Profissional de apoio escolar: como o vínculo e a autonomia se constroem na rotina

Do portão à sala de aula, uma profissional de apoio conta como acompanha estudantes sem deixar de dar espaço para que façam por conta própria.

Crianças sentadas em roda no chão de uma sala escolar, ao lado de uma mulher adulta. Ao fundo, há cadeiras e uma cadeira de rodas azul.
Acervo IRM/Paulo Fehlauer

O que faz um profissional de apoio escolar? Ele tem um papel pedagógico? Como esse trabalho acontece no dia a dia? Quais são os seus limites de atuação? Essas são algumas das dúvidas recorrentes sobre esse serviço da Educação Especial, e é comum nas milhares de escolas brasileiras em que ele atua. Em 2024, o país contabilizava mais de 180 mil profissionais de apoio escolar, segundo o Painel de Indicadores da Educação Especial do Instituto Rodrigo Mendes. 

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A Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e o Decreto nº 12.686/2025, que instituiu a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, preveem a oferta do profissional de apoio escolar quando necessário aos estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades ou superdotação.

Entre as atribuições do profissional de apoio escolar estão o auxílio à locomoção, à higiene, à alimentação, à interação social, à comunicação e ao uso de recursos de acessibilidade. O planejamento e o ensino são atribuições do professor regente, enquanto o Atendimento Educacional Especializado (AEE) deve ajudar a eliminar barreiras à aprendizagem. 

Para mostrar como essa atuação acontece no cotidiano, conversamos com Priscila Lanzi, que trabalhou durante 11 anos como profissional de apoio escolar na rede municipal de ensino de Mogi Guaçu (SP). A partir de situações que vivenciou, ela conta como acompanhava os estudantes em diferentes momentos da rotina.

Mulher de óculos auxilia uma criança durante uma refeição, enquanto segura um garfo com alimentos sobre um prato. A criança está sentada à mesa e leva a mão à boca.
Uma das rotinas do profissional de apoio escolar é acompanhar a alimentação. Aqui, Priscila auxilia um estudante na hora do almoço. Crédito: Acervo pessoal/ Priscila Lanzi

Conhecer cada estudante e construir vínculo

Construir um vínculo com o estudante é um dos momentos mais importantes no trabalho do profissional de apoio escolar. Em muitos casos, a troca de escola, de profissional ou de etapa de ensino pode representar um desafio para essa construção.  

Priscila viveu essa experiência com Heloísa, uma estudante autista e com paralisia cerebral que passou da Educação Infantil para o 1º ano do Ensino Fundamental. Heloísa utilizava cadeira de rodas e precisava de apoio nos deslocamentos, na higiene e em alguns momentos da alimentação e dos cuidados pessoais. A mudança trouxe uma nova rotina, com mais atividades em livros e menos oportunidades de brincar, além da presença de uma nova profissional de apoio escolar. 

“Cada criança tem seu jeito. Com Heloísa, foi mais difícil construir esse vínculo, porque ela ainda não tinha estabelecido uma relação de confiança comigo nem com a professora regente”, conta Priscila. 

Para construir essa relação, Priscila buscou conhecer melhor as preferências da menina, compartilhadas durante o estudo de caso feito pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE). Na ocasião, a mãe contou que Heloísa gostava de músicas, fantoches e imagens. Com essas informações, a profissional passou a recorrer a brincadeiras, palmas e canções para se aproximar da estudante. 

“Fui brincando muito com ela, batendo palma, cantando, porque, na fisioterapia, ela já é estimulada com musicoterapia, com tudo o que tem movimento”, relata Priscila.

Segundo Priscila, a relação com Heloísa se fortaleceu ao longo do ano, o que possibilitou uma convivência positiva e a oferta dos apoios necessários. 

O que faz o profissional de apoio escolar?

Ao contar sobre o acompanhamento de Heloísa, Priscila descreve situações que fazem parte da rotina de um profissional de apoio escolar, que pode variar conforme as necessidades do estudante e o tempo que ele permanece na escola. 

Em uma área externa, um homem de calça azul e moletom marrom claro empurra a cadeira de rodas de uma mulher. Ambos estão de costas, próximos a uma quadra de esportes. Fim da descrição.
Auxiliar a locomoção dos estudantes é uma das atribuições do profissional de apoio. Crédito: Freepik

Logo pela manhã, Priscila levava a cadeira de rodas até o portão, onde a mãe colocava Heloísa. Em seguida, acompanhava a estudante até o pátio, onde a turma se reunia para cantar o hino nacional ou uma música de entrada, antes de seguir para a sala de aula. 

Durante as atividades em grupo, Priscila ficava ao lado de Heloísa para apoiá-la na participação com os colegas. A profissional também observava como a estudante acompanhava o que acontecia na sala e compartilhava essas observações com a professora regente, que as considerava para identificar as condições necessárias à participação da menina. 

Os deslocamentos também exigiam atenção. Priscila e a professora regente conversavam sobre a disposição das mesas e a necessidade de manter caminhos acessíveis para a cadeira de rodas, permitindo que Heloísa chegasse ao bebedouro, ao banheiro e à saída da sala. 

