

 

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Primeiro livro

Voltando para casa, fiquei pensando em como poderia provar para a sociedade que nós poderíamos conviver com outras crianças em uma escola.

Pensei durante muito tempo e tive a ideia de escrever um livro infantil para mostrar que uma pessoa com deficiência também tem capacidade de aprendizagem nas escolas comuns.

Produzi um livrinho na minha máquina de escrever e falei para minha mãe que eu queria publicá-lo. Ao procurar uma gráfica, ela conheceu a Academia de Letras de Campo Grande e eles nos deram apoio para publicar o livro “Os Três Animais”.

Foto de 2008. José Roberto está atrás de mesa com vários exemplares de seus livros empilhados. Ele está de camisa social e gravata e sorri.
Fonte: arquivo pessoal.

Estudei em uma escola especial até o quarto ano do ensino fundamental, mas, do quinto ano até o ensino médio, optei por ir para uma escola comum. A escola já era acessível e, com exceção de um colega, minha relação com os demais estudantes era ótima, além de os professores serem atenciosos.

Convivência com a diversidade

Quando adolescente, estudei em uma escola comum particular e havia muitas barreiras à minha plena participação, principalmente barreiras atitudinais por pensarem que as pessoas com deficiência não tinham habilidades e possibilidade de conviver normalmente com os demais estudantes.

Mas isso não me impediu de estudar o que eu queria. Embora tenha enfrentado muitas barreiras, a convivência com a diversidade e com outros estudantes com e sem deficiência me fez perceber que eu poderia fazer faculdade. É muito importante para o desenvolvimento de toda pessoa interagir com outras diferentes dela.

Formação em pedagogia

Ao sair do ensino médio, fiz o vestibular para o curso de pedagogia e passei. Escolhi esse curso para entender melhor as crianças, pois decidi trabalhar com literatura infantil. Um grande incentivo que tive para ser autor foi quando meu segundo livro, “O Mundo dos Animais”, foi aprovado na seleção do Fundo Municipal de Incentivo à Cultura. Na ocasião, tive oportunidade de doar 500 exemplares para as escolas municipais de Campo Grande (MS).

Infelizmente, também na faculdade enfrentei barreiras atitudinais. Por conta do preconceito do corpo docente, preferi mudar de instituição.

José Roberto sorrindo em foto de formatura. Ele utiliza beca preta e branca e segura canudo azul.
Fonte: arquivo pessoal.

Acredito que a formação continuada de professores e a participação em palestras e seminários sobre diversidade sejam o caminho principal para que a capacidade de todos os estudantes seja respeitada e para que suas habilidades sejam desenvolvidas sem preconceito.

Na Faculdade Mato Grosso do Sul, segunda instituição que procurei, fui muito bem recebido pela coordenadora de pedagogia e pelo diretor. Eles adaptaram a faculdade com rampas e disponibilizaram toda a acessibilidade arquitetônica necessária, além de flexibilidade nas atividades como, por exemplo, mais tempo para fazer as provas, porque levo um tempo maior para escrever.

 

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Na época, fiz estágio em escolas municipais e estaduais e sempre fui muito respeitado e querido pelas crianças. Depois disso, trabalhei dando aulas particulares para alunos com dificuldades de aprendizagem e, atualmente, sou escritor e tenho meu escritório em casa.

Apesar de todos os percalços, minha história é mais um exemplo de sucesso de como a diversidade colabora para o desenvolvimento de pessoas com e sem deficiência e enriquece o ambiente de aprendizado, pois um aprende com o outro.

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