13 séries para pensar a deficiência como potência
Convidados pelo DIVERSA, pessoas com deficiência indicam séries que rompem com o discurso da superação e mostram a deficiência para além do estereótipo

Assim como os filmes, as séries com pessoas com deficiência podem contribuir para ampliar a presença desses indivíduos nas telas e, principalmente, para questionar as formas como esses corpos e suas experiências são representados. Quando essas narrativas se afastam de estereótipos capacitistas, ajudam a mostrar pessoas com deficiência em diferentes papéis, relações e contextos, não apenas a partir da deficiência.
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Séries com pessoas com deficiência podem contribuir para construir narrativas mais diversas e romper com perspectivas que historicamente associam a deficiência à superação, à fragilidade ou à excepcionalidade.
Por isso, o DIVERSA convidou pessoas com deficiência ligadas à educação, à comunicação e ao audiovisual para indicar séries que ajudam a refletir sobre deficiência, representatividade e capacitismo. A lista conta, ainda, com uma indicação de Augusto Galery, coordenador de gestão educacional do Instituto Rodrigo Mendes (IRM).
A seguir, confira as séries com pessoas com deficiência escolhidas por nossos entrevistados e os motivos que fazem de cada uma delas uma oportunidade para ampliar o olhar sobre a deficiência.
Por que vale assistir?
“É uma série com pessoas com deficiência que praticam esportes de ação, mas numa abordagem que foge do estereótipo da superação ou do super-herói. Um diretor ou diretora sem deficiência jamais teria a abordagem que eu tive, porque o discurso da superação ligado a atletas com deficiência é muito presente no senso comum. A importância de ter um diretor com deficiência é justamente trazer esse outro olhar, que não estereotipa os personagens, e provocar o espectador para uma mudança na forma de perceber o esporte e os atletas paralímpicos. Porque esse discurso do herói é uma forma muito capacitista. Assim como o coitadinho, ele também nos desumaniza.”
Por que vale assistir?
“A primeira série com pessoas com deficiência que indico é ‘Justiça 2’, da qual eu faço parte do elenco, mas não só por isso. O meu personagem sequer fala sobre o fato de ter nanismo, então, a escalação de um ator com nanismo para um personagem que não foi escrito com nanismo é muito importante para a gente não ficar taxado só nesse lugar de falar sobre a nossa deficiência, mas poder interpretar qualquer papel. Além disso, tem a presença de outra pessoa com deficiência, que é o Luciano Mauman, interpretando o Cassiano. A série também utilizou tecnologia e recursos de inteligência artificial para fazer o personagem do Cassiano andar em uma cena de flashback. Ou seja, não utilizou a desculpa de que teria uma cena de flashback caminhando para escalar um ator sem deficiência para interpretar um cadeirante, mas se preocupou em escalar um ator cadeirante para interpretar um personagem cadeirante. Destaco a série pela presença de dois corpos com deficiência dentro da mesma trama.”
Por que vale assistir?
“Recomendo ‘Pulso’ por alguns motivos. O primeiro deles é porque a personagem realmente é uma pessoa com deficiência na vida real. Segundo, porque a personagem com deficiência é irmã da protagonista e a condição física não é o foco da série, mas também não é invisibilizada. Em alguns episódios, mostra situações de capacitismo. E, por último, porque a personagem é uma médica e é interessante ver como uma pessoa com deficiência pode exercer essa profissão em um contexto de pronto-socorro.”
Por que vale assistir?
“Minha segunda sugestão de séries com pessoas com deficiência é ‘Special’, do Ryan O’Connell, que, além de ator protagonista da série, é também o roteirista. Então, isso é muito importante para mostrar o lugar de representatividade não só na frente das telas, mas também atrás, de quem está contando essa história. E a gente percebe muito bem isso no roteiro, como ele foi escrito a partir do corpo de uma pessoa com deficiência. E é muito bonito como ele coloca o humor dentro dessa série, como tem um humor para lidar com assuntos que muitas vezes são tabus.”
Por que vale assistir?
“Ela me faz pensar que a representatividade acontece quando mostra alguém que não é reduzido ao diagnóstico, mas à vida que tenta construir para além dele. Existe potência no cotidiano nessa série: autonomia, vínculos, tentativas de pertencimento. Fico encantado quando a série mostra que representatividade é um processo em construção, não algo fechado. E é por isso que, às vezes, meu coração sorri e se enche de esperança quando vejo isso. É uma série que conversa com você e diz: ‘Coisas ruins podem acontecer, mas também é possível desfrutar alguns momentos dessa experiência de ser humano e se alegrar junto às pessoas que nos amam’.”
Por que vale assistir?
“Indico 3%” porque é uma série que faz questionar temas como meritocracia, exclusão, desigualdade social e eugenia.”
Por que vale assistir?
