Os desafios de ser uma mulher com deficiência intelectual

Fotógrafa e ativista, Jéssica Mendes de Figueiredo celebra conquistas e lembra as barreiras enfrentadas e a importância do apoio da família e dos educadores

Imagem de um pássaro voando num céu azul com nuvens brancas. Fim da descrição
“Esta foto, para mim, é símbolo de reflexão. Ela traz uma sensação de calma e paz. E lembra meu reconhecimento profissional, o quanto de potencial eu tenho”, diz a fotógrafa Jéssica. Crédito: Jéssica Mendes de Figueiredo

Como mulher com deficiência, enfrentei muitos desafios até chegar no lugar em que estou hoje: de fotógrafa, ativista, conselheira da Escola de Gente, palestrante e pessoa que trabalha na Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência há mais de dez anos.  

Na escola, sofri muita discriminação e preconceito. Com isso, vivi momentos de muita tristeza. O capacitismo (discriminação e preconceito contra a pessoa com deficiência) apareceu de várias maneiras: nas falas dos colegas e de alguns professores que tentavam me diminuir e nas ações para me excluir das participação nos grupos ou de outras atividades.  

E ainda tinha o capacitismo oculto: as pessoas não falavam nem praticavam exclusão, mas eu sentia que não queriam uma aproximação. 

Outro grande desafio na escola foi lidar com disciplinas como matemática, física e química. E também com a falta de acessibilidade nas aulas, nas atividades e nas avaliações. Não havia, por exemplo, tempo adicional e nem linguagem simples nas perguntas das provas. 

Na faculdade, as principais questões a enfrentar foram a discriminação, a grande quantidade de trabalhos e de conteúdo e a organização da agenda.  

Na vida profissional, a barreira mais frequente também foi o capacitismo, que começou com a dificuldade de entrar no mercado de trabalho. Os empregadores não acreditam que pessoas com deficiência intelectual podem desempenhar um trabalho de qualidade. 

Finalmente, consegui superar o preconceito e ser indicada para trabalhar na Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, em 2013. 

Hoje, conquistei o meu espaço. Fotografo as reuniões e os eventos da secretaria e sou validadora de textos em linguagem simples, além de desempenhar outras funções. 

Demorou bastante para que eu fosse reconhecida como fotógrafa pela sociedade em geral. Sempre houve pessoas que colocavam em dúvida meu talento.   

Para superar todos esses desafios, contei com o apoio de muitas pessoas. O mais importante foi o da minha família, que sempre esteve perto e presente. Eles sempre acreditaram em mim e no meu potencial, uma confiança essencial para eu seguir adiante. Foram eles que me disseram para perseverar nos estudos.   

Contei também com o suporte de educadores que acreditavam na educação inclusiva e no meu potencial, como o professor de História da Arte Thiago, que me ajudou a entender a disciplina por meio da fotografia. Ele também me explicou a origem e a história da fotografia.  

Os desafios que enfrentei tornaram a minha jornada mais difícil, mas também ajudaram a me tornar a mulher que sou hoje: empoderada, feliz pelas realizações e que sabe lutar por um mundo mais inclusivo.   

  

Sobre o autor

 

Mulher branca, com cabelos escuros até o ombro. É uma pessoa com síndrome de Down e está vestindo uma blusa de frio coral. Usa um colar com pingente de coração. Fim da descrição

Jéssica Mendes de Figueiredo tem 32 anos e é uma pessoa com síndrome de Down. Fotógrafa formada pelo Instituto de Educação Superior de Brasília, trabalha na Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência há mais de dez anos. Ativista, é conselheira da Escola de Gente – Comunicação em Inclusão, uma organização não-governamental que atua para que leis e políticas públicas se transformem em práticas inclusivas.  

 

 


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