Creche muda postura para incluir criança sem laudo médico definido

Quando Pedro* chegou à educação infantil da Escola Municipal de Educação Básica (EMEB) Professora Suzete Besagio Ruiz, em Poá (SP), logo notamos “algo” no garoto, possivelmente algum transtorno. A educação especial do município foi acionada e deu início a uma série de ações junto aos familiares e à equipe da creche para investigar o quadro. Mas a família do estudante teve certa resistência em aceitar a situação. Eram muitos os relatos de dificuldades em realizar as consultas médicas e as avaliações com profissionais de reabilitação indicadas para o aluno. Por isso, não havia um laudo médico definido.

Em sala de aula, Pedro não ficava parado e fazia o que queria. Isso dificultava nossa ação pedagógica. Na sala de estimulação, onde recebia o atendimento educacional especializado (AEE), sua participação era maior. Mas com o decorrer dos meses, o garoto não atingiu o esperado pela creche e pela família. A mãe chegou a solicitar a mudança de escola, mas concordou em mantê-lo no mesmo estágio no próximo ano para que tivesse mais uma oportunidade.

No ano seguinte, contudo, a situação pouco mudou. A família continuava resistindo às nossas solicitações. No ambiente escolar, o aluno apresentava dificuldades para comer, mostrava-se intolerante com portas fechadas e tinha o hábito de tirar as roupas quando era contrariado. Ele ouvia e compreendia bem o que lhe era dito, mas não usava a fala para se comunicar. Interagia com adultos e quase nada com os colegas. A equipe da sala de recursos via avanços nas propostas individualizadas feitas ao estudante, mas os resultados positivos não se repetiam na sala regular.

 

O aluno antes do laudo médico

No mesmo período, fomos chamados para participar do DIVERSA presencial, uma formação em serviço oferecida pelo Instituto Rodrigo Mendes (IRM). Ao longo de encontros semanais, o curso articula a teoria e a prática da educação inclusiva com a realidade das escolas a partir da discussão de situações reais de diversas redes de educação. O caso de Pedro foi escolhido para a discussão. Participaram nós, um grupo formado por educadores, membros da equipe gestora da escola e técnicos da secretaria de educação de Poá.

Ao longo da formação, percebemos que o fato de não termos ainda um laudo médico não nos impedia de fazer algo. O fato é que a escola conhecia o estudante e sabia muito sobre suas possibilidades e limites. Mudamos nossa postura com relação ao aluno e sua família, respeitando seu tempo e suas diferenças e colocando-se como parceiros do pai e da mãe na busca por estratégias para inclui-lo.

Foram necessárias muitas conversas com os pais para que eles se olhassem para as potencialidades de seu filho. Mas a paciência e o esforço valeram a pena. A certa altura do ano, a mãe nos contou como até mesmo os outros familiares começaram a olhá-lo de outra maneira. Assim, Pedro pôde se mostrar mais, no seu ritmo, como ele é.

 

As lições aprendidas

Durante nossa participação no DIVERSA presencial, um dos membros do grupo, o diretor da escola, Samuel Barboza, sintetizou a experiência em dois cordéis:

Pedro é nosso aluno
da cidade de Poá.
Sua história do início
quero aqui relatar
Depois que Pedro nasceu,
com muito amor ele cresceu,
no seio familiar.

O garoto foi crescendo
e já dava pra notar
que ele não suportava
ninguém o contrariar.
Gritava, chutava e mordia
e ninguém o atendia
sem conseguir ajudar.

Matriculado na primeira escola,
não sabia o que fazer
no meio de tantas crianças
sem ninguém lhe conhecer.
Se tivesse um par de asas,
voaria para casa
praquela escola esquecer.

Foi para uma escola nova
e enfim recomeçar.
Mas o costume era mesmo.
Não podiam contrariar,
jogava-se ao chão,
nem queria ouvir “não”
e rotina nem pensar.

Mas a história de Pedro
estava prestes a mudar.
Tia Érica e Stefânia,
profissionais do lugar,
Rosilaine e Vitória,
mudariam sua história
por meio do educar.

E com a professora Ana
da estimulação,
juntamente com os pais,
para a real inclusão,
ele começou entender
que na verdade aprender
era grande diversão.

 

Com a mamãe e o papai
em casa faz a lição.
Obedece aos comandos,
escuta com atenção.
E é bom o envolvimento,
pois assim tá aprendendo
com a socialização.

Com o apoio do DIVERSA
houve uma transformação.
Com a Liliane e a Patrícia
fazendo a interação,
compartilhando experiências,
e também outras vivências
com todos que aqui estão.

Peruíbe e Ibiúna
Santo André e Cruzeiro
com os seus depoimentos
nos tornamos bons parceiros.
E a cada superação
nos dava inspiração
que valeu mais que dinheiro.

 

Resultados

Pedro não tira mais as roupas quando escuta um “não”. Os pais assumiram uma postura mais colaborativa com a escola, notadamente com a professora de AEE. Os conflitos diminuíram. Dificuldades com a alimentação e a rotina ainda estão presentes, mas muitas conquistas se sobressaíram: o empoderamento da família e a participação e presença da mãe e do pai nas atividades escolares e sociais.

A formação proporcionada pelo Instituto Rodrigues Mendes nos fez refletir sobre as responsabilidades de todos no processo de inclusão do garoto. Saímos convictos de que vale a pena tentar, refletir e insistir em prol de uma escola inclusiva. Temos muitas coisas a fazer e faremos toda a diferença se formos atuantes.

* Nome fictício para preservar a identidade do estudante

 

Projeto participante do DIVERSA presencial 2017.

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