“Indico também ‘Divisão Palermo’, série argentina que, tanto na primeira temporada quanto na segunda, conta com muitos atores com deficiências diversas dentro do elenco, trazendo uma representatividade bem ampla e abordando, de uma forma também muito bem-humorada, com o humor típico argentino, temas sobre deficiência.”
Por que vale assistir?
“Além de contar com uma boa audiodescrição, essa é uma série em que a personagem principal é uma moça cega. Embora a atriz que interpreta a personagem não seja uma pessoa com deficiência na vida real, a série não mostra a cegueira como tema central. Tem vários enredos interessantes que ajudam a contar essa história, mostrando toda a potência da personagem principal trabalhando, se desenvolvendo e construindo a família dela.”
Por que vale assistir?
“Essa série traz uma ideia de potência muito ligada à performance e ao raciocínio técnico. Isso pode inspirar, mas também limita, e, por isso, precisamos ter muito cuidado. A representatividade fica mais completa quando a gente entende que diferentes formas de pensar e perceber o mundo não precisam ser comparadas a um padrão de excelência. Inclusão é um lugar onde ninguém precisa se esforçar para ser reconhecido como ser humano. E ver alguém com a mesma condição que a minha conseguir ser respeitado no trabalho ee valorizado em suas potencialidades me faz acreditar que, apesar de a realidade ser dolorosa, é possível chegar perto dessa experiência.”
Por que vale assistir?
“Apesar de não ser uma série com pessoas com deficiência, ´Os Dinossauros´ é uma série documental que tem sons maravilhosos. Eles fizeram um trabalho de reprodução incrível e é uma série com audiodescrição. A narração da dublagem é espetacular, uma voz muito agradável de se ouvir. Para quem é das antigas e assistiu “24 Horas“, é o mesmo dublador que dublava o Jack Bauer. Então, para mim, existe também essa memória afetiva. Não é a voz da audiodescritora, que é uma mulher, então, não se confunde com a dublagem, que é feita por um homem, e fica bem equilibrado. Ao assisti-la, consegui imaginar as cenas a partir das descrições dela. Não é uma audiodescrição cansativa, que rouba todo o som do áudio original, ou seja, do que está acontecendo ao redor, mas que nos permite formar também a imagem dos dinossauros. Como eu amo dinossauros, para mim, é uma série que vale muito a pena ser assistida.”
Por que vale assistir?
“Mesmo sem afirmar oficialmente que Sheldon Cooper tenha TEA, a série acabou gerando identificação em muitas pessoas. Apesar do humor e de alguns exageros, existe ali a ideia de uma vida possível: trabalho, vínculos, rotina e relações. Isso pode ser lido como potência, no sentido de existir e sustentar um modo próprio de estar no mundo. Ele consegue construir amizades e relacionamentos que dizem, sem precisar de palavras. A possibilidade de ser autêntico me faz acreditar em um tipo de afeto nas relações sociais no qual eu posso ser eu mesmo e conseguir ser visto.”
Por que vale assistir?
“Embora a série apresente a deficiência atravessada por situações bastante maradas pelo capacitismo, o personagem Brian Irvine, interpretado por Daniel Monks, traz uma discussão importante sobre autonomia e direito de escolha. Brian é uma pessoa com deficiência e é frequentemente hostilizado por sua forma de caminhar, além de ser violentamente pressionado a se submeter à reabilitação. Em determinado momento, porém, ele se revolta e passa a sustentar o próprio desejo: o de utilizar uma cadeira de rodas. A escolha deixa de ser apresentada como uma derrota e passa a ser compreendida como uma possibilidade de ter mais qualidade de vida, autonomia e agência sobre o próprio corpo. Acho interessante justamente porque a série permite pensar sobre quem decide o que é melhor para uma pessoa com deficiência. Nem sempre aquilo que é apresentado como ‘reabilitação’ ou como tentativa de aproximar o corpo de um determinado padrão significa, para aquela pessoa, mais liberdade. Às vezes, garantir autonomia é justamente possibilitar que ela escolha como quer viver e quais recursos fazem sentido para sua vida”.
Por que vale assistir?
“Na série, que retoma os mitos e deuses da mitologia grega, temos o personagem Dédalo. Pai de Ícaro, é retratado na série como um gênio, inventor e artesão. Esse personagem brilhante é interpretado pelo também genial Mat Fraser, ator, músico, escritor que nasceu com má-formação nos braços devido aos efeitos do medicamento Talidomida (hoje proibido em todo o mundo). Ele também é um importante ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. A beleza da série está na naturalidade com que a diversidade é apresentada, na qual ninguém questiona ‘mas como pode uma pessoa com deficiência ser um excelente artesão?’. O personagem não tem de se provar heroico por ter uma deficiência. Não há diálogos do tipo ‘Que inspiração para quem não tem deficiência!‘. Dédalo apenas é junto com seus pares.”












