Autismo e educação: a importância de respostas humanizadas

A tentativa de definição de autismo surgiu pela primeira vez com o psiquiatra Leo Kanner, em 1940. Esse entendimento foi evoluindo em função de observações baseadas em investigações e, em 1980, os diferentes domínios de perturbação do transtorno foram elencados pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais III (DSM III), sendo eles: alterações e déficit na capacidade de relacionar-se com os outros, comprometimento no uso da linguagem como forma de comunicação social e presença de estereotipias e comportamentos repetitivos. Apesar dessas áreas de prevalência, o autismo não é, todo ele, igual em suas características, podendo apresentar-se sob a forma de autismo/deficiência mental, autismo/mutismo e autismo/déficits sensoriais. As teorias psicogenéticas e biológicas, por si só, não devem corresponder a uma resposta única para cada indivíduo.

Embora o transtorno do espectro autista (TEA) inclua vários patamares, ele tem como denominador comum alguma disfunção nos domínios do comportamento, da interação social e da comunicação. Essas características, quando em contexto educativo, podem gerar algum desconforto. Isso acontece, em geral, devido ao desconhecimento e pode, portanto, ser perfeitamente superado.

Tenho um aluno com autismo, e agora?

Uma primeira abordagem ao estudante com autismo deve consistir na interpelação a nós mesmos – na qualidade de educadores – do que nos propomos, podemos e queremos ensinar. Mediante as possibilidades emergentes dessas questões, é preciso estabelecer uma linha metodológica que proponha como ensiná-lo com base no conhecimento prévio de suas dificuldades e potencialidades. O princípio desse processo deve ser o de que ensinar é possível e o de que podemos avançar até a constatação da mudança cognitiva e aquisição acadêmica por parte do aluno.

Infelizmente, não raras vezes, constatamos o forte desinvestimento de que essas crianças e adolescentes são alvo. Observados como “coitadinhos”, esses estudantes poucas vezes têm seus nomes referidos em sala de aula, seja para chamar a atenção ou para elogiar comportamentos e sucessos. Mas, como lembra Vitor da Fonseca, professor de educação especial da Universidade Técnica de Lisboa, a inclusão “é uma preocupação humana, a necessitar de respostas humanizadas que obviamente se refletem e se refletirão no presente e no futuro do ser humano”.

Embora se tenham feito progressos no âmbito da pedagogia nos últimos anos, tendo muitos autores se interessado pela educação especial, ela parece ter se tornado demasiado didática (muito ao estilo do como fazer), e não tanto orientada por ideias que carreguem consigo o ato de ousar ir por vias que priorizem olhar o outro em suas singularidades de vida, de personalidade e de ser. João dos Santos, psicanalista e pedagogo português, acreditava que “não há aprendizagem sem que a criança possa realizar, em cada momento da sua evolução, a integração dos conhecimentos que são acessíveis ao seu grau de maturação, de compreensão e de sensibilidade; é necessário que o que se quer ensinar às crianças lhes interesse”.

Esse raciocínio sugere a procura de uma metodologia que seduza e envolva no processo de aprendizagem o seu principal alvo, os estudantes, estimulando neles o sentimento de pertencimento a um grupo, aumentando sua autoestima, o que por si só, constitui um forte fator para a aprendizagem.

Trabalho emocional

É desta envolvência que os alunos com transtorno do espectro autista (TEA) necessitam: a priorização de valores humanos que mostrem a importância da escola nos processos psicológicos dos indivíduos. Há toda a influência de contextos de socialização que não são considerados pela maioria das reformas escolares, que acabam por ignorar a importância do afeto e não reconhecem como central na determinação do profissionalismo do docente o trabalho emocional de dar esse suporte. No entanto, afeto não é apenas um pré-requisito essencial para a aprendizagem, é ele próprio uma forma de aprendizagem.

“A educação só faz sentido a partir de um relacionamento individualizado que promova a passagem progressiva da criança para a fase de integração ao grupo e à sociedade”, nos lembra João do Santos. Ora para incluir é necessário fomentar ambientes de sala de aula produtivos que se caracterizem por um clima geral em que os alunos revelem sentimentos positivos sobre si, os colegas e a turma, de modo que todos adquiram competências interpessoais.

 

Conceição Catalão é licenciada em história pela Universidade Clássica de Lisboa e possui especialização e pós-graduação em educação especial. Tem mestrado em observação e análise da relação educativa e é doutora em educação intercultural e multicultural pela Universidade de Huelva, da Espanha.

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