Avaliação inclusiva: por que avaliar é mais do que medir o que se aprendeu

Repensar esse processo ajuda a evitar barreiras, orientar o planejamento pedagógico e ampliar as formas de participação e aprendizagem dos estudantes

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Professora sentada em roda com crianças pequenas em uma sala de educação infantil. Enquanto gesticula com as mãos, as crianças observam e interagem com ela. O ambiente é colorido, com almofadas, bonecos e brinquedos ao fundo.

O que você encontrará neste conteúdo: 

  • Reflexões sobre o papel da avaliação na construção de uma educação inclusiva.;
  • Como provas, observações e outros instrumentos podem revelar diferentes formas de aprendizagem;
  • Os desafios para transformar a cultura da avaliação nas escolas;
  • Como a participação dos estudantes fortalece a avaliação inclusiva.

Historicamente, a avaliação tem ocupado um lugar central na rotina escolar. Ao fim de um conteúdo ou de um período letivo, estudantes fazem provas, recebem notas e têm seu desempenho analisado a partir de critérios previamente estabelecidos. Embora esse modelo ainda esteja presente em muitas escolas, ele vem sendo questionado por educadores e pesquisadores que defendem uma avaliação inclusiva e uma educação comprometida com a aprendizagem de todos.

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A discussão ganha ainda mais relevância quando a escola assume a perspectiva da educação inclusiva. Se os estudantes aprendem de maneiras diferentes, em ritmos distintos e mobilizando diversas formas de participação, faz sentido esperar que todos demonstrem o que sabem exatamente da mesma forma, no mesmo tempo e por meio dos mesmos instrumentos? 

Esse debate tem orientado tanto pesquisadores quanto políticas públicas voltadas à melhoria das práticas pedagógicas e da avaliação formativa. Um exemplo é o Guia da Avaliação Contínua da Aprendizagem, publicado em 2025 pela Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), no âmbito do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA). 

Elaborado para apoiar redes de ensino e escolas no entendimento do processo avaliativo e na utilização dos resultados ao longo do ano letivo, o documento apresenta a avaliação com caráter formativo e parte do do ensino e da aprendizagem. Segundo o guia, as informações produzidas devem subsidiar o planejamento pedagógico e a tomada de decisões por professores e gestores, e não apenas registrar o desempenho dos estudantes. 

Uma trajetória marcada pela avaliação inclusiva

Na prática, essa concepção de avaliação pode ser percebida na trajetória de estudantes que vivenciaram experiências inclusivas ao longo da Educação Básica. Um deles é Vinícius Krieger, de 19 anos. Pessoa com paralisia cerebral, ele estudou toda a Educação Básica em escolas comuns. Hoje cursa o segundo semestre de Educação Física e, também, é atleta de paratletismo na modalidade Frame Running, conhecida no Brasil como Petra. 

Ao recordar sua trajetória escolar, Vinícius afirma que um dos aspectos mais importantes não era apenas realizar provas ou receber notas, mas participar da definição das estratégias que permitiam sua aprendizagem e sua avaliação. “É muito importante que a escola me escute para saber como posso participar e, consequentemente, ser avaliado. Em minha trajetória, lembro muito do Ensino Médio, onde aconteceu de os professores me perguntarem: ‘Você consegue fazer desse jeito? Qual a melhor forma de construirmos as atividades e provas?'”, lembra. 

É justamente essa compreensão da avaliação para além da atribuição de notas e da aplicação de provas que especialistas defendem como um dos pilares da educação inclusiva. Em vez de servir apenas para registrar resultados, ela passa a produzir informações que ajudam professores a evitar barreiras, reconhecer diferentes formas de aprendizagem e orientar o planejamento pedagógico. 

Avaliação inclusiva é mais do que medir a aprendizagem 

Para José Eduardo Lanuti, doutor em Educação e professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), a maneira como uma escola compreende a avaliação influencia todo o processo pedagógico. Por isso, discutir práticas avaliativas significa também refletir sobre a concepção de ensino que orienta o trabalho da escola. 

“A concepção de avaliação que se tem em uma escola molda todo o processo de ensino. Se a ideia é uma avaliação somativa e classificatória, o ensino também vai seguir esse princípio. É um ensino que, por natureza, exclui muitos alunos e impede a participação de muitos estudantes”, afirma. 

Segundo o pesquisador, por muito tempo a avaliação foi compreendida principalmente como um mecanismo para classificar os estudantes a partir dos resultados obtidos em provas e outros instrumentos. Nessa lógica, o foco recai sobre o desempenho alcançado ao final de um percurso, e não sobre as informações que o processo avaliativo pode produzir a respeito da aprendizagem e do próprio ensino. 

