Como sistematizei o atendimento ao estudante com deficiência na minha escola

Denise Lam, diretora de uma escola particular bilíngue da cidade de São Paulo, conta como desenvolveu processos educativos inclusivos para todos os estudantes

Sou diretora de uma escola particular bilíngue com uma proposta inclusiva, localizada em São Paulo (SP), e vou contar um pouco da minha experiência como educadora e de como sistematizei em minha unidade o atendimento aos estudantes com deficiência.

O estudante com deficiência chega à escola e passa por algumas etapas antes de iniciar as aulas. Tirando a parte burocrática de fichas de inscrição, fichas médicas etc., marcamos uma reunião com uma de nossas coordenadoras.

Na frente de um painel com lousas e calendários, Denise Lam posa sorridente para foto com os braços estendidos e as palmas da mão voltadas para cima. No canto esquerdo da imagem logo do projeto "TEAjudo Aprender" com a hashtag "Faz igual". Fim da descrição.

Diálogo com a família

Bem treinadas e capacitadas para entender as condições humanas de desenvolvimento, as coordenadoras conversam com as famílias, ouvindo as suas histórias e avaliando as potencialidades do novo aluno.

A história trazida pela família é muito importante e normalmente as mães e os pais são grandes conhecedores do funcionamento de seus filhos. Sabem tudo! Detalhes do diagnóstico, o que funciona, o que não funciona, o que pode e o que não pode fazer.

Temos que providenciar uma escuta atenta neste momento. Confiança vem de uma relação construída e não se vende em folhetos e manuais educacionais.

Não há nenhuma possibilidade, ao menos lá na escola, de fazermos reuniões sobre o estudante (com deficiência ou não) sem a presença dos pais. Não acreditamos que haja qualquer assunto sobre um filho que um pai não deva estar presente, ciente e de acordo com as decisões tomadas.

Plano individual de estudos

Junto com a equipe terapêutica (caso haja e se a família autorizar) e junto aos pais, iniciamos a elaboração de um Plano Individual de Estudos. Um PEI. Nele colocamos objetivos de longo e curto prazo, estratégias de ensino e aprendizagem condizentes com a forma que aquele aluno aprende melhor, além dos possíveis materiais que deverão ser feitos ou adquiridos pela escola e um espaço para avaliação, com métricas mensuráveis.

Na reunião seguinte, revisamos o PEI, para modificá-lo ou decidirmos se algo já está aprendido e deve estar em um lugar de “manutenção”. Por isso, fazemos reuniões com a família e equipe a cada 6 a 8 semanas.

Leia mais
+ O plano educacional individualizado (PEI) e o sistema escolar de avaliação classificatória

Funcionamento do dia a dia

No dia a dia, o professor irá consultar o Plano Individual de Estudos do estudante sempre que sentar para planejar as aulas. Normalmente, pela vasta experiência que tenho com boas práticas na educação inclusiva, as estratégias de ensino e aprendizagem inseridas no PEI são muito boas para todo o grupo. Podemos começar sempre por elas e depois avançamos para estratégias para todos.

Sempre que você tiver um estudante em que o PEI sugira uma estratégia de ensino, comece por ela. Acredite: ela será útil para todos os alunos e não irá prejudicar ninguém.

Pontencialidades do estudante

Para saber quais são as melhores estratégias para cada um, temos, antes de tudo, que conhecer o nosso estudante. Ele não é autista, disléxico, cadeirante, hiperativo. Ele é um estudante. Uma pessoa. Depois disso, a gente vê quais são as suas especificidades e pensa nos tipos de apoios necessários para eles. Não podemos esquecer de considerar principalmente as suas potencialidades.

Ao buscar contemplar as potencialidades e necessidades do nosso aluno com deficiência, é necessário estudo. Sempre buscamos práticas baseadas em evidências que amparem as atividades pedagógicas. Se juntarmos essas duas coisas, teremos sucesso na certa!

Trabalho colaborativo com a comunidade escolar

Na escola, enviamos o planejamento para toda a equipe em um grupo de e-mails criado para o estudante, com todos os membros envolvidos em sua aprendizagem: professores, diretores, coordenadores, representantes do departamento de suporte da escola, terapeutas e seus familiares.

Não temos medo de nada. Nem do pai ver o planejamento, nem do professor falar o que pensa e o que ele acha que pode dar certo e nem da intervenção da equipe terapêutica. Somos um grupo que trabalha junto para o benefício do nosso aluno. Sem medo, sem ego. Estamos abertos a aprender uns com os outros e humildes o suficiente para sabermos que podemos errar.

Saiba mais
+ Educadores apostam em trabalho colaborativo para aprendizagem de estudante
+ Rede promove encontros formativos para fortalecer cultura inclusiva

Resultados reais da educação inclusiva

Denise posa para foto com o livro "Longe da árvore" de Andrew Solomon. A capa traz ilustrações de pessoas diversas e Denise usa óculos e uma blusa branca. Fim da descrição.Os resultados? Nossa! Nem sei dizer. Tenho alunos de todas as formas, jeitos, cores, tamanhos e sabores. Somos diferentes em como somos e em como aprendemos. Apreciamos a diferenças e como eu sempre digo: ninguém está na escola a serviço de ninguém. Cada um de nós tem a aprender e a ensinar.

Passeando pelos corredores de nossa escola, por muitas vezes escuto: “mas aonde estão os alunos com deficiência?”. Acho que as pessoas que visitam têm a ilusão de ver uma “bagunça”, com gritos, comportamentos inapropriados, crianças “diferentes” e ambiente caótico, uma vez que atendemos muitas crianças com deficiência e diferentes necessidades educativas.

Mas, ao nos visitarem, notam o clima de paz, calma, amor, respeito, tolerância, amizade, apreciação do outro, bom comportamento, companheirismo e muito aprendizado.

Aprendizado de vida, de postura de estudante, de interação social, de habilidades de raciocínio, de pesquisa, de autogerenciamento. Percebem o trabalho das habilidades socioemocionais e, claro, notam que a linguagem, a matemática, as ciências também estão ali presentes.

A gente motiva, desperta interesse e facilita a aprendizagem para que cada um, com suas características únicas, aprenda o que ama, o que lhe faz sentido, o que vai de encontro ao seu propósito e o que se torna útil para si.

É humano, é assim que é.

É cada um e somos todos nós.

Assim, como se é.

Compartilhamento de experiência

Diante da minha experiência, em 2019 criei o projeto voluntário @TEAjudo.aprender (uma página no Instagram), com o objetivo de motivar as pessoas e divulgar conhecimento científico e boas práticas, para que professores e familiares possam acessar essas informações.

Busco distribuir tudo isso para todo mundo. Na escola em que trabalho ou fora dela, todos têm direito a educação e a minha vida é dedicada a alcançar pessoas que se interessam por esta história e ampliem isso para mais pessoas que, com amor, profissionalismo e dedicação, mudarão a vida de seus alunos.

Que felicidade a minha poder dividir com vocês o meu propósito de vida, a razão que move meus dias, o trabalho incansável de “generalizar” para todo o nosso país práticas educacionais inclusivas que irão dar a chance a todas as crianças de aprenderem com seu potencial máximo.


Compartilhe este conteúdo com seus amigos.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: