
“Aqui não é lugar para você”. Essa é a frase que Renan Rodrigues Souza mais ouviu no decorrer da década de 1990, quando era estudante da Educação Básica. Ele conta que, por ser uma pessoa negra que nasceu com paralisia cerebral, enfrentou diversas barreiras para acessar a escola comum. “Ser preto e pessoa com deficiência no Brasil é lutar o tempo todo por acesso. Só com muito apoio familiar e emocional é possível persistir e existir em meio às adversidades”, afirma Renan, hoje com 43 anos, mestre em Educação Inclusiva pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e professor de Matemática no CEU EMEF Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.
A trajetória do professor é marcada pela intersecção entre raça e deficiência, fatores que influenciaram sua experiência tanto como estudante quanto como educador. Ele observa que muitos dos obstáculos que enfrentou continuam presentes nas escolas brasileiras, como a distância entre o modelo educacional vigente e as necessidades reais dos estudantes, a falta de formação consistente para lidar com a diversidade e a dificuldade das instituições em flexibilizar práticas pedagógicas às especificidades de cada território.
Em entrevista ao DIVERSA no mês da Consciência Negra — celebrado em 20 de novembro —, Renan destaca a importância de compreender como racismo e capacitismo se cruzam e reforçam desigualdades, e defende que a construção de uma escola inclusiva exige ações cotidianas, e não apenas iniciativas pontuais ou restritas às efemérides. Para ele, práticas aparentemente simples, como a valorização da identidade negra e o cuidado com o cabelo crespo, fazem parte de um compromisso pedagógico que precisa ser permanente e coletivo.
Confira, a seguir, a entrevista completa, em que o professor também aborda o papel do apoio familiar no enfrentamento de barreiras, a necessidade de que estudantes — negros ou não — se posicionem contra o racismo e a urgência de consolidar uma educação que reconheça e combata as múltiplas formas de exclusão presentes no cotidiano escolar
Como a intersecção entre ser uma pessoa negra e uma pessoa com deficiência moldou sua trajetória na Educação Básica? Quais foram as principais barreiras que você precisou enfrentar nesse período?
No Brasil, os fatores de exclusão sempre se somam. A nossa pirâmide de dificuldades é acumuladora, e quem reúne características historicamente excluídas sofre em dobro. No meu caso foi assim: sofri por ser negro e isso se potencializou por também ser uma pessoa com deficiência. Neste país, ser uma pessoa com deficiência é ter a certeza de que o Estado não oferecerá todas as ferramentas necessárias para o desenvolvimento do seu potencial.
Me considero privilegiado por ter tido uma família, especialmente uma mãe, que não aceitou os diversos “nãos” que os serviços públicos nos apresentaram. A persistência da minha família garantiu o meu acesso aos atendimentos que eu precisava para me desenvolver. Por saber que era tudo muito difícil, aprendi a valorizar as poucas oportunidades que a vida me concedeu.
O acesso à educação pública também foi uma grande luta. A frase que mais lembro de ouvir, enquanto estudante, era que aquele ambiente escolar não era lugar para alguém nas minhas condições. Muitos professores tinham dificuldade em entender e se adaptar às necessidades de um estudante que compreendia todos os conceitos trabalhados em sala, mas não conseguia fazer os registros de forma convencional, como os demais colegas.
Entre as barreiras do capacitismo, a atitudinal é a que mais impede o acesso aos direitos das pessoas com deficiência nos serviços públicos. Sempre me recordo de que, na transição do Ensino Fundamental para o Ensino Médio, uma diretora, no momento da matrícula, disse para mim e para minha mãe que aquela instituição não era para um estudante nas minhas condições. Até hoje lembro dessa fala e de como ela marcou a minha trajetória escolar. As falas e os olhares me afetaram por muito tempo.
Além de tudo isso, precisei me educar para ser uma pessoa com deficiência e negra neste país, principalmente na periferia de São Paulo. É uma situação muito complexa. Até hoje tenho medo ao chegar em casa de madrugada, preciso sempre me preocupar com a minha integridade, pois posso sofrer diversos preconceitos.
Ser preto e pessoa com deficiência no Brasil é lutar o tempo todo por acesso, inclusive nos serviços públicos. As situações pelas quais passamos fecham portas, negam direitos e acabam nos fazendo acreditar que não pertencemos àqueles espaços. Só com muito apoio familiar e emocional é possível persistir e existir em meio às adversidades.
Quais são os principais desafios que você enfrenta hoje como professor da Educação Básica? E, na sua visão, como o sistema educacional e as escolas podem avançar de fato na construção de uma educação inclusiva que contemple a diversidade em todas as suas dimensões (raça, deficiência, gênero, etnia, etc.)?
O exercício do magistério na Educação Básica apresenta desafios complexos, especialmente em um modelo educacional focado em metas de avaliações externas, que acaba negligenciando a formação integral do indivíduo e sua capacidade de reflexão social.
A formação para a diversidade, nesse contexto, revela-se uma lacuna teórica, distante da prática escolar. Isso se evidencia quando analisamos as avaliações padronizadas: qual é o impacto desses exames para a inclusão dos estudantes da Educação Especial? Quem elabora esses instrumentos considerando esse público? Essas questões demonstram a urgência de uma reformulação sistêmica.
O avanço da educação inclusiva está diretamente ligado ao reconhecimento da autonomia docente e ao suporte necessário para lidar com a heterogeneidade das turmas. A efetividade do planejamento é comprometida quando há pouca abertura para diálogo e adaptações conforme a realidade local.
Para que a escola evolua, é imprescindível respeitar os projetos pedagógicos de cada uma. A singularidade de cada contexto — evidente, por exemplo, nas diferenças entre turnos dentro da mesma região — exige que as propostas de intervenção sejam planejadas com base nas especificidades locais. A inclusão efetiva é, antes de tudo, um ato de respeito à individualidade de cada ambiente escolar.
Como a escola pode trabalhar, de forma prática e ativa, a interseccionalidade, reconhecendo e combatendo opressões que se cruzam, como racismo e capacitismo, para garantir que seja, de fato, um espaço para todos e todas?
A escola é um espaço privilegiado para compreender e combater diferentes formas de desigualdade ao trabalhar ativamente o conceito de interseccionalidade. A interseccionalidade, termo cunhado por Kimberlé Crenshaw, reconhece que as diversas categorias de identidade não operam isoladamente, mas se cruzam, criando formas únicas e sobrepostas de opressão e privilégio. Para que a escola se torne, de fato, um espaço para todos e todas, é necessário ir além do tratamento isolado de cada tema, adotando práticas pedagógicas e institucionais que reconheçam essas opressões cruzadas — como racismo e capacitismo.
Na prática, percebo questões delicadas que a instituição precisa discutir abertamente. Há práticas que precisam ser analisadas criticamente, pois, muitas vezes, isolamos estudantes dentro de uma única categoria e esquecemos que estamos formando sujeitos diversos e integrais.
É fundamental que a comunidade escolar crie métodos eficazes para promover debates nos quais os alunos analisem, por exemplo, como uma mulher negra com deficiência enfrenta barreiras diferentes das que vivencia um homem branco com deficiência, ou uma mulher negra sem deficiência. Esse exercício ajuda a desnaturalizar a opressão.
Ao implementar essas práticas, a escola deixa de adotar uma abordagem de temas isolados e passa a trabalhar com uma visão sistêmica e profunda das desigualdades, tornando a inclusão uma construção complexa, porém mais justa e efetiva.
Por que, na sua opinião, o Dia da Consciência Negra é comemorado e qual é o seu real significado na luta por direitos e na construção de uma cultura antirracista no Brasil?
A data de 20 de novembro é um marco fundamental que representa a incessante luta pela conquista de direitos e pela consolidação de uma cultura antirracista no Brasil. No entanto, essa discussão não pode se limitar a um único dia. Precisamos ir além da efeméride e analisar de forma profunda como as políticas de ações afirmativas têm contribuído, de fato, para a transformação social.
O foco deve estar no acesso da população negra a produtos e serviços que, historicamente e culturalmente, sempre lhe foram negados. As cotas raciais, por exemplo, não apenas ampliam o acesso ao ensino superior, mas também promovem maior diversidade no mercado de trabalho e nas carreiras de prestígio, gerando impacto positivo na renda familiar e no poder de consumo.
Essa inclusão econômica e social é a prova concreta de que o antirracismo se manifesta em ações reais, e não apenas em intenções. É necessário avaliar continuamente a eficácia dessas políticas para garantir que o acesso à moradia digna, à saúde de qualidade e às oportunidades de empreendedorismo chegue a quem mais precisa.
Para que as práticas de combate ao racismo sejam incorporadas ao cotidiano escolar, é imprescindível investir na formação contínua de professores e manter uma fiscalização rigorosa nas situações que ocorrem nas escolas. Só assim a luta de Zumbi dos Palmares e de tantos outros alcança seu propósito: construir uma sociedade em que a cor da pele não determine a trajetória, o potencial ou o acesso a direitos de nenhum cidadão.
A partir da sua trajetória como estudante e professor, quais aprendizados podem ajudar a escola a construir uma cultura antirracista que vá além das datas comemorativas e transforme o cotidiano escolar?
No que diz respeito às aprendizagens antirracistas, podemos nos ater à valorização da identidade dos alunos e ao engajamento contra qualquer situação que sustente o racismo na vida dos estudantes. A identidade foi a primeira coisa retirada do povo negro no Brasil; a todo momento nos vemos como inferiores e feios, no sentido mais literal. O racismo ensina nossos alunos a odiar a si mesmos — seu nariz, seu cabelo e toda a sua estrutura africana.
A luta contra tudo isso acontece no dia a dia, no cuidado com o cabelo crespo, por exemplo, e na valorização desses pequenos detalhes. Os estudantes que se identificam com a identidade negra, ou que a respeitam, são mais propensos a construir um mundo antirracista. Todos os estudantes, negros ou não, devem se posicionar contra o racismo, denunciando ou ajudando a denunciar situações que reproduzem essa lógica.
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