Registros: a importância de professores regentes e de AEE compartilharem informações

Troca permite planejar de maneira mais coerente, refletir sobre a prática pedagógica, apoiar a continuidade do trabalho de um ano para o outro e demonstrar para pais e responsáveis como foi a aprendizagem de crianças e jovens 

“Roupa no varal”, foi essa a observação de Pedro, um aluno com deficiência intelectual, durante uma aula de Ciências. Essas palavras, naquele mesmo dia, foram anotadas no caderno pela professora Sandra Batistão. “Esse registro é revelador do que foi ensinado, pois aconteceu após discutirmos o ciclo da água e olharmos figuras em um livro. Então, quando falamos sobre chuva, a referência à roupa no varal mostra o quanto ele aprendeu”, conta a formadora de professores na área de educação especial na perspectiva inclusiva, que atuou na rede pública de Santo André, em São Paulo, por 27 anos. O menino chegou à escola sem oralidade aos sete anos e, aos poucos, foi ganhando autonomia. Atualmente no 5º ano, ele avançou na fala, mas ainda não escreve. “Seu portfólio, com fotos e breves anotações, registra os avanços que ele fez para se alimentar, cuidar da higiene e desenhar bolinhas entre as linhas do caderno, tudo a seu tempo”, explica a educadora.  

Tanto o professor de sala quanto o do Atendimento Educacional Especializado (AEE) costumam registrar os avanços dos estudantes. Mas Sandra nota que existe uma desarticulação entre o que é registrado por um profissional e pelo outro, seja pela perspectiva diferente de cada um, seja pela falta de uma rotina de troca entre eles, muitas vezes simplesmente porque cumprem horários diferentes, um pela manhã e outro à tarde, por exemplo. Porém, para o processo de ensino e aprendizagem se tornar mais rico e coerente, o trabalho conjunto é o mais indicado, o que inclui o compartilhamento dos registros feitos pelos dois. “É o que chamamos de coensino, quando ambos os professores pensam no processo pedagógico desde o início e trabalham em parceria, decidindo metodologia, recursos e estratégias para que a criança com deficiência aprenda”, esclarece a especialista. 

Para combater essa desarticulação, Sandra sugere dois caminhos: se existe distância física e de horário que impede um encontro presencial entre os dois professores, a proposta pode ser construída coletivamente  utilizando ferramentas de compartilhamento, como aquelas em que os arquivos ficam em nuvens e podem ser acessados e editados por mais de uma pessoa. O outro caminho é efetivar o coordenador pedagógico como um elo entre o professor da sala de recursos e o da sala comum, pois ele é o responsável pela organização institucional. Ele pode dialogar com os docentes, compartilhar informações sobre os dois ambientes e estimular a colaboração.  

Para efetivar uma política de trabalho conjunto na escola é indicado registrar no Projeto Político Pedagógico (PPP) a proposta de que o AEE seja colaborativo e atue em conjunto com a sala comum, pensando os processos de aprendizagem, os registros e as avaliações. “O profissional de AEE tem informações preciosas e orientações específicas sobre como superar diferentes barreiras presentes nos processos de ensino-aprendizagem, por isso é válido que ele esteja sempre em interlocução com o professor de sala. É um trabalho de equipe, que inclui o coordenador pedagógico e profissionais de outras áreas”, complementa Maria da Paz Castro, a Gunga, que é professora, especialista em educação inclusiva e, durante muitos anos, foi selecionadora da área no Prêmio Educador Nota 10.  

Para completar, Sandra afirma a importância da participação de todos os professores, regentes e do AEE em formações continuadas. São momentos em que eles devem estar abertos a informações novas, aprendendo a aproximar conceitos teóricos sobre avaliação da prática na escola e, principalmente, buscando soluções para cada turma e cada estudante. 

Quando avaliar é preciso 

“O principal equívoco das professoras é achar que vão parar um momento para avaliar, que isso vai acontecer no final do semestre ou do ano. Avaliação precisa ser contínua, partindo do planejamento, e os registros construídos precisam conversar com ele.” A fala é da professora especialista em educação e desenvolvimento educacional Regiane Paulino, que trabalha com formação de equipes e orientação individual e  faz parte da Divisão de Currículo da Secretaria Municipal de Educação (SME) de São Paulo. Sandra segue o mesmo raciocínio. Segunda ela, a maioria dos professores regulares ainda segue métodos tradicionais de avaliação, que são quantitativos. “Mas considerar a diversidade humana e os vários modos de aprender nos leva a abraçar a avaliação processual e formativa, em que o professor dá devolutivas e faz perguntas continuamente, formando e informando ao mesmo tempo”, afirma.  

Para Regiane, uma check-list única ou uma ficha padrão não permitem observar e responder a itens de um jeito igual para todos os estudantes. Esse olhar tem de ser individualizado. “O que eu preciso padronizar é o meu planejamento, pois avalio de acordo com o que ofereço. Ele parte do que eu considero inegociável, ou seja, eu defino, como educadora, o que a criança precisa aprender e como.” Ela frisa a questão da intencionalidade, pois “não tem como avaliar o aluno se não sei o que pretendo que ele alcance”.  

A avaliação é feita com base na análise dos registros, por isso vale a pena elaborar pautas de observação e manter registros individuais de cada um. Regiane admite, porém, que não é possível registrar tudo nem tomar nota de todo mundo todo dia. Ainda assim, é necessário ter uma constância. A dica é ter ao menos uma página para cada criança, que permita resgatar momentos importantes, como aqueles quando se destacaram em determinada atividade, algo que chamou a atenção ou o comentário de uma criança, em forma de notas ou pílulas de informação. “Para que não se percam, é válido ter uma rotina no início ou no final da semana para olhar essas anotações, organizar e replanejar as aulas”, sugere Regiane. Ela também indica selecionar entre quatro e seis crianças para observar durante o dia ou em uma atividade, garantindo que todas elas sejam vistas ao longo do mês. 


Registros: quais são os públicos a quem eles servem? 

  • Para o professor (enquanto docente de sala ou do AEE), como uma maneira de (re)avaliar a aprendizagem dos estudantes e a própria prática; 
  • Para toda a equipe docente, como instrumento para subsidiar o planejamento e os momentos de formação; 
  • Para a comunidade, como mecanismo de transparência para pessoas do entorno e equipes da rede de ensino; 
  • Para o aluno e a família acompanharem o percurso; 
  • Para o educador do ano seguinte, com o objetivo de dar subsídios e garantir continuidade. 

Karen Silva, que tem experiência no AEE e em orientação escolar e atua como professora nos anos iniciais na rede municipal de São José dos Campos, em São Paulo, sabe que, se der à criança com deficiência uma prova que é igual a de todos, essa avaliação só servirá para mostrar características limitadoras. “É preciso usar métodos que funcionem para apontar avanços e possibilidades, além de indicações de como investir tempo, recursos, jogos e materiais concretos.” Ela exemplifica com um estudante com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em sua sala, que tem questões motoras e um perfil mais opositor, demostrando resistência a escrever no papel. “Mas, se a gente põe ele para jogar, ele arrasa e demostra o quanto já compreendeu o conteúdo.” Em outro caso, o de uma criança que está silábica-alfabética no 2º ano, há aprendizagens que só podem ser percebidas com uma pauta de observação específica para ela: se for seguir o objetivo determinado para a sala, será constatado que não o alcançou; mas, na comparação consigo mesma no início do ano, ela mostrou um salto gigantesco na alfabetização.  

Documentação organizada para garantir continuidade 

“O melhor formador de um professor que vai acompanhar um aluno público-alvo da educação especial é a educadora do ano anterior, pois ela foi construindo um saber sobre a criança”, ressalta Gunga.  

É pensando nessa prática que Karen destaca a importância de cuidar da documentação no fim do ano. “Organizando os registros do ano todo, tenho outro olhar sobre relatórios e observações e visualizo o que deu certo e o que não deu para que a próxima professora saiba por onde começar.” Também é um material importante para o conselho de classe, momento que serve para socializar as estratégias e decisões não só com docentes, mas com a equipe gestora. Assim, todos podem conhecer melhor a criança e colaborar com as discussões.  

Marina Basques, professora de AEE na EMEI Nelson Mandela, em São Paulo, prepara ao menos duas cópias dos registros no fim do ano: uma fica guardada na escola para que ela e a professora do ano seguinte possam acessá-la e outra é entregue para pais e responsáveis. A educadora mantém uma pasta para cada criança acompanhada por ela. Nela, estão o laudo médico; os relatórios semestrais produzidos para todas as crianças da escola, de acordo com as normativas de registros da secretaria de Educação; o plano anual de AEE, elaborado em parceria com as professoras regentes e que conta também com a colaboração das famílias (ele é revisitado e atualizado sempre que necessário) e os registros e anotações a respeito das atividades realizadas, com informações sobre o que a criança aprendeu a partir do que foi proposto. Esses últimos também feitos com informações trocadas entre Marina e as docentes das salas. “O material fornece um pouco da história da criança e pode ser utilizado, por exemplo, quando a professora regente falta e outra pessoa precisa assumir a sala temporariamente. Ele também é essencial para o planejamento e a avaliação do que estamos propondo”, afirma.  

Pasta criada pela professora Marina para acompanhar as aprendizagens de Hadassa. Créditos: Rosi Rico

Informações para acolher, estimular e apoiar 

Além dos educadores, os registros também podem ajudar no relacionamento com as famílias, como uma maneira de apresentar o percurso do aluno. Mas é necessário cuidado. A primeira filha de Karen nasceu prematura, com deficiência intelectual e física. Ela resolveu se especializar em educação especial por causa da garota, que hoje tem 20 anos. Sua segunda filha foi diagnosticada com TEA, então, a educadora conta que vê a situação dos dois lados. De acordo com a professora, ver os registros pode ser difícil tanto para a família, que não consegue observar o desenvolvimento escolar e perceber a defasagem, quanto para o professor, que precisa ser claro ao apresentar a questão aos pais e responsáveis.  

“Por experiência própria, sei que é pesado quando vem alguém e aponta algum defeito no seu filho.” Ela relembra quando, na Educação Infantil, viu uma pauta de observação baseada nas habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e, na ficha da filha, estava tudo anotado em vermelho (como “não alcançou”). “A situação exige tato e sensibilidade na hora de dar feedback para a família. Se não acolho de forma adequada, ela até se afasta e pode prejudicar o processo de ensino e aprendizagem e a relação da criança com a escola”, afirma Karen. Por isso, quando se trata de relatórios que são repassados para outros professores e familiares, as análises precisam estar muito bem descritas e com uma fala cuidadosa para não estigmatizar o aluno. 

Maria de Fátima Lopes sentiu na pele a discriminação. Com sequelas de mobilidade nos membros inferiores por causa de uma poliomielite quando tinha um ano e seis meses, depois de se formar resolveu se especializar em educação especial. Hoje atua com uma turma regular da rede estadual pelo turno da manhã e, à tarde, no AEE da rede municipal do município de Ananindeua, no Pará. “Consigo enxergar as duas faces. Estou na sala regular, com 20 alunos entre eles, um com TEA. Na sala do AEE, trabalho com sete alunos com TEA, quatro deles não verbais. Também faço formações de educação especial na escola em que atuo e em outras que me convidam.”  

Certa vez, conversando com a mãe de um aluno do 4º ano com TEA, Maria de Fátima soube que ele não participava das aulas de Educação Física ou de atividades extras e eventos escolares, pois os educadores temiam que ele corresse ou ficasse muito agitado. A professora recomendou a inserção do menino também nesses momentos. “Relembrei minha própria condição, quando os professores de Educação Física dos anos iniciais não permitiam que eu participasse pois tinham medo de que eu me machucasse. Com isso, eu internalizei que não poderia e fui fazer atividade física apenas no ensino médio, graças ao apoio de um professor”, conta a educadora, que teve uma atrofia no tendão justamente por falta de exercício. Ela é defensora das trocas de informação na escola: os relatórios precisam ser repassados para mostrar os avanços nas turmas regulares e as avaliações podem ser adaptadas pelos professores de AEE, que fazem esse suporte para não deixar de lado quem tem deficiência intelectual. “Se um aluno é pré-silábico, mas não consegue ler, precisa de uma pessoa leitora para auxiliá-lo e realizar uma avaliação mais objetiva”, exemplifica.  

A seguir, um exemplo de vídeo produzido pela Maria de Fátima como registro do avanço do aluno Efraim, estudante com TEA do 4º ano na EE Maguari. “Efraim já consegue desenvolver as atividades somente com o comando de voz, entende com mais clareza as tarefas a serem executadas. Apresenta bastante equilíbrio corporal em atividades como correr, pular, saltar e outros”, anotou a professora.

 

Descrição do vídeo: Estudante Efraim corre no pátio da escola com uma bola na mão, contorna um cone e na volta entrega a bola para que outro aluno possa fazer o mesmo percurso, que foi proposto pelo professor de Educação Física para toda a turma do 4º ano. Fim da descrição

Todas as crianças cabem no portfólio 

Gunga avisa que não é eficiente elaborar um plano pronto para o aluno logo no início do ano. “Para nenhum estudante”, ressalta, pois é necessário conhecer bem as crianças antes de fazer um Plano Educacional Individualizado (PEI), por exemplo. Isso não significa deixar de estabelecer metas com base no levantamento inicial do que cada um já sabe e do que precisa aprender. “No encerramento, é preciso considerar se as expectativas do início do ano letivo foram reais ou não e verificar o percurso do estudante na escola, com um acompanhamento minucioso que nos permita entender se ele aprendeu ou não o que foi estabelecido e se traçamos metas possíveis ou adequadas, independentemente dos outros alunos”, diz a especialista.  

Se, por exemplo, estar alfabetizado é a meta de aprendizagem, apesar das expectativas, há a necessidade de respeitar o ritmo próprio das crianças. “Mantemos os mesmos objetivos e adaptamos as metodologias em favor da criança. Tenho um aluno, Gabriel, que tem paralisia cerebral, dificuldade de mobilidade e de fala, mas é muito disposto”, conta Regiane. “Talvez ele não chegue alfabetizado ao final do ano, mas precisa estar nesse caminho, porque ele não vai à escola só para interagir”, afirma. Enquanto todos da turma escreviam com lápis, a professora colocou Gabriel no computador: ele digitava e ela via como ele identificava as letras, concluindo que estava silábico-alfabético. Em uma reunião de final de semestre, a mãe foi pega de surpresa quando viu que o filho tinha escrito seu nome no portfólio e se emocionou.  

Para Gunga, os registros feitos ao longo do ano podem ser organizados em um portfólio, como um instrumento que integra um processo de avaliação contínua e formativa e envolve o sujeito que aprende. Nele cabe tudo: foto, vídeo, desenho, produção de texto, rubrica de aprendizagem ou um instrumento de avaliação simples. “Gosto muito por ser um documento democrático, que mostra o percurso do estudante com paralisia cerebral e de outro que tira as melhores notas. Cabem todas as crianças dentro do portfólio.” 

Confira uma experiência inclusiva de registro

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