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Instituição cria modelo de educação inclusiva em comunidades periféricas do Quênia

Por Aldrin Jonathan

The Action Foundation promove formação de educadores para o desenvolvimento de práticas inclusivas no Quênia; organização também criou aplicativo de boas práticas

Embora a educação inclusiva tenha se ampliado nos últimos anos no Quênia, com a multiplicação de escolas inclusivas e o desenvolvimento de legislação específica, o país ainda encontra dificuldades para a sua implementação em comunidades vulneráveis.

Foto da cintura para cima de Maria Omare. Ela é uma mulher negra, com cerca de 30 anos. Seu cabelo tem tranças enraizadas e veste um terno amarelo com botões. Fim da descrição.
Maria Omare, fundadora e diretora executiva da The Action Foundation. (Foto: Maria Omare)

De acordo com Maria Omare, fundadora e diretora executiva da The Action Foundation (TAF), organização que contribui para a promoção da educação inclusiva no país, o direito à educação não é garantido a todos, uma vez que ainda há um número elevado de estudantes, principalmente com deficiência, fora da escola.

“Isso é acentuado pelos níveis de pobreza, restrições culturais, incluindo discriminação e preconceito, barreiras institucionais e falta de apoio do governo”, explica.

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Para minimizar as consequências desse cenário, a TAF foi criada em 2010. A organização apoia a formação de educadores para o desenvolvimento de práticas inclusivas.

Além de parcerias governamentais e a construção de redes de apoio, a organização criou um aplicativo Android para conectar comunidades escolares em prol de ações inclusivas.

Recentemente, também criou o projeto “Reciclar para transformar”, adotando o uso da tecnologia como solução para fornecer suporte de aprendizagem para estudantes com deficiência. O recurso está ligado ao baixo custo da tecnologia e à solução sustentável de utilizar materiais residuais, como papelão e papel reciclado, para produzir materiais pedagógicos.

Acompanhadas por educadora e sentadas em chão, quatro crianças brincam com tampinhas coloridas de garrafa retiradas de balde laranja. Ao fundo, caixas de papelão amontoadas no canto direito contrastam com livro sobre a mesa no canto esquerdo. Fim da descrição.
Foto: The Action Foundation

Confira abaixo a entrevista que Maria Omare concedeu ao DIVERSA. Ela analisa o atual cenário da educação inclusiva no país e destaca as principais ações da TAF.


DIVERSA Como está o processo de educação inclusiva no Quênia em geral?

Maria Omare – O Ministério da Educação do Quênia, desde 2008, vê a educação inclusiva como “um direito fundamental de todo cidadão e a oferece gratuitamente nas escolas primárias e secundárias a todos os alunos das escolas públicas”.

A Constituição também estabelece os direitos das pessoas com deficiência com oportunidades de acesso à educação e treinamento relevantes, inclusivos e de qualidade para alcançar seu potencial máximo e contribuir para o desenvolvimento nacional e modo de vida sustentável.

Entretanto, a educação inclusiva no Quênia está em fase inicial. Embora as práticas inclusivas estejam se estabelecendo nas instituições de ensino, ainda há um grande número de estudantes, particularmente aqueles com deficiência, que não frequentam a escola. Isso é acentuado pelos níveis de pobreza, restrições culturais, incluindo discriminação e preconceito, barreiras institucionais e falta de apoio do governo.

Existe alguma legislação que garanta o direito dos estudantes com deficiência de frequentar uma escola comum? 

A estrutura da Política Nacional de Educação Especial do Quênia visa garantir que a educação seja acessível a todos. Isso envolve a disponibilização de espaço, recursos e treinamento necessário a professores para que os estudantes com deficiência possam frequentar e aprender ao lado de estudantes sem deficiência nas escolas regulares.

As legislações implementadas têm sido marcos importantes para a matrícula e retenção de estudantes com deficiência nas escolas regulares. A Lei da Criança, de 2001, na seção 12, declara que: “uma criança com deficiência terá o direito de ser tratada com dignidade, receber educação e treinamento adequados gratuitamente ou a um custo reduzido sempre que possível”.

O que pode ser melhorado na implementação da educação inclusiva no Quênia?

A educação inclusiva no Quênia continua a enfrentar muitos desafios e sua implementação requer, portanto, melhorias para que sua missão seja alcançada.

O governo deve utilizar mais fundos para um orçamento educacional que procure estabelecer e melhorar a infraestrutura nas escolas, como modificações nas salas de aula, banheiros, rampas e playgrounds, para alcançar um ambiente amigável ao aluno nas escolas regulares.

Além disso, é preciso haver uma estrutura estabelecida para desenvolver a capacitação dos professores.

Qual é a importância das escolas inclusivas?

Essas escolas garantem a inclusão de estudantes com deficiências e também garantem sua participação na aula com outros estudantes, melhorando, assim, os resultados do aprendizado de todos.

Elas desempenham o papel de garantir a equidade de modo que nenhum estudante seja deixado de fora, uma vez que o ambiente de aprendizado se torna amigável para acomodar aqueles com diversas especificidades.

Além disso, promovem uma plataforma para que todos os alunos, independentemente de terem ou não deficiência, aprendam e prosperem.

Como a Action Foundation apoia os educadores?

A Action Foundation tem mantido, nos últimos anos, um programa destinado a promover a educação inclusiva em escolas de baixo custo em assentamentos informais.

Por meio do projeto de educação inclusiva, denominado Somesha, apoia crianças com deficiência a terem acesso à educação inclusiva de qualidade, a partir do programa Cuidados e Educação da Primeira Infância, à medida que elas fazem a transição para outros níveis de ensino.

Para isso, realiza treinamentos contínuos de preparação de professores sobre metodologias de ensino inclusivas, desenvolvimento de recursos e métodos de aprendizagem sob medida que contemplam alunos com deficiências variadas.

Isso é particularmente feito nas comunidades de Nairóbi, a saber Kibera, Mukuru e Kawangware, onde fornece apoio a educadores de mais de 26 escolas.

Como são conduzidas as parcerias com escolas e redes de apoio escolar?

A Action Foundation trabalha para estabelecer e fomentar fortes relações de trabalho com o governo municipal, escolas comunitárias parceiras, escolas especializadas e escolas regulares, em uma tentativa de apoiar a educação inclusiva.

As parcerias são estabelecidas com funcionários do conselho de administração e diretores de escolas selecionadas nos assentamentos informais onde a TAF opera, proporcionando treinamento para que eles garantam aprendizagem a todos os estudantes, com e sem deficiência. Por meio de reuniões consultivas e de sensibilização, as partes interessadas estão equipadas para promover o aprendizado inclusivo.

Como o projeto se relaciona e envolve a comunidade escolar e os membros da família?

O projeto envolve a comunidade escolar e os membros da família trabalhando com uma equipe de voluntários em saúde comunitária que identifica crianças com deficiências dentro e fora da escola, acompanhando sua matrícula e assegurando a retenção nas escolas.

Além disso, há a realização de visitas domiciliares para acompanhar rapidamente o progresso dos estudantes com deficiência e garantir que eles estejam se beneficiando do sistema de educação inclusiva.

Como são desenvolvidos os projetos de construção de materiais de baixo custo?

A Action Foundation trabalha no sentido de intervenções inovadoras personalizadas, baseadas no sistema de educação inclusiva por meio de avanços tecnológicos.

Com o projeto “Reciclar para transformar”, a Tecnologia Apropriada baseada em Papel (TAP) foi utilizada como solução para fornecer suporte de aprendizagem para estudantes com deficiência, criando materiais de apoio que são importantes para seu desenvolvimento.

A TAP está ligada ao baixo custo da tecnologia e à solução sustentável de utilizar materiais residuais que, na maioria das vezes, compreendem papelão e papel reciclado, para produzir produtos úteis que ajudam no processo de aprendizagem.

Como o desenvolvimento do kit de ferramentas e a construção do aplicativo Android melhoraram o desempenho da TAF?

A Action Foundation tem um kit de ferramentas abrangente e um guia de aprendizagem em casa para apoiar professores e familiares a avançar na educação inclusiva nos primeiros anos.

Nosso trabalho também envolveu o desenvolvimento do Somesha on-line, um aplicativo móvel sobre educação inclusiva que integra professores, alunos, mães, pais, entre outras partes interessadas, para comunicar, compartilhar e trocar ideias criativas sobre aprendizagem inclusiva e, ao mesmo tempo, oferecer apoio em sala de aula a alunos com deficiência.

O aplicativo contribuiu muito para impulsionar a promoção do aprendizado inclusivo, incorporando o aprendizado digital, particularmente durante o período da covid-19, no qual houve um amplo fechamento de escolas para conter a propagação do vírus.

Que conquistas a Action Foundation alcançou desde que foi criada? Como a TAF está mudando a maneira como as organizações locais veem e prestam serviços a crianças e jovens com deficiência?

A Action Foundation tem demonstrado que a educação inclusiva pode ser alcançada em áreas com recursos limitados. Temos sido bem-sucedidos em mudar as percepções negativas sobre a educação de crianças com deficiência entre os cuidadores, professores e proprietários de escolas.

As escolas, dentro das comunidades em que operamos, se tornaram escolas-modelo em educação para todos. Nossa abordagem holística busca eliminar as causas fundamentais da exclusão, incluindo pobreza, discriminação e falta de acesso a serviços cruciais.

Acreditamos que as crianças com deficiência prosperam quando são incluídas em todos os aspectos da vida social e são defensoras do apoio da comunidade e da aceitação da diversidade em nível de base, nacional e global.

Recebemos o Prêmio Nacional de Diversidade e Inclusão, na categoria de pessoas com deficiência. E, em 2020, ganhamos o prêmio Zero Project por nosso trabalho na educação infantil inclusiva.

Quais são os próximos passos que a TAF acredita serem importantes para a realização de uma educação inclusiva e de qualidade para todos os estudantes?

É fundamental que todas as partes interessadas trabalhem em colaboração e garantam a implementação adequada e eficiente das estruturas políticas existentes que buscam promover a educação inclusiva no Quênia.

São necessários maiores esforços de advocacy para uma educação inclusiva e de qualidade em todas as instituições de ensino, assegurando a conscientização e sensibilização das famílias, professores, conselho de administração e diretores de escola nos esforços para garantir que cada criança seja importante e que não seja deixada para trás. Essas parcerias garantirão que os estudantes com deficiência sejam contemplados e apoiados em sua busca por educação.

Melhorias na infraestrutura das instituições para uma integração adequada e sistemática dos alunos com deficiência nas escolas regulares, para que eles aprendam com seus pares sem deficiência. Isso promove coesão social e cooperação entre os alunos à medida que eles crescem e aprendem juntos em um ambiente mutuamente propício.

Ao trabalhar com os órgãos governamentais municipais e nacionais, com a administração local e os especialistas em educação, há ganhos consideráveis na promoção do aumento da matrícula, retenção e transição desses alunos para níveis mais elevados de aprendizagem.


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