Projeto envolve famílias de estudantes e ensina matemática com relevância social para a comunidade

A partir de visitas a confecções de costuras, estudantes coletam dados e desenvolvem práticas sustentáveis e solidárias

Sou professora de matemática da Escola de Educação Básica Frei Godofredo, localizada no município de Gaspar, em Santa Catarina. Em 2018, desenvolvi projeto com duas turmas do 4º ano do ensino fundamental para ensinar matemática de forma mais contextualizada à realidade social dos estudantes. 

O projeto “Costurando a matemática” surgiu de um questionamento enviado às famílias nos primeiros dias de aula. Com a finalidade de conhecer melhor o perfil das turmas, as alunas e os alunos levaram um questionário para suas famílias responderem, com questões de ordem socioeconômicas, como: número de pessoas que vivem na moradia; naturalidade, escolaridade e profissão dos familiares; uso e acesso à internet, entre outros indicativos. 

Em sala de costura, dois estudantes de pé medem tamanho de pedaço de tecido com auxílio de fita métrica, observados por professora Jussara. Ao lado, aluno faz anotações com caneta em papel. Fim da descrição.

Ao todo, foram 50 estudantes entre 8 e 9 anos que fizeram parte do projeto. Em sala de aula, quando fizemos o tratamento das informações em gráficos e tabelas, o grupo logo percebeu que mais da metade das famílias trabalhavam em facções de costura (60% dos casos). Foi então que a ideia nasceu e começamos a conhecer mais desse universo.

Costurando a matemática

Decidimos por visitar as facções dos familiares dos estudantes, localizadas nas proximidades da escola. O trabalho fez parte de uma prática de ensino da matemática com relevância social, com o objetivo de valorizar o trabalho das costureiras e verificar a presença de conceitos matemáticos no seu trabalho diário, aproveitando, consequentemente, os dados numéricos para trabalhar os conteúdos curriculares ao longo das aulas em sala de aula.

Em sala de costura, três estudantes realizam entrevista com costureira. Dois deles estão segurando pastas azuis, enquanto uma das alunas apoia as mãos sobre um caderno sobre a mesa e segura uma caneta entre os dedos da mão direita. Atrás dos estudantes, professora Jussara observa sorridente uma das alunas. Fim da descrição.

As famílias foram essenciais e protagonistas do projeto, se envolvendo durante as atividades propostas. No momento de visitação às facções de costura, os estudantes fizeram questionamentos às costureiras e anotaram as suas respostas. Coletamos dados sobre média de horas de trabalho, número de roupas produzidas por dia, ganho real por peça confeccionada e gastos com linhas, óleo e energia elétrica. 

Conteúdos curriculares trabalhados

Todo o conhecimento e dados colhidos foram contextualizados em sala de aula. Trabalhamos os seguintes conceitos a partir da análise do que foi coletado: as quatro operações matemáticas (adição, subtração, multiplicação e divisão), resolução de situações-problema, sistema monetário, tratamento de informações, gráficos, tabelas, figuras geométricas espaciais, medidas de comprimento e tempo, porcentagem, frações, cálculos mentais e estimativas.  

Em sala de aula, estudantes observam professora. Alguns estão sentados no chão, enquanto a maioria está em carteiras escolares. Fim da descrição.

Veja abaixo alguns conteúdos curriculares trabalhados de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

• Analisar dados apresentados em tabelas simples ou de dupla entrada e em gráficos de colunas ou pictóricos, com base em informações das diferentes áreas do conhecimento, e produzir texto com a síntese de sua análise.

• Estimar, medir e comparar comprimentos, utilizando unidades de medida não padronizadas e padronizadas mais usuais (metro, centímetro e milímetro) e diversos instrumentos de medida.

• Resolver e elaborar problemas que envolvam a comparação e a equivalência de valores monetários do sistema brasileiro em situações de compra, venda e troca.

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Uma ideia solidária e sustentável

As visitas foram momentos de valorização à profissão das costureiras e de aprendizado para os estudantes. Além do aprendizado matemático, também desenvolvemos ações sustentáveis ao longo do projeto, a fim de despertar no grupo atitudes solidárias e de consciência ambiental.

A partir das histórias das costureiras, passamos a refletir sobre a cultura consumista e buscamos soluções para o descarte de roupas, como conserto e doação de peças em bom estado.   

Visitamos duas costureiras que fazem consertos, onde os alunos vivenciaram essa alternativa que ajuda diretamente no cuidado com o planeta, economizando recursos naturais, com olhar no reaproveitamento de materiais.  

Conhecemos também uma empresa local que trabalha com a gestão de resíduos sólidos. Lá as crianças se impressionaram com a quantidade de lixo que produzimos diariamente e perceberam que poucas pessoas separam o material reciclável de forma adequada. 

Com a preocupação no reaproveitamento de materiais e no destino correto dos resíduos, confeccionamos uma boneca abayomi e um brinquedo sustentável. Este — produzido com cones de linhas, retalhos e resíduos — foi doado para crianças de 3 a 4 anos de idade, da escola CDI Vovó Leonida, localizada no bairro Santa Terezinha de Gaspar. Essa ação foi uma atitude solidária, uma pequena atitude cheia de sentidos.

Crianças sorridentes sentadas no chão seguram bonecas abayomi produzidas por estudantes. Fim da descrição.

 

Sociedade mais justa e humana

Diante de uma prática objetivada a envolver as alunas e os alunos em uma perspectiva de aprendizagem com relevância social, os resultados foram os mais.  

As ações planejadas qualificaram o processo educativo e possibilitaram o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como autonomia, ética e autoconhecimento, além de aprendizagem contextualizada. Sair do âmbito escolar, atravessar seus muros e valorizar a matemática nas facções de costura nos levaram a vivenciar uma matemática próxima e real.  

 

A valorização das vivências dos estudantes e o olhar para o trabalho das famílias nos fez repensar uma sociedade mais justa, menos consumista, menos egoísta e muito mais igualitária e humana. Além da interrelação com outras disciplinas, o projeto ainda alcançou atitudes sustentáveis e solidárias. 

O trabalho contribuiu para uma prática que identifica os conhecimentos matemáticos como meios para compreender e transformar a realidade comunitária, estimulando o interesse, a curiosidade, o espírito de investigação e o desenvolvimento da capacidade de resolver problemas.  

A cada passo que demos, os estudantes foram encorajados a serem protagonistasEsse trabalho é um começo, um meio a ser consolidado diariamente na vida escolar dos alunos. Assim continuarão multiplicando boas ideias, boas aprendizagens, e, consequentemente, bons resultados.  


Jussara Schmitz é uma das 10 vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 de 2019 com o projeto “Costurando a matemática”. 

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