Ao discutir a avaliação na perspectiva inclusiva, Lanuti defende outra compreensão: “A avaliação precisa produzir informações que ajudem o professor a compreender como cada estudante aprende, quais barreiras interferem nesse processo e de que maneira o ensino pode ser reorganizado para favorecer novas aprendizagens.” 

Essa mudança também exige rever a forma como a escola compreende a diversidade presente entre os estudantes. Para Lanuti, um dos equívocos mais comuns é associar as dificuldades observadas em sala de aula apenas à deficiência. Ele ressalta que faz parte da condição humana aprender em ritmos diferentes, demonstrar interesses distintos e desenvolver habilidades diversas ao longo da vida escolar. 

“Não existem os alunos diferentes. Existem alunos que demandam recursos, serviços, materiais e estratégias de acessibilidade. Isso não quer dizer que eles não tenham potencial”, afirma. 

Reconhecer essa diversidade, explica o especialista, não significa reduzir as expectativas de aprendizagem para determinados estudantes. Significa garantir condições de acesso, participação e aprendizagem, considerando os recursos e as estratégias de acessibilidade necessários para que todos tenham oportunidades reais de aprender o mesmo currículo. 

Avaliação formativa, planejamento, ensino e aprendizagem caminham juntos 

Para José Eduardo Lanuti, planejamento, ensino, aprendizagem e avaliação fazem parte de um mesmo processo. Isso significa que a avaliação deixa de ser uma etapa realizada apenas ao final de um conteúdo e passa a acompanhar todo o percurso pedagógico. 

As informações produzidas nesse processo ajudam o professor a compreender como os estudantes aprendem, identificar barreiras e reorganizar as estratégias de ensino e o planejamento sempre que necessário. Ao mesmo tempo, as novas propostas pedagógicas produzem outras evidências sobre a aprendizagem, que voltam a orientar o trabalho docente. 

Assim, esses quatro elementos se retroalimentam: o planejamento orienta o ensino; o ensino cria oportunidades de aprendizagem; a avaliação produz informações sobre esse percurso; e essas informações ajudam a revisar o planejamento e as práticas pedagógicas. 

Há diferentes formas de avaliar e de demonstrar a aprendizagem 

Se a avaliação busca compreender como e o que os estudantes aprendem, ela também precisa reconhecer que esse processo pode ser expresso de diferentes maneiras. Para Fábia Carvalho de Oliveira, educadora da rede pública do Distrito Federal e especialista em Educação Especial e Desenvolvimento Humano pela Universidade de Brasília (UNB), um dos maiores desafios ainda é romper com a ideia de que avaliar se resume à aplicação de provas ou à atribuição de notas. 

“Quando utilizo apenas um instrumento avaliativo, não estou avaliando somente a aprendizagem. Muitas vezes estou avaliando se aquele estudante consegue responder daquela forma específica”, afirma. Assim, podemos restringir a avaliação ao instrumento utilizado, o que não é ideal. 

Na percepção da especialista, ampliar as possibilidades de avaliação não significa criar atividades mais fáceis nem estabelecer expectativas menores para alguns estudantes. “Um estudante pode demonstrar que compreendeu determinado conteúdo por meio de uma produção escrita. Outro, pela oralidade. Há quem organize melhor as ideias utilizando recursos digitais, imagens, desenhos ou outras linguagens. Em todos os casos, a pergunta permanece a mesma: o que essa produção revela sobre a aprendizagem do estudante?”, afirma. 

Um exemplo prático de avaliação inclusiva em sala de aula

Foi essa mudança de olhar que Fábia observou ao acompanhar uma professora da rede pública do Distrito Federal. Ao perceber que uma atividade escrita não permitia que um estudante com deficiência expressasse seus conhecimentos, a docente passou a diversificar tanto as estratégias de ensino quanto as formas de acompanhar a aprendizagem da turma.

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Ao longo das aulas, ela incorporou diferentes recursos, linguagens e possibilidades de participação. Em vez de depender apenas de uma prova ao final do conteúdo, passou a observar as interações dos estudantes, suas hipóteses, os registros produzidos durante as atividades e as diferentes maneiras de resolver um mesmo problema. 

Segundo Fábia, a mudança não teve como objetivo reduzir as expectativas de aprendizagem nem criar um currículo paralelo para o estudante. Ao ampliar as possibilidades de participação e de expressão da aprendizagem, a professora conseguiu identificar conhecimentos que permaneciam invisíveis quando todos precisavam responder da mesma maneira. 

Ouvir os próprios estudantes também faz parte desse processo. Para Fábia, compreender quais estratégias favorecem a participação de cada um amplia as formas de aprender e de demonstrar conhecimentos. Essa percepção aparece na experiência de Vinícius Krieger. 

