Educação física e AEE se unem para incluir aluno com autismo em circuito motor

Pedro e uma amiga estão sentados no chão da quadra, de mãos dadas. Ambos sorriem.
Com projeto de circuito motor e corridas na educação física, Pedro aprendeu a se divertir com colegas. Foto: Pat Albuquerque.
Matriculado há três anos na mesma turma da Escola Municipal dos Vinhedos, em Curitiba (PR), Pedro ensinou seus colegas a conviverem com as diferenças desde cedo. O estudante tem autismo e apresentava alguns dos comportamentos característicos do transtorno, como dificuldade para compreender regras e preferência por brincar sozinho. Nas aulas em quadra, costumava fugir ou, quando ficava, não participava das atividades. Para vencer essas barreiras foi necessário aproximar o trabalho dos docentes de educação física e do atendimento especializado (AEE). Juntos, criamos o circuito motor com corrida, projeto que beneficiou toda turma e deu a Pedro a oportunidade de aprender a se divertir com os colegas.

Localizada em uma comunidade ítalo-brasileira da capital paranaense, a Escola Municipal Dos Vinhedos oferta educação infantil, ensino fundamental e educação de jovens e adultos (EJA) para cerca de 700 alunos. Em 2015, a unidade participou do curso Portas Abertas para a Inclusão, do Instituto Rodrigo Mendes (IRM). A partir dessa formação, entendemos a importância do trabalho conjunto entre AEE e sala regular e reformulamos nossa rotina de planejamento, desafiados a criar estratégias pedagógicas inclusivas para as 30 crianças da turma de 4º ano na qual Pedro estudava.

Seguindo os eixos curriculares definidos pela rede municipal, flexibilizamos uma série de exercícios para permitir o desenvolvimento cognitivo – por meio de estímulos à memória, à atenção e à concentração – e motor dos alunos, trabalhando a coordenação, lateralidade e estruturação espacial. Para incentivar a interação, inserimos também corridas de revezamento, em grupo e em dupla. O material utilizado para a concretização do circuito motor com corrida foi aquele disponível na escola: cordas amarradas a cones formaram as barreiras e bambolês foram usados para criar uma amarelinha no chão. Os equipamentos foram distribuídos em estações pela quadra.

 

Circuito motor e corrida

Pedro chuta uma bola contra o gol com auxílio de uma colega, que o segura pelas mãos. A professora está ao lado orientando o movimento.
As atividades foram escolhidas por estimular memória, atenção, concentração, coordenação motora, lateralidade e estruturação espacial dos estudantes. Foto: Pat Albuquerque.
Os estudantes iniciavam o circuito motor pulando amarelinha nos bambolês. Depois, saltavam duas barreiras até chegar a uma bola de futebol, que chutavam contra um gol de tamanho reduzido, delimitado por dois cones. Em seguida, eles se dirigiam a uma cesta de basquete, pegavam uma bola colocada sobre um cone e a arremessavam com as duas mãos. Quando a bola retornava, eles a colocavam novamente sobre o objeto. Por fim, jogavam uma pequena bola de borracha dentro de um balde e, na última estação, derrubavam pinos de boliche.

Na sequência foram realizadas as atividades de corrida de revezamento. Na modalidade em dupla, cada criança segurava a extremidade de um bastão e, juntos, corriam até a marcação no fim da quadra. Elas voltavam para a fila e passavam o objeto para a próxima dupla. O processo era repetido até que todos tivessem participado. Já na versão em grupo, os estudantes eram divididos em cinco grupos posicionados um ao lado do outro. Ao sinal da professora, o primeiro de cada fila corria até os bambolês na ponta oposta da quadra, levantando o bastão ao colocar os dois pés dentro do arco. Ao final do projeto foi realizada uma roda de conversa com os alunos e o registro em desenho das atividades favoritas.

As estações contavam com cartazes com representações em desenho do movimento solicitado e pequenas instruções textuais como “saltar”, “correr”, “derrubar”. Essa flexibilização foi pensada para facilitar a compreensão das crianças que aprendem mais facilmente por estímulos visuais. Além disso, qualquer aluno poderia solicitar ajuda a um colega em qualquer atividade.

Veja como foi realizado o circuito motor e corrida na Escola Municipal dos Vinhedos:

O vídeo está disponível com recursos de acessibilidade em Libras e audiodescrição.

 

Resultados e continuidade

Dois garotos ajoelhados ao chão arrumam os pinos de boliche na posição correta. Atrás, uma fila de estudantes aguarda sua vez para derrubar os objetos. A primeira estudante da fila segura uma bola verde.
As atividades desenvolvidas no projeto foram registradas em uma apostila e distribuídas para as escolas da região. Foto: Pat Albuquerque.
Pedro participou de todas atividades propostas, esperando por sua vez com calma e respeitando as regras. Verificamos melhorias em sua atenção e acreditamos que seus colegas ganharam um amigo mais presente. Após o projeto, a mãe do estudante comentou que, em casa, ele passou a chamar os pais para jogar basquete e tem demonstrado mais interesse por brincar com amigos. A questão pedagógica também avançou: ele passou a reconhecer mais palavras e a fazer pesquisas na internet sozinho.

A partir da parceria firmada entre educação física e AEE, elaboramos uma apostila com informações sobre o transtorno do espectro autista, planos de ação divididos por eixo escolar e indicação de conteúdos para ampliar os conhecimentos em educação inclusiva. Baseados na experiência com o circuito motor e com as corridas de revezamento, os planejamentos dessa publicação traziam o conteúdo trabalhado nas aulas, objetivos, descrição da atividade, flexibilizações, reflexões, possíveis modificações e avaliação. A equipe gestora disponibilizou todos materiais e recursos para a impressão do material, que foi distribuído nas escolas do bairro.

Projeto participante do curso Portas Abertas para a inclusão 2015 Site externoSite externoSite externo. Esta experiência faz parte da Coletânea de práticas 2015 Site externoSite externo.

Compartilhe este conteúdo com seus amigos.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: