Musical inspirado em O Rei Leão inclui alunos com e sem deficiência em escola de Fortaleza

Contar uma história de convívio entre diferentes por meio da dança e da música. Essa foi a proposta apresentada pela professora de educação física Márcia Gurgel a nós, seus colegas educadores na Escola Haroldo Jorge Braun Vieira, em Fortaleza (CE). Como participantes do curso Portas abertas para a inclusão, do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), tínhamos como missão criar atividades inclusivas. O desafio da docente, que tinha uma carreira de vinte anos com o jazz, foi aceito pelo grupo e em alguns meses produzimos o musical “O ciclo da vida”, inspirado no filme O Rei Leão. O espetáculo foi feito coletivamente por nossos estudantes com e sem deficiência e foi protagonizado por Emerson, garoto com autismo da educação infantil.

musical-fortaleza-1
O musical inspirado em O Rei Leão foi escolhido por ter narrativa sobre o convívio com as diferenças. Foto: Pat Albuquerque.
Localizada em uma comunidade de baixa renda da capital cearense, a Escola Haroldo Jorge atendia cerca de 660 alunos da educação infantil, do ensino fundamental e da educação de jovens e adultos (EJA) em três turnos. Entre eles, 27 apresentavam alguma deficiência e recebiam atendimento educacional especializado (AEE) na sala de recursos multifuncionais no contraturno. As especificidades presentes no ambiente escolar eram as deficiências intelectual e física e o transtorno do espectro autista (TEA).

Escolhemos a obra O Rei Leão como inspiração para a produção de um musical por considerarmos que sua narrativa permite falar de inclusão de modo lúdico e atrativo para as crianças e adolescentes. Na história, o pequeno Simba é expulso de seu bando e cresce sozinho na selva, tendo que lidar com a diversidade de animais e buscando acolhimento em outros grupos. A produção do espetáculo ocorreu durante as aulas de educação física e contou com a participação das turmas da educação infantil e do 1º ao 5º ano do ensino fundamental.

 

Antes do show: atividades interdisciplinares sobre inclusão

Nosso primeiro passo foi realizar uma reunião com a comunidade escolar para explicar a iniciativa. Ao final do encontro, exibimos um trecho do espetáculo musical de O Rei Leão. Em outro dia, para que os estudantes entendessem o roteiro, realizamos sessões do filme da Disney para todos na biblioteca da escola. Após assistirem à animação, os alunos foram estimulados a contar o que acharam da narrativa, discutindo temas como convívio com as diferenças, superação das adversidades, amizade, confiança, respeito etc.

musical-fortaleza-2
A diversidade, tema do espetáculo, esteve presente durante todo o projeto, do qual participaram alunos de diferentes idades com e sem deficiência. Foto: Pat Albuquerque.
Antes de partirmos para os ensaios, ainda promovemos outras atividades para que as crianças e adolescentes refletissem sobre o tema da inclusão. Com as turmas da educação infantil, fizemos oficinas de pintura e brincadeiras de imitação relacionadas ao filme. Emerson, um dos garotos com transtorno do espectro autista (TEA), destacou-se no trabalho em grupo e na dinâmica de imitação dos animais. Muito querido por seus colegas, ele foi posteriormente escolhido para interpretar Simba, o personagem principal do musical.

Para o ensino fundamental, as atividades de sensibilização também prepararam os estudantes para a apresentação do espetáculo. No 1º ano e 2º ano, os alunos participaram de debates sobre os personagens e recontaram a narrativa com bichos em miniatura. O 3º ano estudou a simbologia do filme e fez palavras-cruzadas. O 4º produziu textos, em dupla, recriando a narrativa. Por fim, o 5º ano desenhou quadrinhos e estudou a letra da música “O ciclo sem fim” nas aulas de português. A importância de valores, como união, amizade e cooperação foram mensagens que perpassaram todas essas ações.

Com caráter interdisciplinar, as atividades preparatórias para o musical permitiram o envolvimento de professores de diferentes disciplinas. Muitos ainda estavam atrelados a um ensino tradicional: cadeiras enfileiradas, alunos como meros expectadores e o livro como principal recurso didático. Com o projeto, propomos que usassem outros arranjos metodológicos. Para isso, os docentes contaram com o apoio do atendimento educacional especializado (AEE), que usou pranchas de comunicação temáticas para facilitar a aprendizagem das crianças e adolescentes com deficiência intelectual.

 

O musical “O ciclo da vida”

Por fim, a montagem do espetáculo começou. Os ensaios ocorreram duas vezes por semana, no contraturno, para todos estudantes interessados. Eles próprios realizaram a distribuição dos personagens principais, elencando muitos colegas com deficiência. Além de Emerson como protagonista, Miguel e Mariana, ambos com deficiência intelectual, interpretaram os pais de Simba. Rafael, garoto com deficiência física do 4º ano, foi Zazu, o pássaro conselheiro de Mufasa. Os demais puderam ser o animal que quisessem na coreografia.

Os figurinos foram adquiridos de modo colaborativo. A professora de educação física doou roupas de seu acervo e muitos alunos trouxeram apetrechos de casa para emprestar a seus colegas. Na escola, confeccionamos batas com TNT e outros adereços com EVA. Os educadores foram responsáveis pela produção do cenário com pássaros de origami.

Veja como o musical “O ciclo da vida” foi produzido na Escola Haroldo Jorge Braun Vieira:

O vídeo está disponível com recursos de acessibilidade em Libras e audiodescrição.

 

Resultados e continuidade

musical-fortaleza-3
Após interpretar Simba, Emerson melhorou sua concentração na sala de aula. Foto: Pat Albuquerque.
A apresentação serviu para fortalecer a autoestima e a autonomia de nossas crianças e adolescentes. Emerson, que era extremamente tímido, se soltou sendo um leão e começou a se concentrar mais nas aulas. Guilherme, que também tem TEA e dificuldade em se entrosar com os colegas, passou a cantar as músicas em casa e, de acordo com sua avó, demonstrou interesse em continuar a desenhar.

Com a realização do projeto, entendemos que para uma escola ser realmente inclusiva, cada um importa. O tema principal da peça, a diversidade, se refletiu na pluralidade de estudantes de diferentes idades e habilidades. Sobretudo, mostramos que todos são capazes de dançar e participar. Temos intenção de ampliar a iniciativa nos próximos anos, introduzindo mais músicas e alunos no espetáculo para contar a história do rei da selva sem cortes.

Projeto participante do curso Portas abertas para a inclusão. Esta experiência faz parte da Coletânea de práticas 2016.

Compartilhe este conteúdo com seus amigos.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: