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Educador de Itajubá conta sua trajetória escolar para alfabetização

Teoria das múltiplas inteligências foi crucial no processo de alfabetização e aprendizagem de estudante que hoje é educador

Por Elsa Villon

Todos os anos a Semana da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, que acontece de 21 a 28 de agosto, aborda um tema diferente. Em 2021, a campanha traz o mote “É tempo de transformar conhecimento em ação”, visando garantir mais práticas para a inclusão de todas e todos. Criada em 1963 pela Federação Nacional das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes), seu intuito é conscientizar a sociedade sobre a importância da inclusão de pessoas com deficiência intelectual e múltipla e o respeito às diferenças.

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O diagnóstico de uma deficiência intelectual pode ser estigmatizante. Em situações em que a educação inclusiva não é realizada de fato, o estudante algumas vezes é deixado à margem do aprendizado. Foi o que aconteceu com Wagner Sales, professor e arte-educador de Itajubá, em Minas Gerais, ao longo de sua trajetória escolar.

Por conta de uma série de barreiras à sua plena participação no processo de ensino-aprendizagem, Wagner relembra que seu período escolar foi muito difícil, não apenas por não saber ler e escrever, mas pelo preconceito vivido dentro e fora das salas de aula: “Minha mãe aparecia mais do que qualquer outra mãe na escola e, mesmo aos cinco anos, eu me perguntava o porquê disso. Foi quando a professora explicou que eu desenhava muito bem, mas não conseguia acompanhar o processo de alfabetização dos outros alunos”, relembra.

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Ao ingressar no ensino fundamental I, a pressão pela alfabetização aumentou sobre Wagner. Sem estratégias pedagógicas que considerassem as diferentes formas de aprendizado de cada um, ele foi submetido, por recomendação de profissionais escolares, a inúmeros testes e exames que explicassem as dificuldades para a aprendizagem, incluindo o diagnóstico de uma possível deficiência intelectual.

“O curioso era que os exames eram inconclusivos, ora apresentando uma deficiência e ora não, além de não trazerem uma solução completa. Ao mesmo tempo em que eu não sabia ler e escrever, aprendia coisas com os meus irmãos, como o que era o átomo, quem foi Galileu Galilei ou acontecimentos históricos importantes”, destaca.

Aos nove anos de idade, foi transferido para a Apae, por recomendações dos professores da escola onde estudava: “Era como se fosse uma corrida para o aprendizado e eu estava ficando para trás, literalmente. Via meus colegas aprendendo as sílabas e ficava travado, paralisado”.

Aos dez, foi para uma escola especial, onde permaneceu até os 14 anos. No decorrer desse tempo, se questionava se um dia iria aprender a ler e escrever como as outras pessoas, sem nunca deixar de lado sua paixão e habilidade pelo desenho.

As múltiplas inteligências

O conceito teórico de múltiplas inteligências surgiu no final dos anos 1990, a partir de um estudo de Harvard. Foi nessa época que Tatiana Zylberberg, professora doutora na Universidade Federal do Ceará (UFC), passou a acompanhar o assunto, quando ainda cursava a graduação em educação física. “Participei de um primeiro grupo de estudos sobre as inteligências, em função dessas reflexões que levavam a entender a multiplicidade delas, uma teoria psicológica que considera os processos pedagógicos de uma maneira mais diversificada”, conta.

Tatiana conta que as primeiras publicações sobre o tema começaram a surgir no início dos anos 2000, resultantes da equipe de estudos de Harvard que trabalhava as inteligências com proposições pedagógicas à aprendizagem para a compreensão. Presente em um congresso na universidade norte-americana sobre o assunto, ela passou a olhar a multiplicidade da teoria, trazendo a compreensão do corpo como parte das inteligências, não apenas na área biológica, como sua formação previa, mas também nas ciências humanas.

De acordo com Tatiana, o primeiro ponto sobre a teoria é romper com a ideia de que uma inteligência possa ser testada: “Nossa cultura é muito forte no sentido de que uma inteligência poderia ser classificada, e como se a partir daí nós tivéssemos que aceitar quase numa relação direta e linear entre um dado que a especifica e a expressão dela”.

Outro ponto importante destacado pela doutora é a compreensão de por que o aluno ainda não assimila determinado conteúdo, criando novas rotas para o aprendizado: “Nossa maneira de enxergar a aprendizagem e a avaliação é, muitas vezes, de testagem, averiguação, e não de como o estudante entende, o que ele entendeu e o que ele não conseguiu entender de forma mais densa e complexa, para que possam valer novas estratégias, de modo que a sua compreensão vá se ampliando”.

Ela defende que as diferentes linguagens são uma das formas de aproximação dos estudantes: “Eu posso trabalhar o caminho didático mais claro de uma maneira verbal, mas ele compreende o mundo de uma maneira mais visual”. A ideia é trabalhar o conhecimento de diferentes formas, propiciando experiências para aproximar os estudantes de determinado conteúdo ao invés de simplesmente apresentá-los em uma única via”.

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O menino que desenhava o invisível

As histórias de Wagner e Tatiana se cruzaram em 2002, quando ela visitou a escola especial onde ele estudava para falar sobre a teoria das múltiplas inteligências. Na ocasião, ela ouviu falar de um estudante que não sabia ler e escrever, mas se expressava por meio dos seus desenhos: inúmeros cadernos com narrativas inteiras, sem uma única palavra, nem mesmo o nome assinado.

Esse foi o primeiro de muitos contatos até o lançamento de “O menino que desenhava o invisível”, livro e documentário que narram a trajetória escolar de Wagner. “A primeira conversa que tivemos, em 2003, foi muito forte para mim, porque eu disse que ele era muito inteligente e desenhava muito bem. Foi quando ele me perguntou se era normal e não tinha deficiência intelectual. Aquilo me marcou muito”, afirma Tatiana.

Foto de Tatiana, uma mulher branca, de cabelo longo e castanho claro ao lado de Wagner, um homem jovem e branco, com barba e cabelos pretos. Os dois usam blusas azuis e estão sorrindo e olhando para a direita. Fim da descrição.
Tatiana Zylberberg e Wagner Sales no lançamento do livro “O menino que desenhava o invisível” na Bienal Internacional do Livro do Ceará, em 2019. Foto: Roger Ribeiro. Fonte: Arquivo pessoal.

Para ela, as terminologias usadas são pontos de partida para a construção de identidade das crianças e jovens: “É como se ela sempre se visse do lugar que não consegue, de que não é no mesmo tempo ou da mesma forma. Pulsa para nós, professores, essa necessidade de compreender que como os educandos se sentem é parte do que eles pensam sobre eles, e isso impacta em como eles vão aprender ou não”.

Após o encontro com Tatiana, Wagner entendeu que não aprender a ler e escrever até os 14 anos estava relacionado à forma de ensino ao qual ele fora submetido ao longo dos anos. E que, a partir de novas metodologias, ele poderia desenvolver suas múltiplas inteligências, como já havia feito com o desenho e as artes plásticas.

O estudante deixou a escola especial e voltou a um colégio comum de onde tinha parado, no terceiro ano do fundamental I. Na nova escola, era já um adolescente em uma sala com crianças de oito a nove anos. Ele concluiu os estudos na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e, aos 25 anos, ingressou na faculdade de artes visuais, se pós-graduando em arte terapia. Tatiana continuou acompanhando sua jornada até escrever sobre Will, personagem do livro “O menino que desenhava o invisível” inspirado nele, na obra lançada em 2019.

Um novo jeito de ensinar

De acordo com Tatiana, a história de Wagner é só uma entre as tantas encontradas em muitas escolas brasileiras. Para ela, é preciso romper com o paradigma do racionalismo, compreendendo a inteligência apenas como cérebro e pensamento, mas também levar em conta o corpo e a expressão.

“Eu tinha uma inquietude por não olhar a educação apenas pela perspectiva da escrita, por isso eu fui para educação física, para estudar um ser humano que fosse entendido como corpo, não só como cabeça, pensamento e racionalidade”.

Wagner destaca que o seu processo de aprendizagem nunca se deu do modo tradicional, sentando e ouvindo explicações: “Era por meio da vivência, da experiência e, principalmente, da minha curiosidade. Se eu tivesse curiosidade em saber alguma coisa, perguntava para alguém que sabia mais que eu. Tive bons professores e aproveitei demais para sanar todas as dúvidas”.

Para ele, é preciso buscar uma metodologia mais horizontal, que proporcione não apenas a transmissão de conhecimento, mas a vivência, uma nova abordagem para o sistema educacional. “Nós já percebemos que o modo como é feito não dá certo para todos e os que não conseguem ficam à margem do conhecimento e de uma sociedade que não tem tempo e disposição para olhar para eles. Precisamos entender que a criança tem um tempo diferente, que ela é corpo e fala através do corpo, que é muito nova e não conhece todas as emoções que sente, mas está aprendendo. E a arte, a educação e o conhecimento podem auxiliar nisso”, enfatiza.

Tatiana acredita que é preciso olhar estudantes com histórias que tem nome, sobrenome e destino, e os encontros dos professores com eles é uma possibilidade de escrever essa história. “É para fazer junto, não para o outro, mas com o outro. Existem muitas pessoas invisíveis no mundo e todas elas passam pela escola em algum momento da vida. Se a instituição de ensino não for o lugar de enxergá-las e ampliar as visões que temos sobre nós, sobre o outro e sobre o mundo, qual vai ser o caminho para que a gente tenha uma sociedade que realmente inclua a todos?”, ressalta.

Agora professor, Wagner pontua que a sensibilidade é um ponto importante para os professores incluírem verdadeiramente a todas e todos: “Ver a criança para além da deficiência e do estereótipo será o diferencial do professor, que deve descobrir e se desafiar a descobrir como acolhe-los’”.

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