“Como que a gente vai tirar a Heloísa daqui? Como que ela vai se movimentar na sala para ir tomar uma água, para sair, para ir ao banheiro?”, lembra Priscila. 

Na oferta de água, Priscila também buscava incentivar a autonomia de Heloísa. A estudante conseguia levar o copo ou a garrafa à boca sem ajuda. “Quando ela estava com sede, eu dava o copo na mão dela para que bebesse sozinha”, conta Priscila. Ao oferecer o copo dessa forma, a profissional respeitava a autonomia da estudante, sem fazer por ela o movimento que já conseguia realizar. 

Na alimentação, Priscila acompanhava Heloísa de perto e a ajudava quando necessário. No início, conversou com a mãe e a professora regente para entender como oferecer alguns alimentos, como carne e milho, e quais cuidados deveria ter para evitar engasgos. Também observava as reações da estudante e respeitava seus sinais de recusa. “Quando ela não queria comer, ela travava a boca e eu já sabia respeitar”, conta.

Profissional de apoio escolar: acompanhar sem tirar a autonomia

O suporte oferecido pelo profissional de apoio escolar pode mudar ao longo do tempo, conforme as necessidades do estudante e suas possibilidades de desenvolver autonomia. 

Priscila conta que acompanhou um estudante autista que, no início, precisava de ajuda para usar o banheiro e fazer a higiene. Com o tempo e o apoio da família, ele aprendeu a utilizar o banheiro sozinho, e a atuação da profissional passou a ser mais de acompanhamento e orientação. 

Mesmo depois que o estudante evoluiu nesse processo, Priscila continuava por perto para orientá-lo e garantir sua segurança, sem fazer por ele o que já conseguia fazer com autonomia. 

Para a profissional de apoio escolar, estar presente também significa reconhecer as capacidades de cada criança e oferecer ajuda sem impedir suas iniciativas. “Você fica junto, orientando, monitorando, para que ela consiga fazer tudo corretamente. Mas não pode ficar muito em cima da criança”, diz.

Observação, combate ao capacitismo e formação

A observação também faz parte do trabalho do profissional de apoio escolar, especialmente quando o estudante não se comunica pela fala. Priscila explica que é preciso acompanhar os gestos e movimentos da criança e prestar atenção às interações e às situações que acontecem ao seu redor. Segundo ela, esse olhar ajuda a perceber como a criança participa da rotina, se está confortável e se alguma situação exige atenção. As observações também podem ser compartilhadas com a professora regente e registradas em relatórios. 

“Quando a criança não consegue se expressar, mas você sabe que ela tem capacidade para fazer, a observação é a melhor coisa a se fazer”, afirma. 

Essa perspectiva também passa pela forma como os profissionais enxergam as capacidades dos estudantes com deficiência. No entendimento de Priscila, ser anticapacitista é fundamental para que o profissional de apoio escolar exerça suas atribuições sem subestimar as capacidades da criança, respeitando seu desenvolvimento e sua autonomia. “Esse estudante precisa interagir, conviver e aprender e qualquer pessoa que esteja ao seu lado precisa acreditar em seu potencial”, afirma a profissional. 

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Essa compreensão contribui para que o apoio oferecido respeite as possibilidades de cada estudante e favoreça sua participação nas experiências escolares, sem substituir ações que ele já consegue realizar por conta própria. 

De acordo com Priscila, o caminho para um olhar anticapacitista e compreender o seu trabalho passa pelas formações. A profissional conta que a Secretaria Municipal de Educação oferecia encontros formativos nos quais eram abordados a legislação e os limites de atuação do profissional de apoio escolar. “Esse conhecimento ajudava a compreender quais cuidados cabiam à função e em quais situações era necessário respeitar as atribuições de outros profissionais.”, diz.  

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Mitos e verdades sobre o profissional de apoio escolar

“É preciso ter laudo para o estudante ter direito ao profissional de apoio.”
Mito. A indicação parte do estudo de caso e da avaliação da equipe da escola, e não de um documento isolado.

“O apoio pode ser necessário só em alguns momentos da rotina.”
Verdade. Dependendo do estudo de caso, ele pode acontecer em situações específicas, como na alimentação ou nos deslocamentos, e não necessariamente em todo o período.

“O profissional só cuida de higiene e alimentação.”
Mito. Além desses cuidados, ele pode apoiar a locomoção, a interação social, a comunicação e o uso de recursos de acessibilidade, conforme as necessidades do estudante.

“Ele atua também fora da sala de aula.”
Verdade. O apoio se estende a momentos como o recreio, as atividades coletivas e os deslocamentos, sempre que o estudante precisar.

“O profissional de apoio escolar ensina e adapta as atividades.”
Mito. O planejamento e o ensino são atribuições do professor regente, enquanto o AEE deve ajudar a eliminar barreiras à aprendizagem.

“Nem todo estudante com deficiência precisa do profissional de apoio.”
Verdade. Apesar de ser um direito, o apoio é indicado só a quem precisa e deve favorecer a autonomia do estudante.

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