A importância de se sentir competente

Como a percepção que o(a) estudante tem de si pode favorecer ou prejudicar o seu processo de aprendizagem

“Todos podem aprender”. Essa é uma frase que deve embasar o trabalho de todos os profissionais da educação. Trata-se de uma certeza fundamental, que nos ajuda a recobrar o foco quando tudo o mais parece dispersar nossas energias. Todos os nossos estudantes, sem exceção, podem aprender, e é essa certeza que sustenta práticas educativas inclusivas, proporcionando momentos transformadores para tantas pessoas.

Porém, há um aspecto importante que às vezes esquecemos de considerar. Ainda que eu saiba que meus alunos podem aprender, é fundamental que eles também saibam e acreditem nisso. Caso contrário cria-se uma barreira que pode prejudicar o processo de ensino-aprendizagem. Em sala de aula é algo que fica claro: se o(a) aluno(a) não se sente competente, é muito difícil mobilizá-lo(a).

 

Sobre fundo preto, criança assopra dente de leão. Fim da descrição.
Créditos: Sergio Luiz Damiati

Percepção de si e autoconceito acadêmico

Quando abordo esse assunto, o Lucas* sempre me vem à lembrança. Ele foi um aluno maravilhoso para quem eu tive o prazer de ministrar aulas de geografia em 2017. Naquele início de ano letivo, perguntei para a sua turma do 9º ano o que cada um(a) pensava da disciplina (se gostava, o que já tinha aprendido, o que gostaria de aprender etc.). Lucas ficou ansioso, queria dizer algo, mas não sabia como. Depois de um tempo, já com mais segurança, pediu a palavra: “Prô, não é que eu não gosto de Geografia. Eu ODEIO mesmo”.

Todo professor já se deparou com alunos que não gostam da sua matéria. É normal ter preferências, mas odiar um componente curricular é algo diferente. Nesses casos, o motivo do ódio muitas vezes não é o gosto pessoal, mas sim um problema anterior. Talvez o Lucas sentisse dificuldade para fazer atividades. Talvez tivesse uma relação ruim com outros professores de Geografia. Talvez tenha passado por outras experiências que o marcaram negativamente.

Conforme fui observando Lucas durante as aulas o problema ficou evidente. Ele não queria participar das atividades por medo de errar, de falhar, de não aprender. Claro que esse medo era mascarado por preguiça, sono e desinteresse. Mas por trás disso estava um autoconceito acadêmico negativo. Eu sabia que o Lucas podia aprender – mas ele mesmo ainda duvidava disso.

O exemplo de Lucas é ilustrativo de como uma autoimagem negativa pode prejudicar a aprendizagem. Todos nós criamos uma imagem de quem somos. Elaboramos mentalmente uma representação nossa que impacta a forma como agimos no mundo. Crianças e adolescentes no contexto escolar constroem uma autoimagem de estudante, e isso influencia como eles lidam com os desafios da escola.

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A construção desse entendimento de si é feita aos poucos, a partir da seleção e interpretação de informações que estão ao nosso redor. Assim, a criação do autoconceito acadêmico (a maneira como eu me percebo como estudante) é um processo dinâmico, influenciado pelas nossas relações com outros sujeitos. As interações sociais com familiares, amigos, colegas de classe, professores etc. ajudam o estudante a construir uma autoimagem e contribuem para fortalecer ou diminuir sentimentos de competência. Como identificaram Prince e Nurius:

“Jovens obtém significados a partir de experiências relacionadas à escola, e usam essas experiências na criação de seus autoconceitos acadêmicos. Experiências consistentemente negativas ou positivas na escola, incluindo experiências com professores e colegas de turma, tornam-se tijolos na construção desse autoconceito acadêmico […].”

Lucas, após passar por experiências negativas em outras aulas de Geografia, desenvolveu um autoconceito negativo: segundo sua percepção, ele era um estudante sem competência para aprender. Por isso, deixava de participar das aulas, evitando passar por novas frustrações. Afinal, ele já sabia que não conseguiria aprender. Para que se esforçar?