“Acho que a escola precisa entender a condição de cada aluno individualmente e permitir que eles participem desse processo de construção das atividades, de como acessibilizar. Quem melhor que nós para sugerir isso?” 

Na experiência acompanhada por Fábia, essa escuta beneficiou não apenas o estudante com deficiência, mas toda a turma. 

“Além de contribuir para que os estudantes aprendessem e pudessem demonstrar seus conhecimentos, ajudou a educadora a mudar a sua visão sobre as possibilidades de estratégias, não só para os estudantes com deficiência, mas para todos”, conta. 

Transformar a avaliação também exige repensar a finalidade da educação 

Diversificar instrumentos ou reconhecer diferentes formas de expressão da aprendizagem, por si só, não garante a consolidação de práticas avaliativas mais inclusivas. Para Paulo Paliari, secretário municipal de Educação de Mogi Guaçu (SP), essa transformação depende de uma mudança mais profunda: a maneira como professores, gestores, famílias e a sociedade compreendem a finalidade da educação. 

Segundo o secretário, as redes de ensino convivem com um desafio permanente. Ao mesmo tempo em que buscam desenvolver práticas avaliativas voltadas ao acompanhamento da aprendizagem, precisam responder às exigências de avaliações externas, metas educacionais e expectativas da própria comunidade escolar.  

Na avaliação do secretário, que tem quase 30 anos de carreira na Educação Básica, essa lógica influencia a forma como a aprendizagem é compreendida ao longo de toda a trajetória escolar. A Educação Infantil é um dos exemplos apresentados por ele. Embora a etapa tenha como foco promover experiências, interações e diferentes formas de exploração do mundo, ainda há expectativas para que ela funcione principalmente como preparação para o Ensino Fundamental. 

“Algumas pessoas querem que a última etapa da Educação Infantil seja preparatória para o primeiro ano. Essa visão acaba reduzindo a importância de outras aprendizagens igualmente essenciais para o desenvolvimento das crianças. Talvez a Educação Infantil seja o melhor exemplo de avaliação inclusiva que podemos nos apegar”, afirma. 

A transformação da avaliação depende de toda a comunidade escolar

O secretário acredita que essa mudança de perspectiva não depende apenas da escola ou dos professores. “A escola vai querer fazer um papel e a sociedade quer outro. A gente vai remar contra a maré”, diz. 

Por isso, ele defende que a construção de práticas avaliativas mais inclusivas passa pelo envolvimento de gestores, educadores, famílias e do poder público, para que todos compartilhem uma compreensão comum sobre o papel da educação e da avaliação na aprendizagem. “Precisamos ter sincronia nisso. Claro que nós, profissionais de educação, temos a missão de iniciar isso, mas o resultado positivo virá quando a comunidade entender e participar disso”, afirma.

A avaliação de Paulo dialoga com a de José Eduardo Lanuti, para quem essa transformação também depende do envolvimento da comunidade escolar. O pesquisador observa que as expectativas sobre a avaliação não estão presentes apenas dentro da escola: “Muitas vezes, as próprias famílias também esperam da escola uma avaliação que é totalmente excludente. Transformar essa cultura exige envolver toda a comunidade escolar e rever expectativas historicamente construídas sobre o que significa aprender e avaliar.”

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Participar também faz parte da avaliação 

Ao lembrar da Educação Básica, Vinícius Krieger não associa as avaliações às provas ou às notas que recebeu ao longo dos anos. O que permanece em sua memória é a forma como os professores buscaram garantir sua participação nas atividades propostas. 

“Eu acho que nunca tive muito problema com a parte de avaliação. Os professores sempre me incluíam muito bem nas atividades. Eu sempre participei do que era proposto, principalmente em grupo. Nos momentos de avaliação em si, os professores sempre fizeram de tudo para que eu pudesse fazer dentro do que eu posso”, lembra. 

Para ele, essa construção acontecia porque os professores estavam dispostos a ouvi-lo e buscar estratégias que garantissem sua participação nas atividades e avaliações. “Foi muito importante saber que a escola queria que eu fizesse parte de tudo. Os professores são importantes em fazer com que as atividades e os exercícios sejam acessíveis para que todos possam participar.” 

A experiência de Vinícius sintetiza um dos princípios discutidos ao longo desta reportagem: a avaliação inclusiva não se resume ao momento da prova. Ela se constrói quando a escola cria condições para que todos os estudantes participem das experiências de aprendizagem e possam demonstrar, de diferentes formas, aquilo que sabem.

 

Esta matéria faz parte de uma série de conteúdos incentivados pelo Sistema Positivo de Ensino pelo nosso compromisso com a educação inclusiva na educação pública e privada.

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