Consequências para a aprendizagem

A percepção de si impacta a vida dos indivíduos de diversas formas. Os estudantes, por exemplo, fazem projeções a partir dos seus autoconceitos, tentando prever seu desempenho escolar. Essa expectativa criada pelo(a) estudante influencia suas atitudes, o que pode ser um problema. Como aponta Hattie:

“[…] essas expectativas de sucesso [que às vezes estão abaixo daquilo que o aluno é capaz de atingir] podem se tornar uma barreira para alguns estudantes, pois é possível que eles atinjam apenas a expectativa que eles já tinham sobre as suas habilidades”.

Alunos e alunas com autoconceito acadêmico positivo, assim, têm altas expectativas para si, e tendem a se sair melhor do que seus colegas. Ou seja, o seu autoconceito está diretamente relacionado ao desempenho escolar. Experiências de sucesso na escola fortalecem sentimentos de competência, contribuindo para atitudes mais proativas.

Alunos com uma autoimagem positiva também têm objetivos acadêmicos mais ambiciosos e buscam ajuda quando sentem necessidade. Conseguem ainda desenvolver estratégias para lidar com desafios que surgem na escola. Para eles, uma nota ruim é um obstáculo temporário, diante do qual é possível desenvolver estratégias para superar o problema.

Já estudantes com autoconceito acadêmico negativo apresentam dificuldades em acreditar que são capazes. Nesses casos, uma nota ruim é confirmação da sua incompetência, e não um problema temporário. Uma nova experiência negativa não é apenas um obstáculo, mas uma comprovação da sua incapacidade. A frustração é tão grande que forma uma barreira, e, mesmo que afirmemos que todos podem aprender, essa informação simplesmente não é interiorizada. Para esse(a) estudante, uma coisa fica cada vez mais clara: Ele(a) não consegue aprender.

Muitas experiências negativas e impactantes podem se acumular e ter esse efeito. Como raramente essa autoimagem é confrontada, as novas experiências escolares tendem a reforçar a percepção negativa – e, pouco a pouco, o(a) aluno(a) vai se distanciando da escola.

Então, o que fazer?

Precisamos desconstruir autoimagens negativas. Quando identificamos alunos com essa característica, devemos mediar o sentimento de competência. Assim conseguimos uma abertura para que a aprendizagem possa de fato ocorrer. Ou seja, é necessário mostrar que todos podem aprender. Felizmente, Prince e Nurius verificaram que:

“Autoconceito acadêmico, como parte do autoconceito do indivíduo, é maleável e suscetível a intervenções que podem ser realizadas no contexto escolar”.

Podemos então criar experiências acadêmicas positivas, fortalecendo o sentimento de competência dos nossos estudantes. Para o caso de alunos que já possuem uma autoimagem negativa, vale a pena elaborar atividades que estão ao seu alcance, para que se percebam capazes. Isso pode ajudá-los a confrontar sua autoimagem negativa, eliminando barreiras que dificultam o aprendizado. Também é essencial mediar que o erro faz parte do processo de aprendizagem, e que podemos utilizar diversas estratégias para superar obstáculos – na escola e na vida.

Lucas, lá em 2017, passou por esse processo. Depois de algumas mediações, começou a sentir-se cada vez mais capaz. Aprendeu muito em Geografia e passou a adorar a matéria. Mais importante ainda, descobriu que podia aprender o que quisesse – como todo mundo.

Referências

FEUERSTEIN, R., FEUERSTEIN, R. S., FALIK, L. H. Beyond smartermediated learning and the brain’s capacity for change. New York: Teachers College Press, 2010. 

HATTIE, J. Visible learning: a systhesis of over 800 meta-analyses relating to achievement. New York: Routledge, 2009. 

PRINCE, D., NURIUS, P. S. The role of positive academic self-concept in promoting school successChildren and Youth Services Review 43, 2014. 


Mariana Martins Lemes é mestre em Geografia Humana pela Universidade de São PauloDe 2014 a 2019 atuou como professora de Geografia na rede estadual de São Paulo, onde desenvolveu o projeto Agricultura no Brasil: o que vamos colher no futuro?, ganhando o Prêmio Educador Nota 10 em 2019. Atualmente, é técnica da equipe curricular de Geografia na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, e Embaixadora da Teach the Future Brasil.

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